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Homem de Ferro 3 (2013)

Homem de Ferro 3 (2013)

Os moralismos natalinos como sendo uma salvação para Tony Stark

Gabriel Carvalho - 4 de maio de 2019

O cinema natalino costuma apresentar certos moralismos, e a moral que “Homem de Ferro 3” contém é esclarecida justamente por essa sua temática: o serviço do seu protagonista à família, a uma vida pessoal e mais humana, deve ser maior que o serviço desse mesmo personagem a outras coisas, vistas como impessoais. É o que acontece com o personagem interpretado por Robert Downey Jr. Tony troca noites de sono para dedicar-se exclusivamente à vida como super-herói, construindo mais e mais armaduras poderosíssimas. Já Pepper Potts (Gwyneth Paltrow), presidente das Indústrias Stark e namorada do personagem, é uma presença antagônica a esse consumo exacerbado do protagonista sobre si mesmo. O longa em questão, portanto, apresenta mais problemáticas interiores aos personagens e às organizações presentes, mais intimistas, que problemáticas exteriores, que conversariam menos com o ser por si só. Desse modo, o voice-over inicial de “Homem de Ferro 3”, mesmo que usado um tanto gratuitamente, traz o cerne da sua discussão com objetividade: “nós construímos os nossos próprios demônios”, aponta Stark.

Um trabalhador que se dedica muito a sua profissão, como é o caso de Tony, é quem nasce como o arquétipo-mor a esse cinema que é supostamente inócuo, mas tão próprio em lições, morais e ensinamentos. “Homem de Ferro 3” sustenta-se em preceitos natalinos, usando-os mais do que como uma mera ambientação – o enredo acontece as suas vésperas. Consequentemente, origina-se a jornada de redenção do protagonista, repensando prioridades, e, principalmente, a sua jornada de emancipação de um casulo tóxico, revisando quem é verdadeiramente. Shane Black, por sua vez, conjuga essa noção bem específica, permeada por questões menores que conversam objetivamente com o americanismo, para dentro do sub-gênero de super-herói. O cineasta é o primeiro desse “universo compartilhado” a se preocupar verdadeiramente em explorar um contraste mais humanista aos seus personagens. Na contraposição de uma noção de escala grandiosa à percepção de que existe uma verdade bem mais íntima, o Homem de Ferro enfrentará inimigos que são mais próprios ao seu ego, seu caráter e equívocos, do que o esperado.

Em termos de compartilhamento de universo, “Homem de Ferro 3” consegue usar de outros projetos dessa franquia de super-heróis. O principal é “Os Vingadores”, de Joss Whedon, visto como uma catapulta, e não uma muleta – já esse segundo era o caso de “Homem de Ferro 2”.  O que o roteiro pega é simples e bem reiterado por pesadelos e lembranças: a Terra sendo invadida por alienígenas é um rompimento a um conceito agora antiquado de normalidade. Com esta informação, Black estuda o choque entre um mero mortal trajando uma armadura e a grandiloquência do que existe além dos céus. Em vista da presença de um antagonista como o Mandarim (Ben Kingsley), causador de explosões e caos, essa é uma obra que pontualmente embarca em uma narrativa sobre terrorismo. Mas “Homem de Ferro 3” prefere muito mais enxergar as problemáticas dentro do próprio sistema e do seu próprio personagem, que está sufocando-se em meio a crises de ansiedade. Enquanto Tony está olhando para os céus, esquece que existem confrontos menores, no entanto, que são tão impactantes quanto extraterrestres.

