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Heartstone

Heartstone

Ana Flavia Gerhardt - 31 de julho de 2017

O ano de 2016 ofereceu ao público de Cinema dois grandes filmes de temática relacionada à homoafetividade masculina. Um deles, o estadunidense Moonlight, proporcionou grande visibilidade a essa questão ao receber o Globo de Ouro do ano passado de melhor filme e três dos mais importantes prêmios da Academia de Hollywood: os Oscars de filme, ator coadjuvante e roteiro adaptado.

O outro, que é objeto desta crítica, é Heartstone, vindo da Islândia, país de onde não se esperam grandes filmes, já que por lá ainda não se construiu tradição na Arte cinematográfica, mas, mesmo assim, ou talvez por isso, o filme despertou interesse no meio cinéfilo. E as duas horas que o espectador dedicar a ele não serão em vão, porque, ao mesmo tempo em que aprenderá um pouco mais sobre um país tão distante de nós e tão diferente em tantos aspectos, reconhecerá mais uma vez que as pessoas, onde quer que vivam, são iguais em grande medida, no que experimentam de angústia, descaminhos, buscas, encontros e desencontros.

E o que o diretor  Guðmundur Arnar Guðmundsson expõe na tela traz essas duas facetas: a faceta desconhecida, de um país minúsculo, escuro, frio, montanhoso e nevado, com pessoas tão diferentes fisicamente de nós, com uma língua e uma escrita ininteligíveis a nós, que recentemente passou por uma crise econômica que praticamente pôs seu território à venda, mas que lentamente se recupera, graças à força e perseverança do seu povo. E a faceta do que podemos reconhecer de demasiado humano, portanto bastante familiar, porque as histórias dos meninos e meninas no filme se assemelham às de muitos de nós, e no que vivemos durante nossa adolescência.

No que diz respeito à faceta desconhecida, Guðmundsson nos oferece a Islândia em doses homeopáticas, já que em boa parte do tempo focaliza seus atores em planos fechados e economiza na luz. Esses planos, mais alguns ambientes também envoltos em penumbra, são empregados por Guðmundsson para compor o feitio geral do filme, criando um clima que nos permite interiorizarmos nossa percepção e ficarmos atentos não aos cenários, mas aos sentimentos e conflitos existenciais: as imagens escurecidas fazem emergir de forma intensificada a trama construída sobre os fatos e, igualmente, as reações emocionais dos personagens a eles.

Porém, em alguns momentos, sobretudo nos segmentos do filme em que os personagens experimentam momentos de paz, alegria e aconchego, os planos abertos dominam a tela e nos oferecem o encanto dos cenários amplos da ilha islandesa: o Atlântico Norte batendo em seus penhascos, as montanhas nuas e prontas para receber a neve que não demorará a chegar. Nesses momentos, o delicado sol do extremo norte de vez em quando banha a terra, as águas e os rostos dos personagens, mas sem a força quente e iluminada à qual estamos acostumados aqui nos trópicos; a discreta luz solar nos torna certos do frio que faz na ilha, ao qual os personagens parecem estar acostumados – frio não apenas no ar, mas também nas relações que se desenrolam ao longo da trama, relações essas que somos bem capazes de reconhecer.

O que nos conduz à faceta conhecida, relacionada à história de dois garotos em processo de crescimento, e cujas ações negam, a todo momento, a concepção hegemônica sobre o que é o ser humano, baseada em valores identitários: nascemos com um determinado corpo inapelavelmente atrelado a um determinado gênero e a uma determinada sexualidade, e essa será nossa condição por toda a nossa vida. Os que não se encaixarem nesses padrões poderão sofrer o julgamento e o achincalhe social, serão tratados como aberrações, e podem, em alguns casos, ser criminalizados e até banidos da sociedade.

Heartstone nos mostra, porém, o que muitos pensadores sobre gênero e sexualidade estão apontando há décadas: somos seres em fluxo, em movimento; apegamo-nos às pessoas, sentimo-nos atraídos por elas por diversas razões, e as suas características biológicas são apenas uma delas. Os quatro jovens de Heartstone são esses seres em fluxo, que a adolescência intensifica numa velocidade muito, mas muito maior do que a sua capacidade de compreender o que está acontecendo com eles. Os quatro estão ainda em transição acerca do que desejam sexualmente – se terão preferência por pessoas do mesmo sexo ou do sexo oposto -, mas essa experiência em cada um não é lida da mesma forma, nem por eles mesmos, nem pelas pessoas que estão em torno deles.

