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Ninguém Está Olhando

Ninguém Está Olhando

Matheus Fiore - 22 de novembro de 2017

Há dois filmes em Ninguém Está Olhando, nova obra de Julia Solomonoff. O primeiro é um drama sobre um imigrante que tenta sobreviver na “terra das oportunidades”: Nico, um ator argentino que, no auge de sua carreira, decide largar seu país natal e arriscar vôos mais altos em Nova Iorque. Lá, porém, o ator entra em colisão com a realidade do século XXI: a América estereotipa os latinos, os vê como macacos em um circo. As oportunidades que para ele surgem se resumem a pontas como personagem latino ou ferramenta para introduzir crianças ao idioma espanhol. O segundo filme é um drama “novelento” sobre cicatrizes de relacionamentos. Nos Estados Unidos, Nico constantemente foge das ligações de Martínez, antigo colega de trabalho com quem o protagonista teve um relacionamento.

Curiosamente, os dois filmes são tratados de forma unificada. Ninguém Está Olhando não se propõe a dividir sua narrativa em momento algum. O longa é, então, um drama sobre um homem atormentado que, paralelamente à rejeição que encontra na Grande Maçã, precisa lidar com suas questões amorosas. Solomonof opta por manter um olhar distante da situação do protagonista. A narrativa in media res – isto é, que se inicia no meio da história – nos joga de paraquedas no dia-a-dia de Nico para, sem nenhuma intenção de explicar seu histórico ou contexto, nos deixar a par de cada fragmento de sua personalidade e rotina por meio dos acontecimentos de sua vida na América.

Nico e seu amigo apreciam a gigantesca Nova Iorque.

Nico e seu amigo apreciam a gigantesca Nova Iorque.

Entre os detalhes que constróem a rotina e a personalidade de Nico, alguns se sobressaem por permitirem análises mais íntimas. A aparente cleptomania do personagem, por exemplo, primeiramente surge como uma solução para sua falta de recursos, principalmente quando acompanhada por um sistema do argentino que consiste em recolher notas fiscais e as utilizar em um esquema para comprar itens sem pagar. Mas, conforme vemos a recorrência dos furtos de Nico, percebemos que eles são parte de um impulso quase autodestrutivo do personagem, que rouba pequenos comércios e, na fuga, faz questão de encarar a câmera para que os sistemas de segurança tenham seu rosto registrado, quase como se pedisse para ser deportado. De tal atitude podemos tirar várias conclusões, podendo destacar as interpretações de que, com isso, Nico se sente “revidando” o preconceito que sofre na América, ou realiza uma forma de escapismo por meio da adrenalina. É notável, ainda, que Solomonoff traga diversos planos de Nico nos limites da cidade. Nessas passagens, o ator está sempre distante da cidade, separado por um rio, simbolizando seu distanciamento psicológico de Nova Iorque.

O roteiro, porém, nunca se esforça para desenvolver os sentimentos de Nico, o que acaba ajudando a manter a já mencionada distância entre a obra e o público. Nico pouco verbaliza suas angústias, o que por um lado funciona para construir uma persona introspectiva, mas por outro impede que seu sofrimento seja palpável. A direção de Solomonoff, em contrapartida, se esforça para traçar o perfil psicológico de seu protagonista, mesmo que sem sutileza. Há planos que trazem o personagem encarando seu reflexo distorcido em uma vidraça, por exemplo, transformando em imagem a perda de identidade de Nico. Alguns momentos exageram na exposição, como quando Nico tem um conflito com uma amiga e subitamente entra em um pequeno comércio para furtar coisas, tornando óbvia a relação entre seus roubos e sua fraqueza psicológica.

Nico e seu amigo apreciam a gigantesca Nova Iorque.

Planos com o protagonista e a cidade separados pelo rio trazem forte valor simbólico: Nico está em Nova Iorque, mas não se sente incluído na cidade.

A perda de identidade do ator surge também por meio do figurino e do cabelo. No uso do figurino, Nico mantém uma variação de tons de azul e vermelho. O azul sempre remete a sua terra natal, enquanto o vermelho é usado quando o personagem protagoniza momentos amorosos (perceba como Nico insiste em procurar pela camisa quando vai encontrar uma paixão antiga). Há, ainda, uma mudança para roupas mais largas e de tons fechados, justamente quando o personagem se despersonifica. Conforme se aproxima da chance de ganhar um papel como ator na América, Nico tinge seu cabelo de preto, para se adequar melhor ao estereótipo do latino moreno – e é interessante notar como ele remove a tinta justamente quando vai encontrar um conterrâneo, mostrando como tenta criar uma personalidade falsa para conquistar a América.

Há escolhas narrativas excepcionais na construção da psique de Nico. Percebemos, por exemplo, que, conforme se aproxima de uma poderosa empresária do ramo do entretenimento, o personagem passa a vislumbrar a possibilidade de sucesso. Nico, porém, vê sua vida profissional, mais uma vez, interferir na pessoal: assim como no passado o ator protagonizava uma novela cujo produtor teve com ele um caso extra-conjugal, há a sugestão de que, em troca da ajuda no ramo artístico, esta empresária estaria interessada em um relacionamento com ele. Felizmente, tal relação não é expressa por diálogos (um acerto), e Solomonoff confia que seu público fará a conexão por si só. Como bom cinema, Ninguém Está Olhando aposta na força de suas imagens e confia que o espectador fará os paralelos necessários de forma independente.

Considerando que a ida de Nico a Nova Iorque não é um mero esforço profissional, mas sim uma busca por respostas e recuperação psicológica, é fascinante que o argentino tenha como principal fonte de renda o serviço de babá. Nico lida, em boa parte de sua rotina, com bebês, e demonstra por eles enorme apreço, o que simboliza seu forte desejo por um recomeço na América. As cenas que trazem o personagem contracenando com crianças ainda são uma forte ferramenta para humanização da fria figura de Nico, que  ganha ainda mais huamanidade quando notamos que o personagem se desdobra e até se prejudica para manter a falsa imagem do sucesso profissional para seus amigos e familiares, que constantemente o visitam ou ligam para saber sobre seus futuros projetos artísticos.

Ninguém Está Olhando tem duas claras histórias: tratar da dificuldade de penetração de um imigrante no mercado artístico americano e acompanhar uma jornada de cicatrização e aceitação do fracasso. A primeira – que considero mais interessante – funciona por ser sempre adjacente à trama: mesmo quando as cenas são centradas no esforço profissional de Nico, sua vida pessoal surge para tomar as rédeas da narrativa. Já a segunda, mesmo que a priori não seja tão empolgante, torna-se interessante a partir do segundo ato, quando compreendemos que tudo que permeia a vida do ator é fruto de seus fantasmas do passado. Com isso, Ninguém Está Olhando faz com que suas duas histórias sejam simultâneas, mas não paralelas: é uma obra sobre amor, decepção, autoaceitação e escapismo. Sobre pessoas que, incapazes de aceitar suas condições, sejam elas sociais ou profissionais, buscam se isolar em outros lugares.

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