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Aquarius

Aquarius

Matheus Fiore - 23 de agosto de 2016

Aquarius, novo filme do diretor pernambucano Kléber Mendonça Filho (responsável pelo espetacular O Som Ao Redor), é, antes de mais nada, uma obra sobre memórias e saudade, que tem como roupagem da trama uma crítica à especulação imobiliária que inflaciona imóveis e contribui para a distorção da arquitetura de inúmeras cidades do país. O primeiro ato do longa se passa quase quarenta anos antes do resto da história, e nos apresenta Clara, a protagonista, recém recuperada de um câncer.

Esta parte inicial do filme é essencial para compreendermos as ligações entre os personagens, suas histórias, problemas e experiências. Há um belíssimo momento onde cria-se um laço emocional entre uma personagem e um objeto do apartamento que mostra o quão significativo pode ser algo teoricamente banal na vida de uma pessoa.

A principal cena do primeiro ato, que mostra um apartamento cheio, no prédio que dá título ao filme, com uma grande e unida família, é engatada com uma do mesmo local, décadas depois, praticamente vazio, ocupado apenas por Clara, uma das presentes na cena inicial. Clara, que no passado se recuperava de um câncer e tinha seu cabelo raspado, agora exibe um cabelo longo que, ao ser repetidamente remexido pela personagem, ajuda a montar uma aura imponente e madura para a protagonista, que é interpretada com muito talento pela excelente Sônia Braga.

A protagonista, aliás, conduz a narrativa praticamente sozinha. Em um dos melhores momentos do roteiro e do filme, ela explica o porquê de preferir ouvir música por mídia física do que por streaming ou MP3. A mídia física, afinal, guarda uma história, uma interação do consumidor com o produto e com a arte. Esta relação do ser humano com o material é posteriormente expandida quando uma empreiteira tenta, a todo custo, tirar Clara de seu apartamento para construir um condomínio de luxo. A questão não é simplesmente o objeto ou o imóvel, e sim os sentimentos que estes despertam.

Um dos pontos mais interessantes de Aquarius é perceber como os antagonistas de Clara (principalmente o clássico filhinho de papai Diego, bem interpretado por Humberto Carrão) não possuem a menor sensibilidade de entender que ela não desapega de seu lar não por questões financeiras, e sim sentimentais. O tema, mesmo já tendo sido explorado no cinema, ainda é extremamente atual e funciona.

O saudosismo da protagonista é muito bem construído não só pelo roteiro e pela direção, mas pela direção de arte e pela fotografia. No passado, o prédio Aquarius era pintado com uma cor rosa desbotada, enquanto no presente, ele é azul. Clara, porém, usa roupas com o mesmo tom de rosa que seu lar possuía no passado. Mais adiante no filme, o prédio é pintado de branco, e nessa altura do filme, Clara também usa a cor dominantemente em seu figurino, mostrando sua sintonia com seu lar.

Os movimentos de câmera também são fundamentais para mostrar o isolamento da personagem de Sonia Braga, mostrando os acontecimentos da rua pela janela e deslocando o plano até ela, em seu apartamento, alheia à todos. O som, assim como no filme anterior de Mendonça, também é essencial na construção narrativa, principalmente em um dos encontros de Clara com os “antagonistas”, quando eles saem do campo de visão, mas suas pegadas continuam presentes, conduzindo a cena até o encontro.

Com uma narrativa mais focada e direta do que a de seu filme anterior, Kleber Mendonça Filho faz mais um ótimo estudo social sobre o Brasil contemporâneo. Aquarius é, assim como O Som Ao Redor, um triste porém realista retrato de uma faceta negra da nossa esquizofrênica sociedade.

 

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