Ajude este site a continuar gerando conteúdo de qualidade. Desative o AdBlock

Hebe – A Estrela do Brasil

Hebe – A Estrela do Brasil

O que é ser uma mulher livre num país machista e retrógrado

Ana Flavia Gerhardt - 30 de setembro de 2019

Os 120 minutos de “Hebe – a Estrela do Brasil”, em vez de nos fazer voltar no tempo até o Brasil dos meados dos anos oitenta, nos colocam diante de um espelho do agora. No século 21, ainda enfrentamos o perigo da censura, nos debatemos com o discurso moralista e hipócrita contra as pessoas LGBTQ e as mulheres que ousam sair do espaço doméstico, e nos deixamos enganar pela limitação do debate político ao problema da corrupção. Percebemos que não estamos conseguindo sair do lugar ao ouvirmos da boca de personagens do passado questionamentos, preconceitos e receios que compõem o ideário do nosso presente.

O sentimento de atualidade na mensagem que “Hebe – a Estrela do Brasil” transmite deriva de uma das escolhas acertadas do diretor Maurício Farias e da roteirista Carolina Kotscho: a de recortar uma dimensão específica da vida da apresentadora, a saber, sua forma de lidar com o machismo, o retrocesso e a censura em sua vida pública e particular. Assim, seus imbróglios com os meios de comunicação e com o aparelho repressor que ainda persistia se desenrolam paralelamente à crise conjugal regada a muito álcool e a muito ciúme machista do marido (Marco Ricca).

Hebe 1

Outras escolhas importantes dos realizadores do filme articulam-se a esse recorte a fim de construir uma imagem cativante e poderosa de uma das mais importantes apresentadoras da história da TV brasileira, igualada apenas a Xuxa, que muito provavelmente também terá seu filme no futuro. Essas escolhas nos permitem expandir os significados das imagens e falas que o filme emana para uma reflexão importante e urgente sobre como atingir o público com ideias que representem abertura de corações e mentes, para um Brasil que pelo menos seja um país do presente, e não do passado, como tragicamente tem sido.

Essa expansão credita-se necessariamente à figura de Hebe Camargo, artista e apresentadora que esteve na ativa por mais de sessenta anos até ser derrotada por um câncer que, mesmo nos piores dias, não apagou sua personalidade luminosa. O filme que lhe presta homenagem deixa em fundo sua história pregressa (“Você já passou fome?”, pergunta a apresentadora a um interlocutor; “Eu já”, ela mesma responde logo em seguida) e se preocupa em conferir-lhe novamente essa luminosidade. O fotógrafo Inti Briones derrama brilho e luz sobre a magnífica Andrea Beltrão, intérprete à altura da pessoa, em contraste com figuras medíocres como o censor (Fernando Eiras), que a ameaça constantemente de prisão sempre situado em ambientes escurecidos e burocratizados, fotografados em tons frios.

hebe e família

Além disso, nas cenas em que Hebe apresenta seu programa, a câmera de Maurício Farias permanece às costas da protagonista, e com isso não se vê muito de sua alegria ao estar diante das câmeras e do público. Mas de fato isso não é necessário, porque a empostação de Andrea Beltrão deixa evidente a empolgação da personagem. O que se vê mesmo é o próprio público, envolvido pelo carisma da apresentadora e obedecendo, como numa sinfonia, à regência que Hebe, como grande maestrina, desenvolve ao vivo. Essa perspectiva fala por si, justificando a existência de uma obra cinematográfica que atualize a imagem de Hebe aos brasileiros do presente e do futuro, e também a quem, como eu, nunca foi fã.

Mas as imagens que condensam num só plano as figuras de Hebe e de seu público cativo também adquirem uma dimensão para além do que significavam à época do programa. Elas atingem o presente que vivemos, quando constatamos o afastamento dos grupos que se diziam advogar pelo povo e se constituir como movimentos populares, permitindo com isso que em seu lugar tenham entrado outros grupos que apenas emulam a voz do povo, mas que na verdade pretendem explorar seus medos e calar sua voz em função de uma promessa de proteção e solidariedade. Nesse sentido, o recorte realizado por diretor e roteirista é de uma precisão cirúrgica e transforma “Hebe” num documento imprescindível para o nosso tempo.

