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Em Guerra

Em Guerra

O neoliberalismo na prática

Ana Flavia Gerhardt - 21 de outubro de 2019

O momento clímax de “Em Guerra”, parceria mais recente da dupla composta pelo diretor francês Stéphane Brizé e o ator Vincent Lindon (“O valor de um homem” (2015), trabalho mais recente dos dois, rendeu a Lindon o prêmio de melhor ator em Cannes), faz lembrar fortemente “Bacurau” (2019), de Kleber Mendonça Filho. A analogia é automática: trata-se de um momento de catarse, afinado à crescente tensão que caracteriza ambos os filmes. Após o diálogo intenso que “Bacurau” inspirou, chega o tempo de refletir e dialogar bastante sobre as ideias que Brizet desenvolve, numa espécie de continuação para “O valor de um homem”, hipótese reforçada pelo protagonismo do sempre excelente Vincent Lindon.

Embora em algum momento se atravessem, as distinções estruturais entre “Em Guerra” e “Bacurau” são muitas. A maior delas diz respeito ao fato de “Bacurau” se desenvolver num plano limitado à dimensão micropolítica do povoado, ainda que a dimensão macropolítica seja facilmente inferida pelos espectadores minimamente politizados. “Em Guerra”, por sua vez, efetua a sobreposição de três dimensões da História: a macropolítica, materializada nos embates entre, de um lado, um grupo de funcionários grevistas de uma fábrica de componentes automotivos lutando por seus empregos, e, de outro lado, seus patrões; a micropolítica, que descreve o interior do movimento e suas concordâncias e discordâncias; e a pessoal, relacionada aos efeitos da superexposição do líder Laurent Amédéo (Lindon) em sua vida emocional e cotidiana.

Um filme em três dimensões

A dimensão macropolítica enquadrada no filme mostra a nós brasileiros como se dá o avanço neoliberal em países que ocupam o centro da estrutura capitalista de mundo (o Brasil sendo um dos que ocupam a periferia, evidentemente). Não se pode deixar passar que os personagens são franceses e brancos, pessoas que no passado usufruíram do estado de bem estar social instituído na Europa do pós II Guerra e do Plano Marshall, condição fortalecida pelo capitalismo industrial em expansão, que proporcionava fartos empregos e benefícios sociais.

Vincent Lindon

“Em Guerra” atualiza a discussão sobre a divergência entre capital e trabalho para o século 21, prevendo que um dia essa divergência acabará porque o trabalho acabará. O neoliberalismo e a decorrente desindustrialização progressiva que tem afetado os países periféricos da estrutura capitalista nas últimas três décadas chegou à Europa. Agora, os trabalhadores europeus também precisam lidar com a eliminação de postos de trabalho causada pelo recrudescimento do rentismo. Essa situação é lembrada explicitamente nas falas dos trabalhadores que lutam contra o fechamento da fábrica: segundo eles, isso ocorre porque os acionistas decidiram que não estão lucrando o suficiente com ela.

Do lado dos patrões, o script do filme é genial em reiterar, por algum tempo, uma mesma construção sintática: o contraste entre uma frase positiva seguida da conjunção “mas”: “a reivindicação de vocês é justa, mas…”; “sabemos que o acordo de trabalho assinado há dois anos não foi respeitado, mas…”. Aos poucos, à medida que a negociação vai se impossibilitando e o endurecimento dos patrões vai sendo desmascarado, essa construção desaparece e cede lugar às negações diretas, que expandem não apenas o pensamento da elite do capital mundial mas também outras verdades que as ações dos grevistas a obrigam a explicitar.

Na derradeira rodada de negociação entre os grupos em conflito, uma das advogadas da empresa chama de “ilusão” a contraproposta dos trabalhadores e governo francês para não fechar a fábrica. Não satisfeita com isso, ela chega a reconhecer que é impossível pensar numa outra estrutura de mundo diferente da que é comandada pelo “mercado” (estou usando entre aspas porque hoje não deve haver palavra de sentido mais indefinido) e seus agentes financeiros. Não é a primeira vez que vejo sendo proposta a possibilidade de existir um mundo fora das regras de existência definidas pelo capital. Há poucas semanas, isso foi dito por Contardo Calligaris em sua coluna na Folha de São Paulo, e por Paulo Ghiraldelli no Youtube. Sabemos que quem ousa desejar isso não raro se dá muito mal.

Vincent Lindon

Os estudos em Descolonialismo postulam que, diferentemente do que dizem os políticos e economistas, não é possível a um país da periferia do capitalismo ascender à posição central, porque, numa simbiose sinistra, ambos os lugares se retroalimentam e se necessitam mutuamente. Sobre essa ideia, é possível também afirmar que o movimento contrário não é possível, porque os países centrais não possuem as riquezas que os países periféricos têm lhes fornecido por séculos. Na impossibilidade de se moverem para a outra posição no xadrez global, não há outra alternativa aos países centrais além de se dobrarem ao poder e à determinação das corporações financeiras em que muitas companhias produtivas estão se tornando.