Beta (Diljá Valsdóttir) e Hanna (Katla Njálsdóttir), duas das meninas do filme, transitam entre a homoafetividade e a heteroafetividade de maneira mais tranquila, porque a sociedade machista aceita que mulheres se acarinhem entre si, contanto que se encaixem em padrões físicos cisgênero, para deleite do voyeurismo masculino. E elas o fazem sem constrangimento, com a mesma facilidade com que se entregam à sedução com os dois meninos que elegeram para suas descobertas e fantasias.

E é desses meninos que de fato trata Heartstone: Thor (Baldur Einarsson) e Christian (Blær Hinriksson) são dois amigos vivendo a adolescência juntos e tentando lidar com ela. Estão ansiosos por se tornarem adultos, sentem-se atraídos por meninas e não deixam de viver experiências de afeto físico com elas, quando isso é possível. Porém, também alimentam um pelo outro sentimentos que ainda não conseguem identificar com clareza. Tocam-se e sentem prazer nisso, porque se gostam e se admiram. Tudo isso seria absolutamente normal, como parte da transição para a vida adulta, quando não haverá mais chance para experimentações sem consequências. O problema é que o entorno social lhes cobra um comportamento de meninos machos e os condena a sofrer em público, e de forma potencializada, as angústias afetivas que sequer conseguem identificar direito em suas mentes: onde está a verdade? no escárnio que sofrem da família e da comunidade, ou na emoção que experimentam ao se tocarem e se importarem um com o outro?

E de fato é muito bonito ver como a complexidade do afeto entre Thor e Christian e os comportamentos que assumem para lidar com ele se ajustam à paisagem quase inóspita da Islândia enquadrada por Guðmundsson, num encaixe precioso de forma e conteúdo: ao observarmos os rostos sofridos dos jovens, ora em primeiro plano, ora cercados pelas montanhas, muitas vezes em silêncio, incapazes de expressar sua dor, temos clareza da sua solidão, do seu desamparo e da impossibilidade de que tão cedo possam dar linguagem às suas questões.

Heartstone nos cativa e emociona porque o desejo angustiado entre Thor e Christian se mescla à lembrança da nossa própria adolescência, quando, se não passamos por conflitos de ordem sexual-afetiva, certamente vivemos momentos em que não sabíamos o que estava acontecendo conosco, e nem encontramos quem nos entendesse. Por isso é que eles nos inspiram tanta empatia e compaixão, sobretudo quando assistimos ao clímax da intensidade desse afeto, na mais bela cena do filme, em que a espetacular paisagem islandesa e a verdade dos sentimentos de Thor e Christian se fundem como uma coisa só.

Evidentemente, essa empatia não seria construída se Guðmundsson não contasse com jovens atores muito espontâneos e muito capazes de compreender as emoções turbulentas dos personagens (provavelmente, emoções já conhecidas por eles). As meninas Diljá Valsdóttir e Katla Njálsdóttir atuam de modo a fornecer um suporte importante para que os personagens Thor e Christian possam viver seu momento de descoberta, tratando com naturalidade o desejo entre eles. As irmãs de Thor (Jónína Þórdís Karlsdóttir e Rán Ragnarsdóttir) se apresentam como polos opostos, uma se juntando ao escárnio geral, outra buscando compreender tanto o irmão quanto o amigo, mas, como nenhum dos dois consegue nem compreender a si mesmo, sua mão estendida não é percebida.

Mas o brilho maior recai sobre os jovens Baldur Einarsson e Blær Hinriksson, que são duas jóias insulares: Baldur, aparentemente o mais novo, é profundamente expressivo em seu mergulho forçado no mar desconhecido das dúvidas e da dor. Sua compleição pequena e frágil inspira proteção, carinho e amparo – diferentemente do alto e forte Blær, que não se destaca inicialmente nem nos atrai de imediato, mas que, ao longo do filme, vai construindo com precisão o arco do seu personagem, expressando com clareza a situação delicada de Christian, de intensidade emocional semelhante, talvez até maior, que a de Thor.

Junto com esses dois talentosos meninos, somos transportados não apenas a um lugar distante, que poucos de nós teremos o privilégio de conhecer, mas a um tempo da vida em que tudo é tão difícil de entender, que dirá comunicar. Por essa razão, torcemos pelas duas jovens vidas que se desenrolam diante de nós; tememos por seu futuro, sabendo que uma vida melhor para elas, e para muitos que vivenciam sentimentos semelhantes, depende de um mundo melhor, menos injusto e menos intolerante com quem não cabe em rígidos padrões inventados por motivos que as pessoas homofóbicas nem sabem quais são, embora os repitam e reiterem todos os dias. Filmes como Heartstone, que deixam tão evidentes as trágicas consequências dos atos dos homofóbicos, podem ajudá-los a realmente começar a pensar sobre o que estão fazendo.

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