Ajude este site a continuar gerando conteúdo de qualidade. Desative o AdBlock

Fahrenheit 451

Fahrenheit 451

Ana Flavia Gerhardt - 24 de maio de 2018

No dia 19 de maio, sábado, a HBO ofereceu aos assinantes sua produção original “Fahrenheit 451”, adaptação do livro de mesmo nome escrito por Ray Bradbury em 1953, já levada ao Cinema em 1966 pelas mãos de François Truffaut. Há muitos anos, assisti ao inesquecível filme de Truffaut e me encantei com o poder da escrita que a história celebra, sobretudo porque esse poder sempre esteve em mim, e, obediente, sempre me entreguei a ele.

Na grande maioria das vezes, eu escrevo sobre filmes porque enquanto assisto a eles as palavras surgem  e ficam dançando na minha cabeça. Se eu não as escrever, eu não durmo, não estudo, não consigo nem ver outro filme. Preciso com urgência partilhar meus sentimentos com outras pessoas que queriam me ler.

Os textos acadêmicos, eu os escrevo também pelo mesmo motivo: para encontrar quem acredite nas mesmas coisas que eu, ou não, mas que mesmo assim essas pessoas possam alimentar minhas ideias e me mostrar que eu também sou capaz de afetar as ideias dos outros e oferecer-lhes outras perspectivas de pensamento. Todas essas necessidades se agregam a um desejo mais imperioso: o de fazer alguma coisa existir, ser material, visível. Para que eu sinta que de mim ficará alguma coisa no mundo.

Essas ideias me assaltaram quando vi o capitão Beatty, personagem de Michael Shannon em “Fahrenheit 451”, escrevendo na penumbra, a sós e escondido, seus sentimentos naqueles pequenos papeis que as pessoas usam para enrolar cigarro. Ele sabe que depois precisa destruí-los, assim como devem ser destruídos os vestígios de alguns tipos de cigarro que tais papeis enrolam, porque ele está cometendo um crime de lesa-pátria. E as consequências do que faz toda noite serão ainda piores para ele: no comando do Corpo de Bombeiros de Cincinatti, Ohio, que no filme produz fogo em vez de apagá-lo, ele se dedica a incinerar todo material escrito que existe, pelo bem e pela paz da sociedade que jurou proteger. Mas a premência de expressar-se por escrito o invade e consome. Ele não tem alternativa senão escrever.

A necessidade do capitão não é prevista pelas forças do poder, que resolveram que as ambiguidades, paradoxos e contradições presentes na literatura e na produção acadêmica e filosófica são nocivas à sociedade. Para essas forças, a expressão escrita das mais diversas ideologias e propostas, muitas delas discordantes entre si, é a maior responsável pela propagação de preconceitos e produção de conflitos, e por isso a escrita deve ser varrida da face da Terra. Para os que insistem em pensar em escrever, e até pensar em pensar, são criadas drogas que anestesiam a dor e proporcionam paz e conforto no lugar das contradições. Trata-se claramente de uma alusão ao mito bíblico do Éden, onde se era feliz porque se era ignorante.

Mas não há remédio que dissolva o desejo de escrever do capitão Beatty. Esse desejo é tanto que em alguns momentos ele recita poesia sem perceber, entre os dentes que inutilmente se esforça em cerrar. Identifiquei-me com o desejo do capitão porque eu também o tenho, e é ele que me impele a estar na cozinha de minha casa neste momento escrevinhando estas palavras, enquanto ouço pingar a torneira da pia.

As ideias que sustentam o filme são oportunas porque nunca se escreveu tanto quanto hoje. Os sentidos do que são a poesia, a ficção, a declamação, a proposição de ideias, se atualizam todos os dias para se adaptar aos sons, aos movimentos e as imagens produzidas na contemporaneidade. Jogos viram livros, que viram filmes, que depois viram peças de teatro, que depois viram HQs, que depois viram livros…  Rap, hip-hop e fanfics se unem às artes plásticas, à dança e à música. Tudo isso compõe uma mesclagem galvanizada e onipresente, cujo estudo exige a ruptura de fronteiras disciplinares. E por que as pessoas fazem isso? Porque querem, e porque precisam.

A escrita sobre Cinema também é uma tsunami das palavras que clamam por existir, e muita gente está disposta a mergulhar fundo nela. Em grupos de whatsapp onde se fala de Cinema, brasileiros se inspiram a também escrever sobre o assunto, porque apenas uma forma de dizer não basta. Os rigores da gramática da escrita, assim que domados, lhes darão ainda mais possibilidades de expressar o que desejam. É por isso que muitos se embrenham na floresta original que o precário ensino do português no Brasil nunca lhes permitiu explorar, empenhados no árduo trabalho de podar o que não serve – a vírgula que não cabe, a regência que não se usa, o parágrafo mal situado, a palavra que não se encaixou bem. Muitos sofrem demais… Mas continuam, movidos pela vontade de plenitude e interlocução.

