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Estrelas de Cinema Nunca Morrem

Estrelas de Cinema Nunca Morrem

Ana Flavia Gerhardt - 25 de abril de 2018

“Estrelas de Cinema Nunca Morrem”, título dado no Brasil a “Film Stars Don’t Die in Liverpool”, nem de longe carrega qualquer traço das leituras inspiradas pelo filme que nomeia. Além disso, o termo em português elimina os dois significados bem opostos que sua versão inglesa carrega: primeiro, o de que Liverpool é uma cidade por demais modesta para abrigar alguma grande diva enferma; segundo, o de que a cidade tem o poder mágico de manter vivas as estrelas de Cinema, mesmo as já moribundas.

Da mesma forma, o espectador que dedicar alguns minutos de seu tempo a “Estrelas de Cinema Nunca Morrem” rapidamente perceberá que, como em outras ocasiões, não pode fiar-se no título brasileiro como sinopse para esse filme tão bonito,  por pelo menos quatro motivos. Três deles são o diretor Paul McGuigan, o excelente Jamie Bell e a maravilhosa Annette Bening, conforme pretendo explanar abaixo.

O escocês Paul McGuigan já assinou muitos trabalhos em televisão e, de 2010 para cá, seu trabalho mais notável é o ótimo “Sherlock”. No Cinema, McGuigan realizou com “Estrelas de Cinema Nunca Morrem” um trabalho de marcas bastante autorais e comprometidas com determinadas leituras sobre a vida dos personagens que retrata. A maioria delas está intimamente conectada com o roteiro do inglês Matt Greenhalgh, também oriundo da TV mas agora também interessado em Cinema.

O excelente Jamie Bell encarna Peter Turner, autor do livro que inspirou o filme.

Para compor seu roteiro, Greenhalgh baseou-se no livro do ator inglês Peter Turner, que, em 1979, batalhava a vida em Londres quando conheceu a atriz americana Gloria Grahame, e eles viveram juntos o relacionamento que também inspirou o filme. Então, o que vemos na tela é uma leitura da versão de Peter sobre a história  dos dois. Mas há também evidências da mão forte do diretor a construir um viés definido para a narrativa.

McGuigan explora imageticamente o alicerce temático do filme: o relacionamento amoroso entre dois atores, um inglês da escura e chuvosa Liverpool, e uma estadunidense das ensolaradas Los Angeles e Nova York, algumas décadas mais velha que seu amante. As igualdades entre eles se evidenciam em suas atitudes corporais, em alguns trechos claramente marcadas como se eles estivessem em ação num palco convencional, lugar que ambos apreciam em grande medida. Notem-se, por exemplo, as fluidas passagens temporais que estruturam as narrativas paralelas passado-presente do filme: em algumas delas, Peter se transfere de um cenário-tempo para outro com movimentos claramente teatrais.

As diferenças, por sua vez, estão assinaladas no trabalho do diretor de arte Matt Sharp e da decoradora de cenários Liz Griffiths. Elas se baseiam na presença constante de duas paletas cromáticas num mesmo plano: uma paleta de cores quentes, capitaneada pelos tons sépia – caramelo, mostarda, ouro velho -, que brilham sob a luz e o sol que banham lugares, objetos e personagens; e uma paleta de cores frias –  cinza, azul aço, ardósia, verde musgo. Mais do que representar as cores predominantes das duas regiões de origem dos personagens, a convivência dessas duas paletas cromáticas num mesmo espaço, longe de produzir incoerências visuais, colore com harmonia as nuances do sentimento que os une.

Cores frias e quentes compartilhando cenários: mais do que a mesclagem entre pessoas diferentes, essa mistura reforça a difícil convivência entre amor e medo.

A presença de paletas tão definidas e tão contrastantes em temperatura e luz na maioria dos cenários nos ajuda a notar o contraste entre a luminosidade trazida pelo desejo e pela vontade dos personagens de viver a vida de forma plena e vigorosa com a pessoa amada, e a escuridão imposta pelo que poderia separá-los: a diferença de idade, a doença e a morte. A luminosidade cerca mais fortemente Gloria Grahame, uma personagem apegada ao fluxo e às energias da vida, sempre disposta a extrair dela as melhores, mais intensas e mais gratificantes experiências, enquanto tiver energia para isso.

