Ajude este site a continuar gerando conteúdo de qualidade. Desative o AdBlock

Gênios do Mal

Gênios do Mal

Ana Flavia Gerhardt - 21 de janeiro de 2018

Do Extremo Oriente, onde foi realizado “Gênios do Mal” (2017), sempre vieram obras cinematográficas de primeira grandeza, para felicidade e deleite de cinéfilos e críticos de Cinema. Neste texto, trato em especial do Cinema tailandês, que nos tem chamado à atenção principalmente em virtude do diretor Apichatpong Weerasethaku, com suas obras “Tio Boonmee, que Pode Recordar suas Vidas Passadas” (2010), Palma de Ouro em Cannes-2010, e “Cemitério do Esplendor”, presente em muitas listas de melhores filmes de 2016. Agora conhecemos também Nattawut Poonpiriva, diretor do filme que é objeto desta crítica. “Gênios do Mal” é seu segundo filme com temática adolescente – o primeiro foi “Countdown”, de 2012.

“Gênios do Mal” trata dos esquemas de fraude em exames escolares e seleções para acesso a grandes universidades. Lynn (Chutimon Chuengcharoensukying), moça brilhante porém pobre, consegue bolsa integral em uma escola para alunos abastados. Lá dentro, logo desperta a atenção de colegas ricos porém medíocres, que lhe propõem elaborar uma estratégia de fornecimento de respostas durante as provas escolares, a fim de que eles consigam índices para serem aceitos em grandes universidades estrangeiras. O contraponto de Lynn é Bank (Chanon Santinatornkul), outro aluno bolsista tão inteligente e tão pobre quanto a moça.

Bank, em princípio, se recusa a participar dos sofisticados esquemas de “cola” bolados por Lynn, mas acaba cedendo diante do vultoso pagamento que lhe prometem. O filme mostra o desenrolar das ações perpetradas pelos dois com a cumplicidade e patrocínio de Pat (Teeradon Supapunpinyo) e Grace (Eisaya Hosuwuan), aos quais se juntam os demais alunos da escola, filhos da oligarquia tailandesa, todos interessados nas grandes universidades ocidentais.

Abro um parágrafo para tratar da tradução brasileira do título do filme, que lhe conferiu uma feição moralista e maniqueísta ao traduzir como “mal” a palavra do inglês “bad”, que não traz, em absoluto, esse teor. “Bad” também pode ser a pessoa que se comporta “mal”, fora dos padrões tradicionais e conservadores de moralidade. “Bad” nos convida a questionar esses próprios padrões e relativizar os “maus” comportamentos como formas de repúdio e rejeição a rígidas normas sociais. Infelizmente, porém, na tradução para o português, essa multiplicidade de significados foi substituída pelo binarismo judaico-cristão Bem-Mal, empobrecendo a possibilidade de leituras para o filme.

Entretanto, a tradução brasileira acabou acertando involuntariamente, porque “Gênios do Mal” também segue pelo caminho moralista que o título em português sugere. Com isso, o filme perde a oportunidade de construir uma crítica acerca da injustiça social e da manutenção de privilégios às custas do trabalho de pessoas de classes menos favorecidas, e de questionar o sistema escolar, que há séculos é praticamente o mesmo, no Ocidente e no Oriente também. Este texto se dedica a avaliar essa abordagem, sem desconsiderar algumas das qualidades do filme.

O aspecto positivo do filme que primeiro se destaca é a protagonista Lynn, vivida com espontaneidade, intensidade e empatia pela surpreendente Chutimon Chuengcharoensukying. Chutimon, vinda das passarelas, é uma atriz principiante, mas já merece participar de projetos cinematográficos de qualidade, e de no futuro integrar o rol das ótimas atrizes orientais às quais já estamos acostumados e aprendemos a apreciar.

A atuação da jovem atriz nos convence  da imensa inteligência de sua personagem e de seus conflitos éticos, e confiamos sem qualquer dúvida que ela será capaz de realizar os feitos aos quais se propõe – muito mais do que acreditamos que o Bank de Chanon Santinatornkul irá fazer. Espero que Chutimon Chuengcharoensukying, mesmo com um nome tão difícil para nós brasileiros, seja uma figura à qual nos acostumemos, da mesma forma que já estamos habituados a nomes chineses, japoneses, coreanos etc.

