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Eles Só Usam Black Tie

Eles Só Usam Black Tie

Gustavo Pereira - 7 de março de 2017

Um caldeirão cultural. Esta é a África do Sul, tão semelhante ao Brasil. Se a Copa do Mundo de Futebol em 2010 já havia disparado este gatilho, Eles Só Usam Black Tie é um tiroteio. Um país que conviveu durante anos com a segregação racial institucionalizada, germinou um sonho apenas para vê-lo se tornar uma erva daninha.

Black Tie fala da primeira geração de jovens de classe média-alta sul-africana nascida sob a bandeira multiétnica do fim do apartheid, regime de segregação racial que perdurou por quase 50 anos no país. O evento catalisador do longa é o suicídio de Emily (Kelly Bates), transmitido ao vivo para mais de dez milhões de pessoas no aniversário do Levante de Soweto. Cerca de um ano depois, os amigos de Emily são entrevistados para tentar entender o que se passava com ela para motivá-la a fazer o que o fez.

O diretor Sibs Shongwe-La Mer cria um jogral de eventos, organizados por personagem, se sobrepondo às respostas de cada um nas entrevistas. Desta forma, o filme não segue uma ordem cronológica de eventos, estando mais para uma máquina de escrever: vai até o final da linha e depois volta. Mas não escreve na próxima linha, acrescenta informações à anterior.

O grupo de amigos de Emily é totalmente diversificado: o que eles têm em comum, além da condição financeiramente privilegiada, é a falta de conhecimento sobre o que se passava na vida de sua amiga. Repetidamente, o filme nos mostra que os personagens não estão preocupados com o mundo que os cerca. Nikki (Emma Tollman) diz exatamente “nós só queremos cuidar dos nossos próprios problemas”. Elegantemente, La Mer mostra uma África do Sul repleta de carros (forma mais impessoal possível de mostrar pessoas), mas vazia de gente. Excetuando-se quando os protagonistas interagem com alguém – e são maravilhosas as cenas da farmácia e do táxi –, praticamente ninguém mais aparece. A dualidade do país se mostra em discursos vazios ilustrados por imagens desoladas de uma nação que tentou, mas não se uniu.

Desta forma, a escolha do diretor de fotografia Chuanne Blofield em deixar as sequências do presente em preto-e-branco convertido, retirando as cores na pós-produção, indicam que a vida daquela terra se foi. Isso é reforçado pelas imagens amadoras de festas infantis onde os protagonistas brincam juntos e felizes. Estas são as únicas imagens com cores de Black Tie, sugerindo que ali, imediatamente após o Apartheid, havia esperança. Mas ela se foi.

O filme peca na montagem. Mesmo sendo uma ideia interessante e pertinente, é realmente um pouco mais confusa do que o necessário. Isso dificulta um pouco no dimensionamento da relevância de cada personagem, que parece insignificante numa narrativa e toma um lugar de destaque na próxima. Mas no geral, a mensagem de Eles Só Usam Black Tie é clara. A segregação sempre foi mais uma questão econômica do que racial. E os moradores de Sandton, “o metro quadrado mais caro da África do Sul”, por mais diferentes que sejam entre si, são muito mais parecidos do que são capazes de perceber – ou admitir.

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