fbpx

Ajude este site a continuar gerando conteúdo de qualidade. Desative o AdBlock

Fragmentado

Fragmentado

Matheus Fiore - 21 de março de 2017

M. Night Shyamalan é um cineasta, digamos, peculiar. Capaz de entregar filmaços como O Sexto SentidoSinais, o indiano também já proporcionou desastres como A Dama na Água Fim dos Tempos (que merece ser lembrado em qualquer lista de piores filmes do século). Para muitos, Fragmentado é a volta por cima do diretor. Pela boa recepção do público americano e pela avaliação positiva de parte das críticas que antecederam a cabine de imprensa do filme no Brasil, confesso que fiquei empolgado, mas meu histórico de decepções cinematográficas me fez segurar a expectativa.

O filme narra a história de Kevin, um homem de 30 e poucos anos que divide seu corpo entre 23 distintas personalidades (todas vividas por James McAvoy), que vão de um estilista à uma criança de nove anos. Entre estas 23 facetas, o rapaz esconde algumas um tanto quanto diferentes, como o dogmático e perigoso Dennis. Certo dia, Dennis sequestra três adolescentes (Anya Taylor-Joy, Betty Buckley e Haley Lu Richardson) e as mantém em cativeiro em um lugar que aparenta ser um porão abandonado.

É curioso ver, já na abertura do filme, como Shyamalan se sabota. Fragmentado abre com uma cena que poderia muito bem sintetizar a filmografia do cineasta. Vemos, no plano inicial, um inteligentíssimo uso do foco para destacar Casey (Taylor-Joy) de suas colegas. Percebemos prontamente a intenção do diretor de mostrar que a personagem não se enquadra no ambiente de suas amigas de mesma faixa etária. Sem necessidade de nenhum diálogo, o visual nos mostra o evidente vácuo entre a jovem e as demais pessoas no quadro. O problema vem a seguir, quando de forma desnecessária, o roteiro impõe expositivos e óbvios diálogos de outras meninas comentando sobre a “esquisitice” de Casey, não confiando na inteligência de seu espectador.

E tal opção (tornar óbvio o destacamento da menina por meio do visual e do diálogo) não é simplesmente uma escolha da construção narrativa, mas uma demonstração clara da falta de confiança de Shyamalan em seu espectador. E mais que isso, um grave sinal de preguiça do indiano na construção do texto de seu filme. Afinal, há duas maneiras bem simples de estabelecer o isolamento da personagem: a primeira – e a mais inteligente – é enquadrar a personagem separada dos outros (o que ocorre, como já dito); a segunda – e mais rasa – é inserir um personagem A conversando com um personagem B sobre como C é destacada. Em suma: ao invés de mostrar uma situação, o script opta por contá-la por diálogos que soam extremamente mecânicos.

Infelizmente, tal estrutura expositiva do texto está presente por toda a metragem de Fragmentado. No segundo ato, quando as adolescentes já estão no cativeiro, acompanhamos flashbacks da infância de Casey e visitas de Kevin (e suas variadas personalidades) à sua psiquiatra. Estas duas tramas que correm paralelamente à narrativa principal também são problemáticas. Enquanto as memórias de Casey são destacadas demais da trama principal por boa parte do tempo, justificando-se apenas próximo ao fim do filme, as conversas entre o sequestrador e sua psiquiatra não passam de um artifício do pobre roteiro para explicar e desenvolver sua história.

O triste é constatar que, mesmo sendo uma óbvia ferramenta do texto, a relação das personalidades do vilão com sua médica poderiam ser muito mais interessantes se houvesse algum desenvolvimento em pelo menos duas das 23 facetas. Não há nenhum. Em todo momento que Fragmentado precisa explicar algo para seu público, a saída  é a mesma: o personagem sai de casa, vai até sua psiquiatra, conversa com ela por meio de mais diálogos paupérrimos e expositivos e volta para casa. Cria-se, inclusive, um ciclo: personagem faz X, vai até a médica, debate X e parte para a próxima etapa da trama.

Tais problemas poderiam ser amenizados pelas atuações, mas além de erros como escritor, Shyamalan se mostra ineficaz guiando seus atores. A fantástica Anya Taylor-Joy (de A Bruxa) é totalmente desperdiçada e poderia facilmente ser substituída por alguma das outras meninas (que estão bem apagadas) ou por qualquer outra atriz genérica. Já James McAvoy, apesar dos elogios de parte da crítica, não está nada bem. Recebendo a ingrata tarefa de interpretar quase cinco personagens em um, o escocês acaba imprimindo personalidades excessivamente caricatas e sem personalidade à seus personagens.

