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Jango

Jango

Documentário de 1987 fala do presidente que, 50 anos antes de Lula, buscou a impossível conciliação entre a casa grande e a senzala

Ana Flavia Gerhardt - 1 de julho de 2019

O Cinema brasileiro recente tem oferecido filmes que dialogam com o interesse de milhões de pessoas pelos aspectos políticos do país.  Obras relevantes tentam explicar como chegamos à nossa realidade política atual. Esses trabalhos reúnem informações e conhecimentos que ajudam a entender o presente em crise, e isso motiva a busca por nosso passado histórico. Entre elas, “Jango”, excepcional filme de Sílvio Tendler lançado em 1987 e disponível no Youtube, é um documento imprescindível para quem deseja informar-se para além das fake news.

“Jango” apresenta com precisão cirúrgica a mesma questão e as mesmas causas que motivaram o redemoinho aparentemente caótico de fatos que desembocaram na crise política e moral em que nos debatemos. O documentário de Tendler está inapelavelmente amarrado ao presente brasileiro; ao fim do filme, sentimos estar vivenciando de novo, agora no século 21, o mesmo enredo que, há mais de 50 anos, incluiu a deposição de João Goulart, o Jango, e a instauração da ditadura militar.

Antes de ascender à Presidência do Brasil, Jango esteve presente em vários segmentos da carreira política.

Em função disso, a estrutura de país por trás das imagens em preto e branco e dos discursos de décadas passadas, bastante anteriores ao próprio filme, podemos vê-la escancarada nas falas e ações de políticos, jornalistas etc. de esquerda e de direita. Essa estrutura está na raiz dos problemas brasileiros que Jango tentou heroicamente combater, e que os governos do PT não conseguiram superar.

Casa grande e senzala

Quando Sílvio Tendler realizou “Jango”, já conhecíamos a história de desigualdade e injustiça social que explica muitas das mazelas econômicas e da vergonha nacional que é o acúmulo de um capital e um poder imensos nas mãos de poucos. Na verdade, desvelar esses problemas não estava nos planos de Tendler. Interessava especialmente ao cineasta descrever um homem refinado e consciente de sua tarefa histórica, mas que sucumbiu às forças reacionárias que imperavam em toda a América do Sul na década de 60 do século passado, e que no Brasil contavam com as Forças Armadas como avalistas e agentes mais dedicadas.

Por isso, acabou sendo formada sem querer a tese subjacente a “Jango”, uma ideia que ainda é extremamente forte na reflexão conceitual contemporânea sobre os problemas brasileiros. Salta do filme a forte imagem do Brasil como um país cindido entre, de um lado, a casa grande, e, de outro, a senzala. Nessa cisão, a casa grande permanece virando as costas para a senzala e rezando por um país pujante e desenvolvido, mas apagando completamente a necessidade de vida e potência que pulsa da senzala – as favelas, os quartos de empregada, os presídios, as escolas públicas abandonadas. Muitos nomes são dados a essa ideia, e para ela empreguei o termo racismo estrutural.

Na década de sessenta do século 20, o pânico da casa grande de que houvesse uma sublevação da senzala se materializava na reforma agrária. Hoje, isso ainda gera medo nos ricos e poderosos, e também naqueles que se identificam com eles. No governo Lula, a revolta da casa grande diante de supostas benesses concedidas à senzala inclui o ódio ao Movimento dos Sem Terra e à concessão de direitos de terra e moradia a grupos minoritários como índios e quilombolas – sentimento alimentado com a competente contribuição da mídia hegemônica.

Grandes mentes são forjadas ao longo dos anos

A tarefa assumida por Jango foi algo que ele abraçou desde o início de sua carreira política, sempre alinhada aos movimentos progressistas. Da infância no campo, junto aos expropriados da terra, Jango amadureceu o entendimento de que a reforma agrária era uma ação fundamental à justiça social, à democracia e ao desenvolvimento do país. Uma espécie de Fernando Haddad sem a formação acadêmica, Jango, alçado ao Planalto em 1961 por conta da renúncia de Jânio Quadros, logo tratou de transformar em ações concretas os ideais maturados durante os anos de vida pública.

Jango e esposa em seu sítio no Rio Grande do Sul.

Ocorre que Jango compunha a parte minoritária da aliança que levou ambos ao poder em 1960, tanto que é precisou haver resistência civil para que ele pudesse tomar posse após a saída de Jânio, em 1961. O fato é que um progressista, simpatizante de países comunistas como a China, na cadeira da presidência é sempre uma coisa muito ameaçadora aos donos do poder no Brasil. Sim, se vocês pensaram em Lula, pensaram certo.

O que concluímos vendo “Jango” é que Lula na presidência do Brasil, guardadas as distinções do tempo do mundo, foi uma história que se repetiu. O começo com Lula foi diferente, mas o meio e o fim foram iguais.

Passado e presente se assemelham…

As semelhanças entre passado e presente que o filme revela são tão acentuadas que até as orientações ideológicas de Jango e Lula são semelhantes. Jango, segundo Tendler, desejava construir um capitalismo menos predatório, com alguma margem de ganho para as classes sociais menos favorecidas. Essa margem, para o político, tinha a ver com uma maior distribuição da propriedade da terra e mais proteção aos trabalhadores. Tratava-se de um capitalismo que imaginamos como sendo o dos países da Escandinávia hoje em dia, onde quase todo mundo é branco e cujos recursos naturais nenhum estrangeiro deseja explorar.