Essa realidade é o elemento central da narrativa de “Em Guerra”, evidenciando a impotência cada vez maior dos Estados, agora reféns das corporações, e dos trabalhadores no grande jogo financeiro de um capital globalizado, que vai para onde é mais vantajoso – no caso do filme, a Romênia, onde as pessoas aceitariam empregos por salários muito menores que os franceses. Nessa condição, resta ver como os grevistas reagem ao fato de que se tornaram inapelavelmente inúteis e obsoletos, e que agora suas vidas valem tanto quanto têm valido as vidas das pessoas do Terceiro Mundo por séculos.

O poder do capital afetando as relações humanas

O movimento dos empregados da fábrica se estende por meses, em natural processo de desgaste. Há os que querem desistir, bem como há o perigo constante de as pessoas se voltarem umas contra as outras – e muitos, contra o líder Laurent Amédéo e seus companheiros mais próximos. Por isso, é necessário um esforço hercúleo de todos para resistir sem salário, com a persistente recusa dos patrões franceses e alemães em negociar sem prepostos, com a mídia trabalhando para desacreditá-los, e com a falta de apoio de parte da população.

Nos momentos em que estão juntos, travam-se embates em que é preciso reunir e expor argumentações que se sobreponham à realidade cada vez mais precária dos 1100 empregados da fábrica. Porém, chega a ser bonito ver o resultado dessa luta com a superação das diferenças, e os membros mais revoltosos também ocupando lugar à mesa de negociação.

Vincent Lindon

Os momentos mais angustiantes ocorrem quando os trabalhadores resistem nos piquetes e buscam em grupo o diálogo com os patrões, encontrando aí as forças policiais. Repete-se então o que se vê no Brasil: policiais e trabalhadores, todos no mesmo lugar na pirâmide social, todos igualmente descartáveis para as elites rentistas, lutando entre si como se fossem diferentes espécies sociais, para o próprio prejuízo, mas para o lucro dos que já estão muito ricos.

Em “Em Guerra”, a música pensada por Bertrand Blessing é eficiente para reforçar o sentimento do grupo em tensão. Por exemplo, nos períodos em que eles esperam indefinidamente por uma resposta dos patrões para reabrir negociações, ouve-se uma trilha que repete indefinidamente o mesmo compasso, sem avançar ou retroceder em intensidade. Nos embates com a polícia, o que ocorre é o contrário: a música se intensifica, intensificando também nosso sufocamento ao ver pessoas se apertando e se empurrando numa tensão crescente, que não sabemos como vai terminar, mas sempre esperando o pior.

Como permanecermos lutando contra adversários tão poderosos

No centro desses conflitos, e portanto das imagens, sempre está Vincent Lindon. Desta vez, Brizet não o filma como se o perseguisse, como em “O Valor de um Homem”. Laurent Amédéo está no foco em todas as situações, mas, como líder, aparece cercado dos companheiros, como falante primário e interlocutor principal. Vivendo na montanha russa que vai da tensão quase desesperadora ao desânimo deprimente, Laurent busca manter-se mentalmente são, procurando acompanhar a gravidez da filha e realizar as tarefas do cotidiano.

Manifestação

Seu esforço revela as qualidades de caráter que justificam a posição que ocupa, e o filme deixa muito claro quão difícil e complexo é estar na pele de quem assume a frente e se torna responsável pelo futuro de tantas pessoas. E não é para menos: um líder é alguém que deixa de viver sua própria vida e, paradoxalmente, embora esteja no centro dos fatos, ele mesmo precisa sair de seu próprio centro, e precisa sair do centro de seu próprio desejo, para cumprir sua tarefa.

Por conta de toda essa inserção no mundo real, do envolvimento no presente mais imediato e premente, e do convite a reflexões muito pouco triviais num momento em que as fofocas palacianas se sobrepõem aos problemas reais de um mundo cada vez mais injusto, é uma pena que, em seu final, o filme incorra em implausibilidades que traem as verdades que enuncia. É incompreensível a escolha de Brizet em capitular, em função de deixar o espectador mais confortável com sua narrativa, depois de tanto choque de realidade, e de envolver organicamente o espectador com uma história sobre a perversidade, a ganância e a absoluta falta de empatia de quem ganha rios de dinheiro sem trabalhar, e às custas do trabalho e dos impostos de milhões de trabalhadores.

De todo modo, ainda assim vale a pena assistir à rede dimensional que compõe a construção narrativa levada a cabo por Stéphane Brizet, e ao resultado bem-sucedido de sua escolha em desenhar e relacionar as diferentes esferas da contemporaneidade. O filme provoca a ideia de que, para a compreensão do presente, é necessário reconhecer o capitalismo não apenas como um modelo econômico, mas como uma construção de realidade que rege relações entre países e sociedades, mas também penetra nas relações humanas mais particulares e em nossos sentimentos, necessidades e valores mais profundos.

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