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Jogo Perigoso

Jogo Perigoso

Yasmine Evaristo - 12 de outubro de 2017

Na onda de revisitar a estética dos clássicos do cinema oitentista, Stephen King voltou a cair nas graças do público. Como ocorreu em meados dos anos 1970-1980, 2017 é marcado por adaptações de seus livros. Um deles, “Jogo Perigoso” (Gerald’s Game, 1992) acaba de virar uma produção original da Netflix. Mais uma vez, trazendo personagens presos em uma situação angustiante e tensa, a obra de King encerra o espectador em um ambiente no qual as relações entre realidade e ilusão se confundem, intensificando assim expectativas que  desencadeiam em apreensão.

O casal de meia idade Gerald (Bruce Greenwood) e Jessie (Carla Gugino) viajam para um fim de semana a dois, em uma casa isolada, procurando uma maneira de aumentar a libido e se reaproximarem. A realização de uma fantasia sexual se transforma em um pesadelo para eles, pois o marido morre na cama enquanto sua esposa se encontra algemada. Neste ambiente estabelecido em Jogo Perigoso, como o corpo do Gerald a seus pés, Jessie precisa enfrentar seus medos e encontrar a melhor maneira de escapar da situação.

Jogo Perigoso Carla Gugino

A prisão de Jessie vai além da sua situação-limite: ela sempre se sentiu presa na incapacidade de enfrentar seu passado

Fica claro, logo no início do filme, que o diretor Mike Flanagan não consegue ser sutil e transmitir a violência presente na narrativa de maneira que esta seja incômoda pela simplicidade. Este incômodo vem então por meio da fantasia inserida na execução, como modo de amenizar os fatos. Ao ser algemada por seu marido, que tenta simular um estupro, como fantasia sexual a protagonista de Jogo Perigoso não consegue compartilhar da mesma idealização de prazer dele, se defendendo com uma reação agressiva. Nesse ponto, já conseguimos entender quem são aquelas duas pessoas, devido a suas posturas e diálogos. O casal está em um momento frágil, não existe intimidade entre eles.

Aquela mulher parece mecânica em cada um dos seus gestos, sempre travada, assustada. O esposo, frustrado com o rumo que a relação tomou, se martiriza, mas também reage como se a culpa fosse apenas dela. Seu óbito neste momento afirma a condição vulnerável da esposa, que passa a oscilar entre a realidade, alucinações e diálogos com o fantasma do marido (sempre em posição de superioridade) e, um cachorro de rua que faz de partes de Gerald um banquete.

O diálogo com o nada, na forma de pensamentos que a guiam sobre o que fazer ou não, ou de Gerald a questionando sobre o quanto ela realmente conhecia a verdade sobre a personalidade dele, são a maneira encontrada por ela para sobreviver. A fuga é uma constante na Jessie de Jogo Perigoso, que, a cada minuto passado, mergulha em seus problemas não resolvidos, atando-se  a memórias dolorosas que abalam sua sanidade mental. A relação abusiva com o pai (Henry Thomas), em sua infância, ou o misterioso homem que é inserido próximo ao fim do filme, em uma subtrama sem sentido, considerando o rumo que o filme toma, afirmam a minimização dela como mulher em toda a sua vida.

Jogo Perigoso Netflix Stephen King

As algemas do presente são um símbolo para significar o silêncio do passado

Nos momentos que seguem em Jogo Perigoso, cada passo dado para que a sua vida não escape determina que Jessie está encarcerada há tempos, no fundo do poço em que guarda seus segredos, relacionados ao fato de ser sempre sua a culpa de qualquer coisa que acontecer de errado. Ao abordar esse lado da vida dela, é explicitada a maneira como, na sociedade, qualquer tipo de abuso contra um corpo feminino, físico ou psicológico, é de responsabilidade da vítima e não dos agressores.

Jessie é mais uma entre diversas mulheres que guardam em sua memória algum tipo de trauma, que nunca foi compartilhado com ninguém e, aninhado ali em um terreno angustiante, é regado por discursos não empáticos, crescendo e tomando sua mente como um parasita, sugando sua perspectiva de melhora. Seu pai, seu marido, o cão e o ente do luar são todos a mesma força opressora que agem sobre seu ser. Eles são algemas que a aprisionam na certeza de que qualquer escolha feita é a adição de uma nova ferida.

Assim como outros textos de King, em princípio Jogo Perigoso flui de maneira tranquila, com seus elementos bem delineados. Mas, ao fim, as resoluções são feitas de maneira rápida, prejudicando o desenvolvimento da trama. Outro ponto prejudicial à história é o tempo interno da narrativa, pois o filme tem cerca de 1h30min de projeção que transcorrem como duas horas ou mais. Pode ser pelo fato de adentrarmos na situação relatada, mas isso gera uma sensação de cansaço e lentidão no desenrolar da segunda metade. Mesmo com uma interpretação emocionante, Carla Gugino é prejudicada pelos rumos escolhidos por Flannagan ao realizar Jogo Perigoso. A solução final para exaltar o caminho encontrado para a “cura” de Jessie também não agrada ou sequer satisfaz. Uma pena, pois, após o enredo explicitar tão bem a temática dos abusos e traumas consequentes, era de se esperar mais do que aquilo que viria como conclusão. Assista clicando aqui.

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