Hebe 2

Eu, em particular, senti um incômodo enorme por me supor uma pessoa que trabalha para o bem do Brasil, mas, encastelada no ambiente universitário, permaneço ignorando e julgando cafonas as figuras famosas que respondem imediatamente ao povo, sem eu mesma conseguir de fato atingir as pessoas com ideias e realmente compor com elas um debate sobre os desafios do Brasil e sobre como enfrentá-los todos juntos. Sobre essa conexão, havia algo fundamental no desejo nunca renunciado de Hebe Camargo de realizar seu programa ao vivo, no qual, mesmo com a intermediação da câmera, era possível estar com ele em conexão real, sentindo as demandas do momento, respondendo a elas com coragem e obtendo respostas imediatas e penetradoras.

A Hebe Camargo do filme  fala espontaneamente o que pensa a todo momento – a cena da piada picante contada a presença do filho adolescente (Caio Horowicz) é imperdível. É capaz de abordar temas espinhosos (o fato de serem ainda mais espinhosos hoje em dia denuncia nosso retrocesso como país) e reclamar da corrupção, que naquela época já era estrutural, não tendo começado portanto com a chegada do PT ao poder, como muitos pensam. Na conexão entre Hebe e seu público encontra-se o veículo que os grupos fundamentalistas e de ultradireita utilizam para penetrar fundo e reforçar um sistema de crenças que sempre fez parte do Brasil, conseguindo assim transformar em votos e em projeto de poder o atraso de que não conseguimos nos livrar.

Hebe 3

Na época enfocada em “Hebe – a estrela do Brasil”, já havia as contradições que hoje são usadas contra nós. Hebe defendia o corrupto Paulo Maluf enquanto acusava de corrupção o Congresso Nacional, e a não exploração a fundo desse dado produziu críticas ao filme. Porém, o Brasil do presente escancara um estado de coisas em que a corrupção de determinadas figuras da política é convenientemente ignorada por muita gente, a fim de manter inalterado o projeto neoliberal em curso. Junto com isso, o discurso de Hebe como alguém que não é de esquerda nem de direita (“sou direta”, disse a apresentadora pela boca de Andrea Beltrão) também persiste na fala de alguns políticos que tentam se afastar do que se denomina hoje “velha política”, mas que também se alinham ao projeto neoliberal.

O que não sabíamos na época de Hebe é que as esquerdas não estavam dando atenção às contradições expostas pela apresentadora com uma generosidade e uma verdade (“Cada um vota em quem quiser”, ela diz, sobre Maluf) que a aproximavam de muitas pessoas, e que o ovo da serpente já estava sendo gestado no ninho da suposta cordialidade nacional. Nos ressentimos hoje da ausência de figuras como Hebe para denunciar, de uma maneira que as esquerdas brasileiras são incapazes de fazer, a corrupção que permanece travestida de “nova política”, o racismo, o machismo e a homofobia escancarada, e para chamar a uma autocrítica sobre nosso agenciamento no esfacelamento nacional que não tem enfrentado nenhuma reação.

Por ser uma obra de Cinema acerca de uma mulher verdadeiramente livre num tempo e num lugar de atraso social, de uma brasileira realmente capaz de oferecer às pessoas o que tinha de melhor, e de uma apresentadora que se comunicava com seu público de maneira exemplar, “Hebe – a Estrela do Brasil” merece alinhar-se a vários filmes de qualidade inegável, como “Jango“, “Entreatos” e “O Processo“, já inseridos no conjunto de filmes que constituem relatos artísticos necessários ao entendimento dos nossos problemas e também da nossa potência como país.

Topo ▲