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Como Ser Solteira

Como Ser Solteira

A diferença entre um filme que denuncia o machismo e um filme machista

Ana Flavia Gerhardt - 22 de novembro de 2019

Neste fim de semana, tive a oportunidade de assistir a dois filmes voltados para a discussão do patriarcado e relacionados ao campo de conhecimento do feminismo branco: “A Vida Invisível“, de Karim Aïnouz (indicado do Brasil ao Oscar 2020), e “Como Ser Solteira”, de Christian Ditter (2016), agora disponível na Netflix. Essa coincidência me permite comentar “Como Ser Solteira” não apenas em relação ao que vemos na tela. Posso também incluir aquilo que um filme sobre o comportamento sexual das mulheres na contemporaneidade poderia ter sido, mas não encontramos em “Como Ser Solteira”. Na comparação entre os dois filmes, um aspecto interessante: ao abordar três diferentes formas de oprimir as mulheres no patriarcado brasileiro, “A vida invisível” é um filme de denúncia do machismo. E, contrariamente, “Como Ser Solteira”, sobre mulheres que fazem sexo fora do casamento, termina por ser um filme machista.

Tem sido comum a existência de filmes estadunidenses que pretendem descrever uma sociedade que se transformou nos costumes, mas acabam resultando no contrário do que planejaram. Alguns deles até contam com atrizes que se propõem a desconstruir os preconceitos que atingem as mulheres brancas. É o caso de “Descompensada” (2015), estrelado pela iconoclasta Amy Schumer, mas com enredo decepcionantemente conservador. “Como Ser Solteira” se junta a esse infeliz conjunto de filmes, que seguem mais ou menos o mesmo enredo: moças com comportamento sexual não conservador que acabam sofrendo por isso, e no fim encontram a felicidade nos braços de algum macho salvador.

Como ser solteira

 

E, para contrabalançar e dar alguma impressão de proposta feminista, há sempre a amiga que serve de contraponto: ou aquela que cabe perfeitamente no molde patriarcal mas está mortalmente infeliz, ou aquela que escancara a “vida loca” mas que sofre as consequências sociais disso. No fim das contas, tanto as “recatadas e do lar” quanto as que escolhem uma vida sexual não tradicional acabam sendo punidas de alguma forma. São punidas apenas por serem mulheres.

“Como ser solteira” inova no modelo de filme machista introduzindo um novo tipo de mulher contemporânea que é punida por seu comportamento transgressor. Trata-se de Robin, vivida por Rebel Wilson. Confesso que assisti ao filme por causa de Wilson, que acho sempre muito acima da média em todos os trabalhos de que participa. Em especial, está excelente em “Megarromântico” (2019), que rompe com estereótipos de imagem feminina e introduz elementos cênicos que valorizam seu talento e elevam o nível das produções do gênero.

Em “Como Ser Solteira”, Wilson encarna uma personagem que felizmente escapa do tema da gordofobia e em nenhum momento demonstra arrependimento por seu comportamento sexual transgressor. Mas é tratada no filme como uma louca (como apontou uma amiga), mentalmente perturbada e com problemas de ordem sexual. Qualquer outra faceta de sua personalidade diferente disso é mostrada apenas ao fim da projeção. Fica difícil para o espectador reconhecer que Robin é obviamente a mulher mais emocionalmente centrada do filme.

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Está lá outra atriz conhecida do público, e que tem tomado iniciativas de sair da personagem que a notabilizou: Dakota Johnson (Alice), ainda marcada pela comportada Anastasia Steele (até o nome é cafona) da péssima trilogia iniciada com “50 tons de cinza”. Não penso ser possível assistir a “Como Ser Solteira” sem pensar em Anastasia. O filme pode até ser visto como um processo de ruptura de mulheres presas ao machismo, se elas resolverem subverter o patriarcado ocidental em busca de uma maior autonomia emocional, sem a presença de homens “salvadores” para amparar sua vida e torná-la confortável socialmente. Nesse pormenor, “Como Ser Solteira” acerta ao tornar verossímil a trajetória de Alice, que tropeça em vários pontos (aprender é assim…) até ser capaz de escolher caminhos de vida que atendam a seus próprios objetivos pessoais, e não ao que ela pensa que os outros esperam dela.

Mas aí há dois problemas. Um deles é que, no caminho de Alice, há pelo menos duas outras mulheres que contradizem a proposta do filme de questionar seriamente os padrões de comportamento feminino tradicional. A primeira é sua irmã Meg (Leslie Mann), profissional independente mas vítima da obrigação da maternidade e de precisar de um homem que a ampare nessa empreitada. A segunda é Lucy (Alison Brie), fixamente empenhada em conseguir para si um casamento com o homem que idealizou, e para isso afasta qualquer possibilidade de viver o desejo sexual com intensidade e sinceridade, mas sem as garantias do casamento, algo que é oferecido pelo bartender Tom (Anders Holm).

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É bastante constrangedor o conteúdo do discurso em que a personagem confessa sua exaustão em relação às iniciativas de encontrar um príncipe encantado, sobretudo quando a gente pensa que muitas mulheres ainda desejam isso. Porém, lamentavelmente, esse discurso para si mesma não representa a iniciativa de novas tomadas de postura. O máximo de subversão a que Lucy se permite é se casar com um homem que conheceu fora dos aplicativos de relacionamento e não corresponde ao padrão racial ocidental. Mas fica evidente que ele será seu defensor, inclusive defensor do desejo e do perigo representado por homens por quem Lucy inequivocamente se interessa.

O outro problema é que o filme talvez seria um pouco melhor se pelo menos Alice se comparasse a essas outras mulheres para tomar suas decisões de vida. Mas não: o que ocorre é que essas decisões e as ações delas decorrentes são implementadas à medida em que ela se avalia no relacionamento com outros homens. E é péssimo que eles estejam de alguma forma presentes até no movimento máximo de liberdade da protagonista. Ou seja: para todas as personagens, à exceção da lúcida Robin, os homens é que acabam por ser o parâmetro de vida das mulheres do filme, até de sua independência.

Como ser solteira

De todo modo, assistir a filmes machistas como “Como Ser Solteira” acaba sendo tão importante quando prestigiar o ótimo cinema nacional atual, que responde às tentativas de censura com obras sofisticadas como “A Vida Invisível”, que por sua vez alavanca a popularidade da premiada literatura da escritora Martha Batalha, de onde o filme é adaptado. Filmes machistas acabam revelando aquilo que representam: o machismo é ainda uma força maligna, capaz de se camuflar em trabalhos artísticos de proposta feminista. No entanto, eles devem ser vistos mediante um corte preciso entre, de um lado, o comportamento machista em um filme questionador, e, de outro, uma obra estruturalmente machista, mesmo com personagens femininas independentes. Aprender a separar o joio preconceituoso do trigo progressista nas obras artísticas é uma das demandas do mundo contemporâneo.

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