Outro aspecto positivo é o fato de que, tratando de um dos maiores medos dos estudantes – o de serem pegos “colando” nas provas -, Poonpiriva explora com maestria esse sentimento e consegue com grande competência construir um clima de suspense que estende o tempo das ações dos alunos durante as provas – troca de papeis, passagem da “cola” de mão em mão, elaboração de códigos para a transmissão de respostas, entre outras infrações. Mesmo brilhantes, Lynn e Bank experimentam literalmente a tensão emocional do risco de serem flagrados passando informações para os colegas: suam, vomitam e tremem, sem contudo deixarem de cumprir sua parte no combinado – em algumas ocasiões fazendo até mais do que se esperava deles.

Poonpiriva alcança esses efeitos com os recursos que o Cinema oferece: câmera lenta, planos exibidos em paralelo, perseguições, anti-clímax. Todos eles nos envolvem completamente e nos fazem lembrar de situações parecidas do nosso passado (pelo menos no meu caso…). Com o coração na boca, torcemos por eles de uma forma um tanto ambígua, porque sabemos que eles estão fazendo alguma coisa “errada”, mas mesmo assim compreendemos suas motivações.

Mas é justamente essa ambiguidade que infelizmente Poonpiriva não aproveita como argumento para seu filme, porque sua opção temática é reacionária e conformista, e o resultado final disso é um filme que não leva às últimas consequências a proposta de confrontar a injustiça social que faz com que, em todo o mundo, pessoas intelectualmente diferenciadas como Lynn e Bank não tenham as mesmas chances de serem bem-sucedidos na vida que pessoas de classes abastadas têm.

De fato, a denúncia de injustiça é expressa na desigualdade de condições de vida entre ricos e pobres, e também na forma como os alunos ricos, exemplificados em Pat e Grace, tratam Lynn e Bank: os alunos inteligentes são apenas peças úteis no plano deles de conseguirem ainda mais privilégios, e com o mínimo de esforço.

Nas situações em que Lynn e Bank se recusam a entrar no jogo da fraude, a única reação de Pat e Grace é a de buscar elaborar algum outro argumento para conseguir o que desejam, desprezando completamente os sentimentos e os interesses de seus colegas menos aquinhoados financeiramente. Essa reação é apenas uma das evidências apresentadas por Poonpiriva  para salientar com precisão a distinção ética entre ricos e pobres no filme.

Outra ideia que reforça essa premissa é a de que há uma diferença importante na construção de personagens ricos e pobres: emulando o romance “Levantado do Chão”, de José Saramago, Poonpiriva propõe, para os personagens pobres, uma diversidade de sentimentos que inclui consciência, indecisão, ambição, conflitos morais, valores éticos e afetos verdadeiros.

Em relação a isso, é linda a imagem, que se repete no filme, da figura de Lynn reproduzida infinitamente no espelho, para evidenciar os seus múltiplos talentos, sua personalidade complexa, seus dilemas pessoais e sua capacidade de pensar criticamente sobre si mesma. Os personagens ricos, porém, são praticamente iguais: pessoas frívolas, sem qualquer conflito de consciência ou remorso, capazes de usar qualquer pessoa e fazer qualquer coisa – qualquer coisa mesmo – para alcançarem seu intento.

Não vejo problema nesse contraste e na opção de tratar as pessoas ricas de forma epidérmica e generalizada a fim de ressaltar a complexidade dos personagens de “Gênios do mal” cujos arcos realmente interessam. O problema é que, ao fim, as soluções para a trama também são epidérmicas e sem ousadia temática, e assim acabam confirmando uma proposta de mundo e de relação entre ricos e pobres que reforça a pobreza e a desigualdade. Explico.

Todo o tempo, a questão ética dos alunos pobres e inteligentes diante da escolha de fraudar ou não o sistema escolar diz respeito à dignidade. Sendo eles pobres, não tendo quase nada, o que lhes resta é a dignidade, que precisa ser mantida a todo custo, mesmo que isso lhes leve as poucas chances de saírem do lugar de pobreza. A manutenção da dignidade é algo fora de discussão porque, entre outras razões, é exatamente o que os diferencia dos alunos ricos e inescrupulosos.

E é aí que Poonpiriva  perde a oportunidade de justamente questionar essa dignidade, que acaba por manter as  pessoas no mesmo lugar social, porque ajuda a culpar as pessoas individualmente pelos problemas sociais e as torna incapazes de negociar sua potência em função das condições de possibilidades que existem – negociação que pode, algumas vezes, lhes trazer alguma mobilidade social.

