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Desobediência

Desobediência

Ana Flavia Gerhardt - 16 de julho de 2018

Na primeira cena de “Desobediência”, um rabino desenvolve sua preleção numa sinagoga abordando o tema do livre arbítrio como propriedade concedida por Deus exclusivamente aos seres humanos. Sua fala acaba sendo interrompida porque ele cai desmaiado em função da doença que o matará, mas o conteúdo já é suficiente para que possamos construir a hipótese que definirá o tom do filme: a ideia da vida como sendo pautada por escolhas.

Essa hipótese é fortalecida com o próprio título da obra: tratar-se-á de uma narrativa em que as escolhas em questão dirão respeito a obedecer ou desobedecer a modelos previamente instituídos de vida íntima e social, os quais têm sido ditados há séculos pela religião – judaica ou qualquer outra, tanto faz, já que praticamente todas giram em torno de controles sobre os comportamentos humanos em todas as esferas.

Outro elemento de reforço dessa hipótese é o cenário em que o rabino realiza sua preleção: chamo a atenção para o fato de que, durante sua fala, os assentos da sinagoga não estão todos ocupados. Os lugares vazios, a meu ver tão importantes quanto os preenchidos, evidenciam que estar ali ou não ouvindo o rabino, entre outras práticas relacionadas ao judaísmo, também é uma escolha. Que, evidentemente, acarretará efeitos e consequências profundas e abrangentes na vida de quem escolheu, já que não lhe é possível envolver-se apenas parcialmente com sua religião. Ou se está completamente dentro, ou completamente fora. Meios-termos não são aceitos.

Para desenvolver o tema das escolhas de vida e suas consequências, o diretor chileno Sebastián Lelio, agora mundialmente famoso pelo Oscar de Filme Estrangeiro concedido a seu filme “Uma mulher fantástica” este ano, focaliza a amizade entre três jovens judeus: as moças Ronit (Rachel Weist) e Esti (Rachel McAdams), e o rapaz Dovid (Alessandro Nivola). O relacionamento entre eles se complica em função daquilo que por séculos tem sido um dos maiores objetos de controle das religiões patriarcais: o desejo, em particular o desejo sexual, mas não apenas o desejo homoafetivo; mesmo o sexo publicamente autorizado pelo casamento também é controlado, a fim de que não haja qualquer brecha para que o fiel desconfie se fez a escolha certa ou não. O problema, claro, é quando ele começa a desconfiar.

Optando por não realizar flashbacks e mostrar os personagens se reencontrando no momento atual após longa separação, Lelio é brilhante em deixar explícito, mas sempre de forma sutil e delicada, o grau de intimidade e afeto a que chegaram essas três pessoas no passado: na surpresa feliz de se reencontrarem, nos gostos em comum que compartilharam, na vontade de se tocarem fisicamente, na menção a fatos que marcaram suas vidas juntos e nas iniciativas de estarem em presença umas das outras, mesmo em momentos de constrangimento.

Igualmente, e em consonância com a hipótese que construímos já na primeira cena do filme, fica muito evidente também o desconforto que o reencontro lhes causa e o fracasso das tentativas de realizar alguma concessão ao momento, ao lugar e às pessoas que giram em torno deles durante os dias em que precisam estar juntos para as homenagens ao rabino morto, pai de Ronit. Esse desconforto, que evolui para um conflito insuperável, advém justamente das escolhas que fizeram quando foram chamados a elas: Dovid e Esti escolheram obedecer, mas Ronit escolheu desobedecer, e ser portanto uma das ausências entre os assentos da sinagoga.

As consequências de sua escolha para a comunidade judaica da qual participava por nascimento logo começam a ser sentidas por ela em sua breve visita. Embora não rejeitada fisicamente pelos membros em geral de seu antigo grupo, ela é lembrada a todo momento de que não mais pertence àquele lugar, nos vários sentidos que esse pertencimento comporta, e no conforto e proteção que perdeu por ter se apartado dele. Para os que escolheram  permanecer na comunidade, não é possível a Ronit ser feliz na condição de pária. Ronit, por sua vez, não enxerga qualquer chance de felicidade entre aquelas pessoas. Eles a renegam, mas ela os renega também.

