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A Chegada

A Chegada

Gustavo Pereira - 10 de outubro de 2016

À abertura do Festival do Rio 2016, o diretor canadense Denis Villeneuve (Sicario: Terra de Ninguém, O Homem Duplicado, Os Suspeitos e Incêndios) disse em vídeo destinado à plateia carioca que desejava há anos dirigir uma ficção científica. Faltava-lhe uma boa história. Essa carência se resolveu quando ele teve acesso ao conto Story of Your Life, de Ted Chiang. Destacando a beleza do roteiro que Eric Heisserer escreveu a partir do conto original, Villeneuve disse que foi fácil convocar um elenco pesado e gravar o longa.

A introdução do diretor para a própria obra denota conhecimento e modéstia: de fato, a premissa de A Chegada é instigante e reflexiva, e a beleza do roteiro de Heisserer exala da maioria dos diálogos da narradora-protagonista-mãe Louise Banks (Amy Adams), mas este filme não foi “fácil” de ser feito. E é inegável a participação decisiva de Villeneuve para transformá-lo em um fortíssimo candidato a clássico da ficção científica.

O filme começa com uma suave transição do teto da casa de Louise para a sala com varanda ampla. Do céu para a terra, olhando para fora. A narração, da própria Louise, fala sobre um drama pessoal e dos dias que mudam vidas, como “o dia em que eles chegaram”.

“Eles” são os alienígenas guiando 12 naves chamadas de “conchas” pelos militares, as “estacionando” em pontos aparentemente aleatórios da Terra. Banks, linguista-referência em traduções e professora universitária, é recrutada para ajudar na tradução das mensagens que os heptapodes (“sete pés” em grego) enviam a cada 18 horas, quando permitem que humanos entrem nas conchas para estabelecer contato. O matemático teórico Ian Donnelly (Jeremy Renner) é seu parceiro na tentativa de se comunicar com os visitantes de outro mundo.

É imperativo descobrir o que os heptapodes querem e de onde são, antes que a tensão suba a níveis perigosos e o mundo entre numa grande guerra. De fato, o filme se preocupa em mostrar, regularmente, como o planeta está lidando com o desconhecido. O velho pânico de sempre: calamidade pública, preços de alimentos aumentando vertiginosamente, saques, violência etc.

Cada governo nos países onde há uma concha lida com a questão de forma diferente, até que o clímax dramático apresentado no trailer, de que os alienígenas estão aqui para “oferecer uma arma” coloca o mundo, de fato, à beira de uma guerra, pois a China está prestes a atacar sua concha. A única saída é um trabalho em equipe para entender o significado da mensagem, e as diferenças culturais e políticas dentro do planeta se colocam no meio para dificultar uma solução pacífica.

O trabalho primoroso de Villeneuve está em usar o pretexto de uma invasão alienígena para discutir o que define a Humanidade. Seu filme evoca sentimentos com a mesma maestria apresentada por Stanley Kubrick em 2001: Uma Odisseia no Espaço, com rimas visuais entre os filmes, como a primeira incursão à concha, tão familiar à descoberta do monólito na Lua. A trilha de Jóhann Jóhannsson faz a tensão criar densidade a ponto de poder ser cortada no ar, quase tão desconfortável quanto o Réquiem de Ligeti usado por Kubrick.

A Chegada (acima) e 2001 (abaixo): tensão diante do desconhecido

A Chegada (acima) e 2001 (abaixo): tensão diante do desconhecido

Kubrick foi esmiuçado por Villeneuve, que transformou A Chegada em uma obra de metalinguagem: em uma sequência de planos, o isolamento de Louise não é apenas físico, mas um reforço para sua condição de isolamento emocional no mundo; Quando entram na concha, a falta de gravidade vira uma saída para o diretor explorar visualmente o absurdo da situação da raça humana estar diante de seres tão evoluídos horas após descobrir que não está sozinha no universo.

Enquadramento ilógico reforça a ideia de que a situação em si desafia a lógica humana

Enquadramento ilógico reforça a ideia de que a situação em si desafia a lógica humana

A fotografia contrasta os heptapodes e os humanos com luz e sombra, indicando que estamos nas trevas da ignorância, enquanto a relação de Louise com a filha (principalmente, mas também com Donnelly) é iluminada por luzes naturais, nos colocando à mercê das forças da natureza, como em A Árvore da Vida de Malick. Não importa qual o contexto, nunca estamos no controle da situação, algo recorrentemente explorado na película.

A Chegada (acima) e A Árvore da Vida (abaixo): as relações humanas são naturais como a luz do dia

A Chegada (acima) e A Árvore da Vida (abaixo): as relações humanas são naturais como a luz do dia

O grande trunfo de A Chegada, entretanto, é colocar a Humanidade em uma pessoa e transformar sua vida e suas escolhas em parábolas sobre nossa existência. Dentro de uma grande crise de identidade global, nos vemos diante de um drama particular que reúne os principais anseios da nossa espécie. Este ensaio sobre a linguagem nos libera da sala de cinema pensativos sobre a forma como interpretamos tempo, espaço e arbítrio, questionando se a beleza da estrada por onde caminhamos é mais importante do que o destino para o qual nos dirigimos.

E, no fim das contas, é.

 

 

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