O personagem interpretado por Downey é bastante interessante nesse sentido. Organiza-se uma ideia aparentemente generosa de super-herói com um pensamento mais egocêntrico. Tony importa-se com escopos e espetáculos, esquecendo de minúcias e propósitos reais. Um não anula o outro. Um exemplo claro desse heroísmo complexo é a polêmica cena em que Stark informa o seu endereço pessoal a jornalistas, esperando por um ataque do terrorista: o que é muito estúpido, assim como marca uma arrogância monstruosa. O protagonista também só se envolve com o caso após um amigo, Happy Hogan (Jon Favreau), ferir-se em um dos atentados do grupo terrorista. É esse raciocínio contraditório que torna “Homem de Ferro 3” um projeto tão rico em estudo de personagem, contudo, igualmente comum pela estrutura natalina que contém, vide sua conclusão conciliatória. Os demônios de Tony conversam consigo, ao invés de serem impessoais como eram os alienígenas de “Os Vingadores”. Aqui, até um segundo vilão, Aldrich Killian (Guy Pearce), possui um envolvimento aproximado com o personagem principal.

Os momentos mais ousados da direção de Black, contudo, residem na ação. Quando encena cenas específicas, o cineasta rejeita usar Tony na sua armadura. “Homem de Ferro 3” promove, porém, uma veia cômica, que nasce por causa destas sequências excêntricas com o protagonista correndo “nu” de caras maus, mísseis e explosões. Os equívocos internos do personagem, os enfrentando como pessoa, são vistos, assim, como sendo superiores aos equívocos dos outros. Por isso que “Homem de Ferro 3” termina até sendo muito mais uma obra sobre o homem por dentro da armadura do que sobre esse traje que o reveste. Os momentos de ação do longa várias vezes usarão de Robert Downey Jr. como sendo um ator pantomímico. Explora-se uma veia do artista que tempos antes tinha o consagrado por “Chaplin”. Já numa proposta dramática, essa desproteção do protagonista concretiza o tom intimista da abordagem a Stark. Exemplo: quando a energia de sua armadura acaba, o personagem se vê em um cenário cheio de neve, que abraça essa necessidade por um acolhimento – e que se personifica no menino, Harley (Ty Simpkins).

O que é mais natalino do que usar uma criança como parte da jornada do mocinho? Por ser um longa que pensa mais o protagonista que a escala, os propósitos e execução de Shane Black para o arco de Tony conseguem diminuir a inoperância da narrativa dos antagonistas. A performance de Ben Kingsley como Mandarim é caprichada – enquanto a revelação de uma ameaça de dentro para fora é coerente. Mas Guy Pearce como Killian não convence, simplesmente por ser um papel de uma nota só. Mesmo assim, é mais coeso que o péssimo Vanko (de Homem de Ferro 2). Já Maya (Rebecca Hall) é uma personagem integralmente desperdiçada. O que impulsiona essa visão natalina são os simbolismos americanos. É surpreendentemente realista a concepção de uma América com problemas internos, que precisa pensar a sua participação no jogo e não a participação de outras nações. O uso do Patriota de Ferro (Don Cheadle) como um manto que redefine as crenças do país, assim como a metáfora de militares norte-americanos sendo manipulados pelo sistema, subverte um olhar dessa maldade externada – e que “O Soldado Invernal” complementaria bem.

Há um heroísmo em se importar verdadeiramente com as pessoas, mas sem que seja de um modo calculista, e sim visando um chamado ao dever – e amor – sincero. É o que acontece na cena de um avião caindo: mesmo sem estar controlando a sua armadura diretamente, Tony vai além da programação do J.A.R.V.I.S. (Paul Bettany) para salvar as pessoas que estavam em perigo. Eis o Homem de Ferro enquanto super-herói, não enquanto uma armadura programada para executar isso ou aquilo. Para que tantas versões distintas do herói, se ele estará dentro de apenas um exemplar? Ao passo que o relacionamento de Tony com a sua arma era muito mais um relacionamento de orgulho, vaidade e posse, o discurso que conclui essa obra é outro. Mesmo que indulgente e impreciso demais para a trajetória traçada – serve mais como ponte para a cena pós-créditos –, o voice-over conclusivo comprova Stark enquanto um herói para além do casulo que veste. Indo aos confins do personagem, Black vê, antes de um traje, um mecânico, encontrando como novos passos para Tony meramente ajudar uma criança. Stark só quer ser um bom homem nesse Natal.

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