Da mesma forma, Esti e Dovid também são forçados a lidar com os efeitos da vida em obediência às regras judaicas, que conduzem as suas vidas diuturnamente. Para Dovid, esses efeitos não são sentidos de forma muito evidente, inclusive porque as religiões de base patriarcal garantem poder e proeminência social aos membros do sexo masculino, portanto fica mais difícil enxergar numa primeira visada o quanto o machismo que essas religiões encerram oprime e afeta destrutivamente a vida dos homens.

Mas para Esti a vida é muito mais difícil, o que fica inequívoco com a atuação complexa e espontânea de Rachel McAdams. A necessidade de reprimir completamente seu desejo e justificar-se com frágeis argumentos que não resistem à primeira discordância, o desequilíbrio abissal entre a vida infeliz que enfrenta e o pouco que tem de compensação, e o sentimento recalcado que explode com a presença de Ronit permitem à atriz construir a personagem com o arco mais interessante do filme. Sua atuação em meio a esses conflitos todos é um presente fino aos espectadores e representa um passo adiante eu seu amadurecimento artístico, algo que temos testemunhado com prazer ao longo dos últimos anos.

Mas preciso salientar que o desempenho de McAdams é favorecido pelos trabalhos dos dois outros atores que constituem o triângulo principal do filme: Rachel Weist e Alessandro Nivola, junto com McAdams, embarcam com inteligente precisão na sutileza e no registro contido, às vezes sufocado, mas liberado nos momentos cruciais, que Sebastián Lelis imprime à narrativa. Os momentos-chave são sempre definidos sem exageros interpretativos, o que está de acordo com o universo controlado da comunidade em que os personagens se criaram.

A ausência de exageros tem também a vantagem de abrir espaço em nossa mente para identificarmos outra das grandes qualidades do filme: a de permanecer em nossa memória não só pelas características formais ou técnicas, mas sim por também dar o valor devido às ideias abordadas e sua importância em nossa vida. Afinal, quase todos nós nascemos e crescemos sob alguma denominação religiosa, tendo às vezes de renunciar ao que mais desejamos por crermos na promessa divina de proteção durante a vida e salvação depois da morte. E isso muitas vezes requer que amputemos nossas partes mais interessantes.

Nesse sentido, o livre arbítrio propagado pelo rabino na primeira cena de “Desobediência” é falacioso, já que as religiões judaico-cristãs, com base no mito do Éden, pregam que a escolha por obedecer a preceitos milenarmente imutáveis concede tudo o que há de supostamente bom na vida ao fiel, e a escolha em desobedecer a eles priva o infiel de tudo aquilo que é concedido por Deus aos que acreditam nele e estão dispostos a sacrificar sua auto-gestão e seu prazer para serem protegidos e amparados. A liberdade existe, mas quem ousará pagar seu preço?

“Desobediência” torna-se um filme ainda mais importante quando nos damos conta do momento histórico perigoso que o mundo todo enfrenta neste momento, em que governantes e candidatos a governantes fascistas prometem proteção em troca de controle total sobre a vida social e íntima de sociedades inteiras. A escolha entre eleger ou não governantes fascistas e fundamentalistas implica uma outra escolha, ainda mais pesada: a que há entre, de um lado, poder continuar a fazer escolhas ao longo da vida e, como qualquer adulto, responsabilizar-se por elas; e, por outro lado, não mais poder fazer escolha nenhuma, delegando essa prerrogativa a outras pessoas, acreditando que elas podem fazer isso melhor que nós.

Um dos problemas produzidos por religiões como aquela em que Ronit, Esti e Dovid se criaram é o de estabelecer como verdade, e isso fica evidente numa das falas de Esti, que não existe nenhuma forma possível de viver sem ser aquela em que escolhemos ser tutelados e desperdiçamos a vida obedecendo, não apenas a Deus, mas também a pais, governantes etc., usando nosso livre-arbítrio exatamente para abrir mão dele. Será que vale a pena? Essa pergunta extremamente atual e urgente é o centro temático de “Desobediência”, e, junto com as qualidades artísticas do filme, compõe uma obra praticamente obrigatória como elemento de discussão para os que buscam bússolas éticas em tempos de perdição emocional, política e social.

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