Percebam, por exemplo, na personalidade “Hedwig”. McAvoy vive um menino de 9 anos, com uma construção que é uma verdadeira personificação da palavra “estereótipo”. Uma criança com língua presa, que gesticula demais e faz voz fina. Sério?  Só faltou uma brincadeira como “lero lero lero, você não me pega”. Um ator de tanto talento não foi capaz de criar algo mais original e natural? Já “Barry”, a faceta estilista, é apenas mais uma construção com trejeitos afeminados que até soam um pouco preconceituosos pela abordagem genérica e reducionista que recebem. Já Dennis e Patricia, os líderes da “horda” de seres dentro de Kevin, nada mais são do que versões malvadas de um pai rigoroso e uma mãe coruja.

Tais figuras ora funcionam para criar o clima de tensão (é inegável que Dennis, por exemplo, consiga apresentar uma imponência importante para a manutenção da imagem ameaçadora do personagem), ora para trazer algum humor para o filme (Hedwig tira risadas em algumas de suas cenas). O problema está nos excessos e na visível falta de controle sobre a narrativa do diretor, que acaba tornando a obra sem foco. Tais exageros podem ser percebidos, por exemplo, na cena que explica a origem de Casey, quando diálogos são suficientes para explicar a situação da criança, mas mais uma vez o indiano passa do ponto e mostra ao espectador mais do que deveria. De certa forma, é até triste ver Shyamalan trabalhar tão mal o poder da sugestão, visto que o cineasta fez um trabalho fantástico utilizando o extra-campo para criar tensão em Sinais, um de seus melhores filmes. A obra acaba sendo extremamente esterilizada e tematicamente confusa.

Em alguns momentos, Shyamalan é eficiente ao construir o clima de tensão necessário no covil do vilão. O uso de planos mais fechados e com baixa iluminação, acompanhados pela excelente trilha (o ponto alto de Fragmentado) tornam o ambiente sombrio e decrépito. Também funciona o uso da câmera subjetiva para criar empatia nos personagens. Na primeira metade do filme, o diretor alterna planos conjuntos e em primeira pessoa para nos ambientar e, ao mesmo tempo, nos inserir no ponto de vista de todas as vítimas de Kevin. O problema é que tal recurso demonstra enorme potencial e é praticamente ignorado depois de sua primeira realização. É interessante também o uso de uma profundidade de campo reduzida para dar mais destaque às atuações de McAvoy quando este se solta no papel de uma das 23 faces do sequestrador. Há de se lamentar, porém, a incapacidade de manter o suspense atraente por todas as cenas (muito por culpa da alternância de tom do filme).

Em sua segunda metade, o filme crê na suspensão de descrença de seu público e adota um tom mais, digamos, fantástico. Não há, porém, qualquer sutileza ou abertura para interpretarmos os acontecimentos como devaneios de um dos personagens cujo ponto de vista acompanhamos, soando apenas como uma megalomania estética do diretor. Megalomania, aliás, que é perceptível ao vermos a pequena participação de Shyamalan em uma cena do filme, à la Hitchcock ou Tarantino. Aliás, é uma pena que a influência do mestre Hitchcock se limite à aparição em cena, visto que o inglês foi o mestre do suspense, gênero que o indiano há muito desaprendeu a trabalhar.

Mais do que o suspense, “MNS” também poderia ter feito como Hitchcock e utilizado temas filosóficos para calcar sua obra. Em Festim Diabólico (1948), por exemplo, temos um suspense sob influência de obras como Assim Falou ZaratustraCrime & Castigo. Mais do que gosto pessoal, reclamo da ausência de alguma camada extra em Fragmentado pois, por tratar-se de um filme sobre identidade e medo, é decepcionante que não haja nenhum aprofundamento psicológico ou psicanalítico em seus personagens. Limitar-se a conectar a destruição mental à traumas de infância é importante, mas insuficiente. Não há sequer uma linha de diálogo que desenvolva a ideia, tornando apenas mais um dado inútil na ficha dos personagens.

O filme ainda é prejudicado pela montagem, que além de tornar a narrativa episódica pela forma uniforme como organiza a história principal com flashbacks e sessões da terapia de Kevin, não aproveita as variações mentais do personagem para criar jogos visuais interessantes como os mostrados no trailer. Há ainda tropeços na edição, que repetidas vezes corta planos em movimento em um curto espaço de tempo, o que pode até causar desgaste visual no espectador. No fim das contas, o trailer é mais bem editado e montado que o próprio longa! O clímax, ainda por cima, é extremamente longo e cheio de sequências que ensaiam fechar a narrativa, mas sempre acabam levando à algum novo acontecimento, dando a impressão de que o filme “se recusa a acabar”.

Perto do fim da obra, o diretor acerta ao limitar os diálogos e deixar o espectador tirar suas próprias conclusões acerca dos sentimentos dos personagens. Aliás, toda a conclusão do filme é bem digna, mas incapaz de evitar o desastre que é Fragmentado como um todo. Um filme cheio de boas ideias, com uma equipe competente e um elenco que traz dois excelentes atores. É uma lástima que o resultado seja uma narrativa tão pobre textualmente, chegando ao ponto de enfraquecer a bela parte visual. Como diretor, Shyamalan ainda tem muito o que oferecer, já como escritor, o ego parece ter superado seu talento.

Topo ▲