Enquanto o filme passava à minha frente, eu fiquei esperando que a dimensão essencialmente humana da escrita, que se apropria de nós e nos completa como pessoas modernas, fosse emergir em algum momento. Mas infelizmente isso não aconteceu. Preciso reconhecer que Shannon até se esforçou um pouco em conferir a seu personagem alguma bidimensionalidade, mas o precário roteiro de Ramin Barhani (que também dirigiu o longa) e Amir Naderi não lhe deu nenhuma chance. O resultado final é até patológico: Beatty é um homem que, sem qualquer hesitação, queima livros e encarcera “enguias” (como são chamados os “criminosos” guardiões dos livros) durante o expediente e escreve poesia à hora de dormir.

Encarnando o bombeiro Guy Montag, protagonista de “Fahrenheit 451”, Michael B. Jordan também pouco pôde fazer. A forma precipitada e mal construída da transformação de Montag num enguia, defensor ferrenho dos livros e capaz de tudo por eles, me deu vergonha alheia por ver num projeto tão sem capricho um ator que recentemente nos entregou o maravilhoso Killmonger de “Pantera negra”. Seu personagem de início é um soldado convicto em sua missão de destruir conhecimento, mas não demora a se revelar como alguém altamente influenciável, que sofreu uma espécie de lavagem cerebral na adolescência, mas que rapidamente passa para o lado dos enguias assim que conhece Clarisse (Sofia Boutella), uma moça por quem se interessa.

Aliás, acho que a vergonha de Boutella deve ter sido ainda maior que a minha, porque Clarisse é o certificado de burrice dos grupos das enguias. No início da projeção, ela agia como uma espécie de agente dupla, entregando aos bombeiros a localização de bibliotecas escondidas. Porém, antes do fim do filme, acaba sendo acolhida por eles sem qualquer quebra de confiança, e ainda traz consigo o bombeiro mais famoso da cidade! Essa incoerência do roteiro é tão gigantesca que até me perguntei se havia cochilado no meio do filme e perdido alguma coisa. Mas, hum, não perdi não. Quem se perdeu foi o filme mesmo.

Contudo, para mim, o que é pior nesta versão de Barhani vai bem além da péssima elaboração dos personagens e de seus arcos. A ideia mais importante no livro de Bradbury, que é a celebração do poder da escrita e da capacidade que ela tem de se infiltrar em nossos corpos e nos constituir para sempre, foi completamente descartada. Esse descarte, seguido de uma solução tecnológica e comercialmente palatável para a trama, deu a entender que Barhani não parece acreditar que, na atualidade, a escrita ainda é importante na vida das pessoas, como devia ser à época do lançamento do livro de Bradbury.

Transformar em estratégia secundária o que no livro era a principal ação dos grupos de guardiões da produção literária e intelectual não apenas violenta todas as ideias propostas por Bradbury. Essa ação aposta na falta de inteligência dos espectadores da HBO, apostando também no fato de que eles deixaram de escrever porque existe internet, redes sociais etc. Se for isso, eu gostaria de saber se Barhani ainda não percebeu que o que milhões de pessoas estão fazendo na internet e nas redes sociais é escrever e escrever – para o bem e para o mal, como mostra o vídeo de Gregório Duvivier (por acaso, produzido pela mesma HBO) sobre fake news nas campanhas eleitorais.

O que o livro de Ray Bradbury traz como resposta à opressão de um grupo que está no poder e acredita que vai manter-se lá para sempre às custas da ignorância do povo – o que no Brasil é uma realidade e se chama coronelismo – é a incorporação radical e revolucionária da escrita, e portanto do conhecimento. É a constatação absoluta de que a escrita faz parte de nós, não apenas como linguagem, mas sobretudo pelo saber transformador que ela proporciona, junto com outras formas de intelectualidade e Arte. E que qualquer paradoxo que ela aparentemente pode trazer já está em nós, porque nós nos constituímos como pessoas por meio de paradoxos. Eles não apenas nos são apresentados por meio do conhecimento escrito; são também o que reconhecemos quando vasculhamos nossos sentimentos mais primordiais.

Ao suprimir os paradoxos humanos por meio da má construção dos personagens, e ao ignorar nossa capacidade de vivenciar a escrita como experiência visceral quando propõe uma solução tecnológica, e não artesanal, para o problema da extinção do material escrito, Barhani descaracteriza o trabalho temático do livro de Ray Bradbury, que Truffaut teve o cuidado de resguardar. Isso torna o longa não apenas uma adaptação mal realizada, mas também uma obra mal realizada. O “Fahrenheit 451” da HBO é um filme comercial genérico e esvaziado, que se destina ao porão da nossa memória. Por isso, para os que amam a escrita e desejam encontrar-se em espírito com quem realmente lhe dá valor, sugiro o filme de Truffaut e o livro de Bradbury, impresso ou em pdf, tanto faz.

Topo ▲