Um cenário em especial é eleito por McGuigan como o lugar em que esses sonhos de vida podem realizar-se: a adorável, aconchegante e convidativa cozinha da casa de Peter, decorada apenas em tons claros e quentes. É lá que os parentes do personagem – pai, mãe e um irmão, além de outro que mora na Austrália, mas citado em alguns assuntos – mostram como se amam e sentem que podem contar uns com os outros, mesmo que em alguns momentos discordem entre si, se critiquem e se enfrentem até fisicamente. Amarrando e ancorando esses personagens, como uma rede de proteção, está a mãe de Peter, Bella, encarnada de forma cativante e generosa por Julie Walters.

 

A melhor coisa da Inglaterra depois dos pubs é as cozinhas.

O segundo motivo para levar o espectador ao cinema é Jamie Bell, um ator de performances sempre intensas, sanguíneas e marcantes, independente do tamanho do papel que assume. A condição de protagonista do ator nos permite capturar mais sutilezas do seu talento e da expressividade do seu rosto, os quais, no filme, revelam com precisão a consciência de quão grave e extrema é a situação em que seu personagem se encontra.

À medida que Peter vai compreendendo e sentindo a dimensão do que está acontecendo, Bell manifesta a dor e o desespero do personagem de diferentes maneiras, numa intensificação emocional que culmina, nas cenas finais, numa face repleta daquilo que os que perdem entes queridos reconhecem facilmente – o terror gigantesco de um futuro sem a presença amorosa e sem as cores douradas que a pessoa amada trouxe para sua vida. O empenho e a contribuição do ator à narrativa é fundamental para tornar o enredo do filme, que de forma alguma é inédito, ainda assim relevante.

O terceiro motivo é a experiente Annette Bening, que também contribui grandemente para fazer de “Estrelas de cinema nunca morrem” um filme que permanece na memória por um bom tempo. Em frente à câmera, Bening se mostra completamente desprendida em relação à passagem do tempo em seu rosto – aliás a atriz não recusa estar presente em obras que problematizam de forma interessante a necessidade de juventude como um dos parâmetros estéticos machistas. No filme, Bening dá um passo adiante nesse desprendimento e exibe os contrastes entre a meia idade de uma mulher bela e essa mesma mulher já consumida pela doença.

Liberta do medo de revelar seu rosto primeiro envelhecido, e depois envelhecido e enfermo, Bening mais uma vez nos conquista interpretando, com um registro delicado, e na mesma proporção, as três principais facetas da personagem Gloria Grahame: uma atriz que exibiu sua sensualidade em Hollywood e a mantém mesmo já distante das telas; uma mulher lúcida, cujas escolhas são guiadas por razões pertinentes e concretas, mesmo que elas lhe cobrem depois um alto preço; e uma pessoa com imensa capacidade de se entregar e de fazer sacrifícios por quem ama.

Família também pode ser definida como aquele conjunto de pessoas com quem podemos contar sempre.

Ainda há um quarto motivo para assistir a”Estrelas de Cinema Nunca Morrem”: a possibilidade de testemunhar uma história sobre o amor nas diversas formas em que ele pode se manifestar, e protagonizada por personagens que em muitas situações revelam por que merecem ser amadas da maneira como são. Esse merecimento está nos gestos de generosidade e maturidade que se sobrepõem às magoas, medos e inseguranças que machucam as pessoas que amam. A todo momento vemos os personagens manifestando verdadeira preocupação com seus entes queridos; os vemos genuinamente interessados no sofrimento e nos problemas dos outros, mesmo quando eles mesmos estão em condição miserável.

Quando Gloria retorna a Liverpool e à casa dos pais de Peter, ela o faz na certeza de que, como diz o título em inglês, de certa forma, não irá morrer. Lá, receberá os cuidados de que precisa, e isso será feito com carinho e desprendimento, e seus anfitriões se esquecerão um pouco de seus problemas para se dedicarem a ela. E ela, igualmente, será capaz de sair de seu próprio sofrimento para reconhecer as angústias de seus amigos.

Posturas altruístas de vida, como as assumidas pelos personagens do filme, têm sido cada vez mais raras num tempo em que as pessoas agem de forma cada vez mais emocionalmente infantil, desesperadas por atenção, voltadas quase exclusivamente para si mesmas e incapazes de ouvir verdadeiramente os outros, de reconhecer que o sofrimento alheio também é legítimo.

Mas a cena final do filme, em que, num brevíssimo instante, as imagens de dois rostos se fundem numa só, nos comunica com precisão o que teremos de recompensa se vivermos, de forma dedicada, empática e afetuosa, o amor que cultivamos pelas pessoas: seremos recompensados com a possibilidade de nos conectarmos plenamente a elas e à vida, até o último momento.

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