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Gypsy – 1ª temporada

Gypsy – 1ª temporada

Mario Martins - 6 de julho de 2017

À medida que os roteiros cinematográficos e a própria indústria vem passando por sua pior fase, a televisão vem na contramão nos presenteando cada vez mais com roteiros, personagens, produções, direções e atuações tão ricos quanto qualquer clássico do cinema. Em plena era dos reboots, live-actions e remakes, nos resta buscar consolo nas séries.Dois dias após liberar em seu streaming Okja , a Netflix lança sua mais recente produção original, Gypsy.

Naomi Watts concretizou para mim o que já havia sido mostrado em Senhores do Crime (2007), que é uma grande atriz e seu lugar é no gênero suspense. Vivendo dessa vez a psicóloga Jean Holloway, Watts nos entrega um protagonismo firme de caráter instável e que constitui toda a base imprevisível da série ao longo de seus 10 episódios, que cumprem um gráfico ascendente perfeito onde o piloto é o mais fraco e o último o mais insano. Jean demonstra desde o começo um fascínio pela palavra “limite”, que é mostrado de diversas formas através de seus pacientes e seus problemas pessoais.

A grande mágica da série é não ter pressa em seu enredo, ao mesmo tempo que não o torna batido. A chamada “enchição de linguiça” afeta até mesmo aclamados seriados como por exemplo House of Cards, que possui um genial roteiro, mas que exige explicações e enriquecimento em múltiplos núcleos. Não é o caso aqui. Em Gypsy todos os personagens passam por um processo de amadurecimento que os torna igualmente importantes, fazendo com que os conflitos e a aproximação entre eles provoquem em você ansiedade e agonia, elementos fundamentais em suspense psicológico.

A qualidade na técnica de direção, montagem e edição também trabalham a favor da história. Para ilustrar personagens com mais de uma personalidade, é feito o uso de espelhos ou reflexos na filmagem, que podem tanto multiplicar como distorcer o foco desejado. Visando dar intensidade nas expressões faciais e corporais, o zoom in é fortemente trabalhado. Vemos o uso de planos sequência – câmera acompanhando o movimento da cena- que nos permite sintonizar emoções como pressa ou tranquilidade junto com os personagens. Para fortalecer a intenção de ambientes e pessoas, podemos observar um lindo trabalho de uso de cores, que ajudam a nos manipular visualmente.

Se há algo que me incomodou profundamente, foi a abertura cafona e clichê. Perdendo a oportunidade de investir em uma composição original pensada para tal obra, foi usado a canção “Gypsy” do grupo Fleetwood Mac, regravada pela própria vocalista, Stevie Nicks. A nuance de baladinha somada às imagens escolhidas para apresentar a série em um primeiro contato a cada episódio, nos faz achar que se trata da abertura de uma novela da globo, onde simplesmente se joga uma música a qual o título aparece na letra. Atrapalha? Sim. Mas se formos pensar na série como um filme de quase 10 horas, é um crime largar logo na primeira parte. E se você chegar até o terceiro episódio, provavelmente já será tarde demais para parar por ali. Como já mencionado, a série realmente melhora a cada episódio.

Vale ressaltar a sensibilidade na maneira em que se é abordada a questão da filha de Jean vivida pela atriz Maren Heary, uma menina de 8 anos que usa boné, gosta de vestir azul, vive pedindo para cortar o cabelo e é fã de Star Wars. O uso de estereótipos parece ser banal, mas são delicadamente mostrados e ajudam a moldar o ambiente familiar que nos acompanhará durante a história.

Finalizando o texto, cito uma frase que aprendi recentemente. Pois uma vez que não pus fé alguma em Gypsy, acabei “pagando pela boca”. Fica como recomendação para as férias de julho a série que tem como título do episódio piloto “A toca do coelho” e do episódio nº 9 “Terra do nunca”, afinal não há nada melhor do que dissecar uma obra audiovisual através de todas as referências.

 

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