Lula também não pode ser considerado um socialista de raiz. Segundo muitos historiadores, sua Carta aos Brasileiros já assinalava sua intenção de afagar o mercado. Lula encaminhou sua política fundiária nos dois sentidos em que ela é entendida: na desapropriação de terras improdutivas já ocupadas e na destinação de novos assentamentos. Mas as concessões e benesses ao agronegócio também foram robustas, o que, junto com a alta das commodities na primeira década do século 21, conteve o racismo das elites antes de elas finalmente defenestrarem a esquerda, o que aconteceu com Dilma em 2014.

Outra semelhança histórica vem das ideias e forças que atuaram efetivamente para o golpe militar de 64 e hoje comandam o ideário nacional. Tanto lá quanto cá, os segmentos militar e religioso se sentam à mesa de jogo. No documentário de Tendler, o porta-voz da caserna é o general Antônio Carlos Muricy, cuja biografia revela uma personalidade um tanto bolsonarista, porque afeita ao motim e à valorização da ideologia de ultradireita em detrimento do contrato democrático.

Convicto em sua paranoia, Muricy, no documentário, reafirma com arrogância o propósito antidemocrático dos líderes militares que tomaram o poder, em nome do combate a um comunismo que reconheciam nas intenções agrárias e trabalhistas de Jango. O anti-comunismo dos militares era partilhado com a igreja católica, que o associava a uma suposta destruição da família nos moldes judaico-cristãos.

Embora demonizados – o são até hoje -, os movimentos sociais resistiram durante a ditadura militar.

Atualmente, os militares estão presentes em profusão no governo Bolsonaro, mas, embora o vice-presidente tenha pelo menos uma vez falado em auto-golpe, as intenções da caserna agora são mais patrióticas, e a ideologia está por enquanto limitada ao âmbito pessoal. Mas a religião se mantém presente, agora materializada nas igrejas neopentecostais, que inflam o antipetismo com machismo, homofobia e invenções bizarras como ideologia de gênero e fake news sobre mamadeiras e livros com buracos no meio.

… Mas também se diferenciam

Dentre as diferenças entre passado e presente, situam-se duas: os fatos e escolhas que levaram Jango e Lula ao poder, e algumas das crises enfrentadas pelos dois presidentes. Jango permaneceu como presidente apenas três anos, num parlamentarismo engendrado para evitar crises estruturais. Foi deposto sobretudo em função de não ter implementado uma conciliação entre casa grande e senzala, negociando com a casa grande benesses que lhe permitissem suportar conviver com gente pobre e não-branca usufruindo algum poder de compra e alguns direitos sociais.

Na verdade, como mostra o filme de Tendler, parece que Jango sequer imaginou que essa conciliação seria necessária. Parece que ele imaginou que todos adeririam ao projeto de desacumulação de renda e propriedade, que para ele devia ser a principal chance de sairmos do atoleiro do mundo e definirmos bases autônomas de desenvolvimento, pensamento que está bem próximo da verdade.

Lula, por sua vez, gozou de seus dois mandatos como presidente governando com o dinheiro oriundo das exportações de commodities e negociando largamente com a casa grande, que enriqueceu como nunca em contratos que hoje são objeto de investigação criminal. Mas, junto com o enriquecimento acelerado, as elites presenciaram a contragosto uma relativa ascensão das classes populares, a diminuição da miséria e a reivindicação dos pobres para algo além da condição de escravos.

Muita gente, eu entre eles, acreditou que, junto com as políticas públicas e cotas, viria uma transformação de pensamento e um contentamento geral por um Brasil menos desigual e menos injusto. Como todos sabemos hoje, estávamos enganados. Isso não aconteceu.

“Democracia em Vertigem” dirá às próximas gerações qual é nosso sentimento neste momento

O filme que me motivou a assistir “Jango” foi “Democracia em vertigem“, de Petra Costa. Junto com “O Processo“, de Maria Ramos, e “Excelentíssimos“, de Douglas Duarte, o filme compõe uma (até agora) trilogia de documentários sobre a história do golpe que apeou do poder a presidenta Dilma Roussef. Apesar dos problemas apontados pela crítica, “Democracia em vertigem” oferece algo que os outros dois filmes não apresentam: qual é o sentimento que nos assalta neste momento, diante dos crimes contra a democracia que vêm sendo sistemática e impunemente cometidos.

Após o exílio em diferentes países da América do Sul, o corpo morto de Jango retorna ao Brasil.

Para as gerações que virão, “Democracia em vertigem” dirá sobre o sentimento de perplexidade que acomete aqueles que foram vendo pessoas queridas se afastando mais e mais, até formar a aterradora cisão ideológica entre esquerda e direita que tem abafado a verdadeira cisão estrutural do Brasil, que é a que há entre casa grande e senzala. Até quando uma cisão abafará a outra, não sabemos.

O que sabemos é que, por ora, a conciliação entre casa grande e senzala não é possível, em função do racismo estrutural e histórico que os poucos anos Lula e Dilma não conseguiram reverter. É isso também que está sendo dito pelos documentários citados neste artigo, a começar por “Jango”. Nossa incapacidade de construir um país menos racista também está sendo comunicada aos brasileiros do futuro. Quantos de nós suportaremos seu julgamento?

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