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Han Solo: Uma História Star Wars

Han Solo: Uma História Star Wars

Matheus Fiore - 20 de maio de 2018

Han Solo é, sem sombra de dúvida, um dos mais queridos seres do universo criado por George Lucas e, talvez, da cultura pop. Como, então, contar a origem de um personagem tão icônico quanto o vivido por Harrison Ford na trilogia clássica “Star Wars”? A saída encontrada pelo diretor Ron Howard e pelos roteiristas Lawrence e Jon Kasdan é simples: fazer de “Han Solo: Uma História Star Wars” não uma obra focada nas aventuras do contrabandista, mas sim em como o personagem (aqui, vivido por Alden Ehrenreich) reage e percebe os eventos que permeiam sua jornada. É, portanto, muito mais um filme de personagens e suas jornadas pessoais do que uma grande aventura nos moldes de “Uma Nova Esperança”, por exemplo.

A trama acompanha um Han Solo mais jovem, ainda inexperiente, que se vê ao lado de uma equipe de foras da lei em dívida com o “gangster” intergalático Dryden Vosm (Paul Bettany). Han, então, viaja pela galáxia ao lado de seus colegas, passeando por diversos planetas e tendo seus primeiros encontros com figuras clássicas do cânone “Star Wars”, como Lando Calrissian (Donald Glover) e Chewbacca (Joonas Suotamo). Tudo para poder voltar à sua cidade natal e resgatar Qi’ra (Emilia Clarke), sua namorada que foi capturada por bandidos locais.

Apesar de ser declaradamente uma aventura, “Han Solo” nunca faz dos tiroteios e fugas de naves o foco da trama. Há, por exemplo, um momento muito marcante do filme, quando Han, já dentro da Millennium Falcon, presencia seu primeiro salto no hiperespaço. A câmera de Ron Howard sutilmente vira para o lado, fazendo o espectador observar não a viagem da nave, mas o olhar incrédulo do jovem piloto que está, pela primeira vez, cruzando a galáxia. Esse tipo de recorte específico permeia toda a narrativa de “Han Solo”. Quando Han e Beckett (Woody Harrelson) precisam recrutar uma equipe para realizar um trabalho, mais importante do que qualquer preocupação com a realização da tarefa será o encontro entre Han e Lando. Com isso ,reitera-se a intenção que guia as escolhas do longa: mostrar o nascimento dos personagens criados por George Lucas nos anos 70.

Essa escolha, claro, resulta em pontos positivos e negativos. De positivo, surge espaço para o filme desenvolver o que personagens como Han e Lando têm de melhor: o humor. Alden Ehrenreich e Donald Glover interpretam seus papéis com muita precisão, sabendo reconstruir características clássicas dos contrabandistas. Alden, além de repetir frases típicas de seu personagem, emula o sorriso infantilizado de Harrison Ford, que quase fechava os olhos enquanto exprimia felicidade; já Glover mantém uma postura mais hesitante, similar ao que Billy Dee William fez. Ambos, porém, conseguem imprimir características próprias, adequadas à jovialidade de seus personagens: enquanto Solo é mais inocente e emotivo, bem diferente do resmungão incrédulo de Ford, Calrissian é mais impulsivo e egoísta.

Em contraponto, o drama parece não encontrar espaço no filme, mesmo que o roteiro se proponha a apresentá-lo. Há cenas que tentam ser impactantes e possuem claras aspirações dramáticas, mas elas são sempre sufocadas ou sucedidas por piadas. Não há, também, reflexo dos acontecimentos nos personagens, que parecem não sentir nenhum abalo emocional com perdas, o que impede que qualquer morte presente em “Han Solo” tenha alguma utilidade narrativa – mais parecem ser formas simples e preguiçosas de se livrar de coadjuvantes menores.

Se o drama não ganha uma construção minimamente eficiente, o mesmo não se pode dizer do sentimento de fascínio que acompanha as descobertas do protagonista. Na cena de abertura, quando Han parece estar preso a uma micro-sociedade escondida, há uma luz azul que domina o ambiente, o que imediatamente evoca o sentimento de melancolia que domina o lugar. O vermelho também se faz presente como símbolo de perigo, justamente quando a Millennium Falcon está vulnerável. Mas, mais interessante ainda, é ver como a fotografia de Bradford Young consegue ressignificar as cores do filme, permitindo que elas acompanhem diferentes fases na vida de Han solo. O mesmo azul que outrora representou tristeza se faz presente ao banhar o rosto de Han quando ele voa pela primeira vez na Millennium Falcon, o que faz com que a tristeza pela situação precária em que vivia no primeiro ato ceda lugar à excitação por, finalmente,  viver livremente suas aventuras.

O clima de descoberta e nostalgia, inclusive, é patente, em toda a projeção. Há inúmeras cenas que existem simplesmente para preencher lacunas do universo “Star Wars” e dar explicações sobre origens e nomes de personagens. Se, por um lado, essas explicações soam gratuitas, visando apenas agradar aos fãs, por outro, podemos dizer que elas fazem parte da construção do mito em torno de Han Solo, como se todos os elementos que circundam sua existência não fossem algo espontâneo e esquecível, mas que tivessem um ponto de partida específico, épico, que fosse definidor para o futuro dos personagens.

Além da aventura e do humor, o universo criado em “Uma Nova Esperança” e agora expandido em “Han Solo” tem a polarização entre bem e mal fortalecida. Não há participação direta do Império ou dos rebeldes no filme de Ron Howard, mas há uma lógica de opressão continuamente retratada na obra, presente tanto no local onde Han morava durante o ato inicial do filme, quanto nos sistemas de sociedade organizados pelos vilões. E se há opressão, haverá a revolta, que pode não estar diretamente ligada aos planos dos personagens – Han e Cia., afinal, não são rebeldes, mas foras da lei -, mas sempre estará presente em suas aventuras. Han, Lando, Chewie e os demais sempre acabam tomando o lado do oprimido, o que fortalece a ideia de que, por trás da marra e da malandragem, há bons corações.

Essas revoltas apresentadas são sempre fruto de uma quebra de planejamento que acompanha a narrativa. Diversas vezes, Han Solo ouve que é “incapaz de seguir ordens”, o que, de fato, o caracteriza. Como resultado, quase todos os planos que envolvem o personagem acabam sendo subvertidos em improvisos perigosos, servindo à narrativa tanto para a construção de um líder nato, que sempre quebra padrões a fim de encontrar soluções, quanto para criar uma imprevisibilidade que condiz com o caráter dúbio de Solo.

“Han Solo” é uma aventura divertida e empolgante, que sabe apostar na nostalgia evocada por seus personagens para imprimir charme à narrativa. Não é um filme com o investimento dramático de “Os Últimos Jedi” ou “O Despertar da Força”, mas sim uma obra mais interessada em criar um caminho novo e paralelo para a saga, um rumo mais despretensioso. Você pode não dar a mínima para a missão que Han, Lando e Chewie estão engajados em realizar, mas certamente sentirá empatia pelo trio. Afinal, “Han Solo: Uma História Star Wars” é um filme muito mais sobre seus persongens e suas experiências do que sobre as aventuras que eles vivem.

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