Ora, já sabemos que esse tipo de dignidade é um valor neoliberal, como já afirmei em artigo sobre o filme “Nocturama”. A pessoa digna, no sentido proposto por “Gênios do Mal”, é aquela que se conforma completamente ao padrão de ser humano apto a ser produtivo e servil às estruturas capitalistas. Esse tipo de dignidade, que compõe o discurso que ajuda a confinar as pessoas num lugar social desfavorecido, contribuindo para torná-las e mantê-las felizes em estar ali, impôs-se completamente sobre Lynn e Bank.

É interessante notar que, no filme, essa dignidade lhes é extremamente despotencializadora, porque faz com que sua imensa inteligência não lhes sirva de nada, mas esteja a serviço dos alunos ricos que os exploram; se puderem, os colegas os explorarão para sempre. Não por acaso, a tentativa de Lynn de questionar essa estrutura é completamente coibida por seu próprio pai, que a todo o tempo está interessado em caber no modelo que, a seu ver, supostamente traria sucesso à filha: obedecer aos que tinham mais dinheiro e poder que eles.

“Gênios do Mal” me fez pensar na importância de um questionamento dos valores morais capitalistas, conservadores e anacrônicos que dizem que precisamos ser dignos. Eles se prestam a reprimir os talentos das pessoas em função de um sentimento de bem-estar que não pode ser mais paralisante e mais impedidor da plenificação da nossa potência intelectual. Pensei no quanto as pessoas trocam seu desejo por essa dignidade, obtendo nisso um gozo que não lhes permite ver que, com isso, elas correm o risco de não ter mais nada na vida além de dignidade.

Diante do aumento da pobreza, da miséria e da desigualdade em todo o mundo, me ressinto do desconhecimento de que aprenderem a serem dignas é caminho para que pessoas pobres se conformem em serem pobres, porque sendo pobres elas teriam algo que o dinheiro não compra, e que em princípio seria mais valioso que tudo. Esse aprendizado embute a ideia de que é uma troca justa os pobres ficarem com a dignidade e os ricos ficarem com todo o resto. A questão aqui não é as pessoas serem ou não dignas num sentido absoluto, mas sim a defesa de uma concepção de dignidade que perpetua um modelo social injusto.

O outro grande problema do filme é a ausência de questionamento sobre o modelo escolar que impera e subjaz ao sistema de avaliações que os personagens realizam – provas do tipo sem consulta, com base numa ideia ultrapassada de inteligência como sendo acúmulo de informação estocada na memória e aptidão para resolver problemas previamente dados. Essa concepção equivocada de inteligência já foi refutada pelas Ciências Cognitivas como não tendo qualquer base científica, mas no filme se mantém como uma verdade. Isso ocorre em detrimento da ideia, essa mais próxima da realidade da mente humana, de que a ação inteligente é aquela capaz de reconhecer problemas e empregar os recursos cognitivos à disposição – no ambiente escolar, livros, cadernos,  calculadoras, smartphones etc. – para tratar deles e construir conhecimento.

Provas como as da escola descrita em “Gênios do Mal” existem para serem fraudadas, porque, ao se basearem em modelos ultrapassados de inteligência e aprendizado, não avaliam coisa alguma. É por isso que, em escolas do mundo todo, muitos alunos simplesmente se recusam a aceitar os modelos fossilizados impostos para mensurar sua inteligência e conhecimento, e isso os transforma em alunos verdadeiramente bad. Sendo tão anacrônico e injusto o sistema de avaliação da escola retratada no filme, qualquer tentativa de burlá-lo deveria ser tomada como uma espécie de transgressão sobre uma estrutura falida, em vez ser julgada como um delito que ofende um sistema sagrado, acima de qualquer questionamento, como o filme retratou.

Assim, na tentativa de fazer um filme sobre gente jovem, Poonpiriva  terminou por entregar uma obra envelhecida, incapaz de provocar qualquer reflexão crítica sobre a educação tradicional, e incapaz de questionar a desigualdade que impede a mobilidade social para pessoas inteligentes, que não precisam ser gênios como Lynn e Bank, mas nem por isso são incapazes de usufruir uma vida intelectualmente plena. Por isso, em vez de “Bad Genius”, o gênio incomodativo, o título do filme deveria ter sido “Evil Genius”, a fim de ser coerente com o reforço da desigualdade social, os valores e conhecimentos ultrapassados e a total ausência de incômodo e discussão que filme apresenta.

Topo ▲