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Dor e Glória

Dor e Glória

Pedro Almodóvar resume sua carreira e, provavelmente, sua vida.

Ana Flavia Gerhardt - 6 de agosto de 2019

Pedro Almodóvar é um cineasta que se transforma. A transformação amarra a sequência de seus filmes, que começa nos primeiros curtas na década de setenta, passa pelo êxito internacional de “Mulheres à beira de um ataque de nervos” em 1988, que nos fez conhecer seus expressivos longas anteriores, sofre revezes com filmes menos relevantes e alcança ápices de genialidade com “A pele que Habito” e agora este maravilhoso “Dor e Glória”.

De fato, para uma carreira tão longa, brilhante e prolífica, é de se esperar que os interesses de Almodóvar se transformem tematicamente. Perscrutando as íntimas paixões humanas, como traição, ciúme e abandono, Almodóvar manifesta grande interesse por temas sociais igualmente apaixonantes: transgenia, feminismo, eutanásia, estupro, masculinidade tóxica, todos eles atravessando sentimentos poderosos que não escolhem gênero nem orientação sexual.

Salvador Mallo

Mas, ao mesmo tempo, Almodóvar é também um cineasta de uma só grande e única questão: o desejo. Em seus filmes, mulheres e homens se vêem igualmente presas do desejo, que se mantém como fio condutor das tramas. Perseguindo o desejo como problema fundamental, Almodóvar se torna um intelectual interessado em compreendê-lo em todas as suas facetas, as que nos destroem e também as que nos vitalizam. Não é por acaso que a produtora ligada aos filmes do espanhol se chama El Deseo.

E não é por acaso também que o vermelho, a cor do desejo, está presente nos cenários e figurinos de praticamente todos os seus filmes. O vermelho está para lembrar que o desejo existe e sobrevive mesmo subjugado pelo sofrimento, como o que acomete o enfermo crônico Salvador Mallo, vivido soberbamente por Antonio Banderas, vencedor em Cannes 2019. E que o desejo, qualquer que seja, de vida, de prazer, de realizações, sempre se imporá, porque não há quem e o que o domine. Almodóvar mostra que a libido é um universo amplo de possibilidades, e em “Dor e Glória” isso não é diferente.

“Dor e Glória” também é um filme de transformações. Narra duas histórias paralelas, sendo que ambas se dividem em duas partes: a parte da dor e a parte da glória. Ambas evoluem a partir de fatos desencadeadores de transformações (sempre…) na vida dos protagonistas. E, a aparecer como divisor de águas entre o que era dor e passa a ser glória, surge o desejo.

A história de Salvador menino começa com dor: em uma escola para onde foi contra a vontade e onde não lhe deixaram estudar as disciplinas que lhe trariam conhecimento; em uma família onde há amor mas os recursos escasseiam – sua mãe (Penélope Cruz) sequer pode pagar uma pousada para que possam dormir num lugar quente enquanto esperam o trem da manhã; em uma casa-caverna improvisada onde chove dentro e é a imagem concreta das condições precárias de sua família. Sua mãe sempre lhe lembra que ele é um menino pobre, e por isso precisa da ajuda das outras pessoas para alcançar uma vida melhor do que ela lhe pode oferecer.

Salvador e sua família

Mesmo assim, o desejo está presente na alegria que Salvador sente em viver na ensolarada Espanha e em estar numa casa tão interessante – uma caverna onde se vê o céu no meio da sala -, e nas soluções estéticas que sua mãe cria para o ambiente simples. Está presente nas cores que quebram o branco da casa (é significativo que alguns objetos se repetem no apartamento de Salvador adulto) e já despontam como elementos da personalidade de Salvador que o salvarão no futuro.

O divisor de águas que transforma o menino em ser desejante se impõe justamente com o desejo por aquele que age para inserir sua casa numa dimensão estética, para mostrar que ali dentro vivem pessoas desejantes. Nesse sentido, acho relevante demais que o desenho que mostra um Salvador já envolvido com a escrita, expressão artística do homem a quem ele ensinou a luz das letras, tenha sido feito sobre um papel que uma vez havia embalado a cal que branqueou a caverna.

Salvador criança

Esse detalhe sugere o interesse de Almodóvar ainda sobre as transformações, mas não apenas aquelas que se dão no tempo. O desenho nos permite pensar que as coisas em si estão em dialética interna constante: ora dão suporte para o cotidiano, ora sustentam a Arte refinada e transcendental. Junto com o desejo, a Arte, para Almodóvar, é a glória que todos trazemos em nosso interior e que permanece forte o suficiente para não se deixar vencer pela dor.

A história de Salvador adulto também começa com dor, e com um outro tipo de pobreza: uma pobreza física, da deterioração do corpo, que o impede de mover-se com a energia que deseja e tornar material aquilo que sua mente incansável ainda produz. A contenção que Antonio Banderas imprime ao personagem explicita a dor física constante e a desesperança de um Salvador Mallo alquebrado e sem tônus. Já que seu cérebro e suas mãos ainda funcionam, não lhe resta outra alternativa além de escrever essa dor, e na escrita de Salvador se aloca o desejo que se mantém como última fortaleza de uma existência que desistiu de se mover.

Reiterando a dialética das coisas presente na história do Salvador menino, a expressão da dor de um é, ao mesmo tempo, a expressão da glória de outro: o ator Alberto Crespo (Asier Etxeandia) insiste em interpretar as confissões de Salvador, e o faz com brilho absoluto. Assim como ocorre com a criança, a dor que vira glória atrai o divisor de águas materializado naquele a quem Salvador amou no passado (Leonardo Sbaraglia). A rápida presença dessa pessoa já é suficiente para Salvador se lembrar de seu desejo, que, renascido, lhe permitirá realizar os sonhos que ainda alimenta e o motivará a curar o corpo cansado de sofrer. Ao contrário do que defendem as narrativas-clichê, o desejo não arrefece com a idade: renova-se a cada fluxo de oxigênio que invade os pulmões.

Salvador e amiga

Alguns críticos sugerem que “Dor e Glória” tem marcas autobiográficas pessoais e profissionais: o corte de cabelo de Salvador que emula a famosa cabeleira do diretor, os três anos passados desde seu último filme junto com os três anos de inércia do protagonista, o nome Salvador Mallo como um anagrama de Almodóvar. Nada mais natural: de todo modo, tudo o que criamos, em termos artísticos e intelectuais, traz nossas marcas pessoais, crenças, sentimentos e aprendizados.

Tornar perceptível o conteúdo de nossa consciência é uma forma de exorcizar os demônios cujos efeitos maléficos a falta de expressão apenas aumenta, e de (re)afirmar a potência que todos trazemos em nossa alma e tem no desejo seu grande combustível propulsor. O surpreendente final de “Dor e Glória” sugere que se trata de um filme sobre como, mesmo contraditoriamente, o sofrimento e o gozo são os dois lados de uma mesma moeda.

A grande ideia que fica em nós e permanecerá mesmo depois de sairmos do cinema é a de que o desejo é o instrumento para enfrentarmos a contradição de sermos seres que a um só tempo sofremos a dor e gozamos a glória. E, através desse enfrentamento, poderemos transformar a vida em movimento e criação.

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