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It: A Coisa

It: A Coisa

Matheus Fiore - 6 de setembro de 2017

Enquanto para o adulto o medo é uma questão quase existencial, que envolve “boletos”, saúde e obrigações do mundo “real”, para as crianças o medo é um elemento lúdico, quase fantástico. Coisas do dia-a-dia, como uma reportagem no jornal televisivo ou um relacionamento conturbado com nossos pais, podem tornar-se grandes monstros que assombram e traumatizam na tenra idade. Trabalhando o medo como uma barreira a ser superada, It, nova adaptação da obra literária homônima de Stephen King, é um filme que aborda a relação de horror na infância com muitas boas ideias (que provavelmente são extraídas do livro), mas que, infelizmente, não encontra o equilíbrio entre os gêneros que é necessário para o funcionamento da narrativa.

Acompanhamos um grupo de crianças liderado por Billy, menino traumatizado pelo desaparecimento de seu irmão mais novo, Georgie. As crianças acabam descobrindo que, além de Georgie, outros meninos desapareceram misteriosamente na cidade de Derry. Ao investigar, acabam confrontando o macabro e violento palhaço chamado Pennywise, que se manifesta como os maiores medos de suas vítimas.

Ao retratar o elenco infantil divertindo-se e passeando pela cidade, o diretor Andrés Muschietti reconstrói fielmente o estilo de filmes dos anos 80 como E.T. – O Extraterreste e Os Goonies, dando destaque às interações entre os personagens, recheadas de piadinhas sobre mães e sexo. Nessas cenas, a câmera que filma os personagens de baixo pra cima, muitas vezes presa ao asfalto quando retrata os meninos pedalando de bicicleta pela cidade, imprime um tom saudoso, descontraído e aventuresco.

Quando o filme vai para o terror, porém, há uma mudança brusca de tom. Ao administrar dois gêneros tão dispares (a aventura infantil e o terror), It precisaria encontrar um meio-termo para equilibrar as nuances, e o faz tentando quebrar o horror com piadas pontuais e a comédia com aparições surpresa de Pennywise – o que funciona para impedir que a obra abrace extremos. Muschietti ainda demonstra um notável carinho ao retratar a relação do elenco infantil com o medo, como quando Georgie, no começo da projeção, observa um canto do porão de sua casa e vê dois olhos onde só há um objeto refletindo luz, algo típico de uma criança.

Muschietti ainda faz escolhas de plano interessantes na forma de desenvolver a relação de seus personagens com o medo, fazendo com que ângulos diagonais e movimentos de câmera sejam o sinal para o público de que, naquele momento, Billy e seus amigos estão entregues ao medo. Ainda é inteligente a escolha de que, quando as crianças decidem enfrentar seus medos, os planos comecem com o ângulo diagonal de sempre, mas aos poucos se ajuste. As variações entre ângulos holandeses e convencionais, então, acabam sendo uma forma de Muschietti nos mostrar, apenas com imagens, a decisão de seus personagens de lutar contra Pennywise e seu jogo de pânico.

E, falando em Pennywise, se compararmos com o palhaço do telefilme de 1990, o de Bill Skarsgård tem pontos contra e a favor. A começar pelo figurino: enquanto o de Tim Curry tinha um visual mais infantil, tendo corpo largo e uma roupa colorida, o de Skarsgård utiliza uma vestimenta pálida, praticamente sem cor, tendo destaque apenas em sua maquiagem, fazendo com que o ar dócil e enganoso do vilão ceda lugar à uma figura macabra em todas as suas aparições. Mas, como dito, há acertos. Em pequenos elementos, como o estrabismo do monstro, It encontra uma forma para passar tanto um ar de inocência em alguns momentos como para sugerir que o corpo humanoide seja apenas um disfarce para uma criatura sem rosto, já que os olhos se tornam mais estrábicos conforme a boca de Pennywise abre.

Após uma longa mas eficiente primeira etapa, o filme vê a necessidade de explorar todos os medos do elenco, e o faz de maneira esquemática, repetindo a mesma fórmula de expectativa e jump scares em todos os casos. Em contrapartida, é interessante como a obra explora desde os medos relacionados aos traumas dos personagens até horrores mais situacionais, como quando um dos meninos vê uma criança sem cabeça em uma fotografia e é perseguida por um monstro decapitado em seguida. É imperdoável, porém, a escolha de criar praticamente dois momentos de clímax, ao fim do segundo ato e no terceiro, separados por um desanimador momento arrastado, fazendo com que haja uma quebra de ritmo que crie a sensação de que a obra simplesmente se recusa a acabar.

It funciona como um estudo da materialização do medo na infância, mas apresenta problemas estruturais ao abordar o desenvolvimento de seus personagens de forma separada e episódica. Ainda prejudica a já mencionada existência de duas cenas com enorme carga dramática no segundo e no terceiro ato, que, ao serem separadas por um trecho pacífico, quebra o ritmo do longa. É um filme que tem sucesso quando retrata a forma como seu elenco encara e supera o medo, mas derrapa por apostar mais na superexposição do que na sugestão, fazendo com que o medo do desconhecido ceda lugar a banhos de sangue e mutilações, algo que impacta visualmente, mas não dramaticamente.

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