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Loja de Unicórnios

Loja de Unicórnios

Uma fábula de amadurecimento (tardio)

Gustavo Pereira - 7 de abril de 2019

A abordagem de “Loja de Unicórnios” a respeito do “choque de realidade” com o “mundo adulto” e o amadurecimento não é diferente da vista em filmes de amadurecimento – coming of age – recentes como “Me Chame Pelo Seu Nome” e “Lady Bird“. Diferente é a escolha da protagonista: Kit (Brie Larson, estreando na direção), diferente de Elio e Christine, não é uma adolescente às vésperas da maioridade, mas uma jovem adulta na casa dos 25 anos. Uma jovem adulta que quer um unicórnio.

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A primeira sequência do filme é uma montagem de fitas caseiras que mostram uma criança criativa e sonhadora, brincando e desenhando até chegar à faculdade de Artes. Normalmente, filmes usam esse tipo de montagem para mostrar vitórias. “A artista com alma de criança”. Quando Kit é reprovada na faculdade, recebe o seu primeiro “choque de realidade”. Não deixa de ter certa ironia que a trilha sonora use um carrilhão para sincronizar com a protagonista assoprando purpurina na pintura, uma combinação que dá ao gesto um ar quase mágico, e seu professor qualifique o trabalho como “pobre” em “sentimento”.

O sonho destruído obriga Kit a voltar para a casa dos pais e encontrar um “emprego de verdade”, que eventualmente encontra numa agência de vagas temporárias. Seu chefe Gary (Hamish Linklater), o símbolo da vida que Kit agora procura, é o exato oposto de sua personalidade: suas falas são entregues num tom monocórdio, sem nenhuma emoção. O ambiente é iluminado pelas lâmpadas fluorescentes de escritório, as roupas dos funcionários são do mesmo tom de cinza, os enquadramentos mostram uma padronização sufocante. Não há nenhum traço de individualidade no ambiente. É aí que Kit recebe um cartão convidando-a para ir a um lugar chamado “A Loja” e lhe é oferecida a chance de ter um unicórnio.

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É interessante notar que o unicórnio, apesar de ter voltado à moda nos últimos anos, é um símbolo milenar de graça, pureza e cura. Talvez o motivo de haver tanta parafernália relacionada a unicórnios (boias, camisetas, pelúcias etc.) em evidência hoje em dia seja exatamente por ele representar um elemento fantástico próprio da infância. E a geração que agora chega à sua idade adulta (há quem diga que a adolescência vai até os 24 anos) o adotou como um símbolo desse espírito jovem e sonhador, que não precisa “morrer” quando se chega a uma nova fase da vida.

Nesse sentido, “Loja de Unicórnios” é o primeiro coming of age com uma protagonista millenial. E, de forma quase paradoxal, porque não é fácil ver uma mulher de 25 anos falando de unicórnios e seguir dando credibilidade a ela, traz um conflito bastante verossímil: os millenials são vistos como uma geração “leite com pera”, mas também são os mais abertos a buscar soluções lúdicas para problemas reais. A jornada de Kit para se provar “digna” de um unicórnio é a jornada de quem quer vencer no “mundo adulto” sem perder sua criança interior. Para isso, lida com pais que não a compreendem (mesmo sendo conselheiros emocionais) e colegas de trabalho que não a respeitam. Nem seu novo amigo Virgil (Mamoudou Athie) acredita nela.

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Apesar de um belo trabalho conceitual no uso de cores e um figurino que reflete a personalidade de Kit, “Loja de Unicórnios” tem seu maior problema no equilíbrio entre fantasia e sobriedade. Os personagens secundários, que também lidam com os dilemas da vida de “gente grande”, não oferecem outros pontos de vista e nem têm profundidade para enriquecer a história ou transformar a protagonista. Os conflitos tampouco são bem resolvidos. Por exemplo, os pais de Kit: Gladys (Joan Cusack) e Gene (Bradley Whitford) não são pessoas ruins, apenas não entendem o mundo da mesma forma que sua filha. Não há, no fim, uma resolução para isso. E eles também não fazem mais do que proporcionar alguns alívios cômicos a um filme que já tem muitos.

Em seu primeiro trabalho dirigindo, Brie Larson mostra algumas ideias interessantes. Sua atuação (assim como a de Samuel L. Jackson, que dá vida ao Vendedor) é digna de elogios por dar carisma a uma personagem em última instância rasa. Sua fábula de amadurecimento tardio toca em pontos sensíveis de uma geração que quer crescer à sua própria maneira. O maior pecado é não se aprofundar em nenhum deles.

Você pode assistir a “Loja de Unicórnios” na Netflix clicando neste link.

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