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Meditation Park

Meditation Park

Tornando visíveis mulheres que não são de nenhum tempo e nenhum lugar.

Ana Flavia Gerhardt - 10 de abril de 2019

Em certa medida, “Meditation Park” (2017), filme de Mina Shum, diretora e roteirista nascida em Hong Kong e radicada no Canadá, assemelha-se ao excelente “Longe do Paraíso” (2002), de Todd Haynes. Assim como no filme estadunidense, em “Meditation Park” os valores da família tradicional são ameaçados pela reivindicação do patriarca a um prazer que ele julga ter sempre negado a si mesmo para proporcionar sustento a família. E, em ambos os filmes, ele faz isso sem se importar com o sofrimento que seu grito de liberdade pode causar principalmente à esposa.

Além disso, assim como acontece na obra de Todd Haynes, Mina Shum não se limita a mostrar as coisas da perspectiva masculina. Aliás, em ambos os casos, os maridos, embora ocupem o centro da tela por uma parte do tempo, nem de longe são os personagens mais importantes. Tudo gira em torno da esposas, defendidas por atrizes (Julianne Moore e Pei-Pei Cheng) que nos fazem sentir profunda empatia por sua perplexidade diante de um frágil mundo em processo de desmoronamento.

A questão cultural como motivação para falar de sentimentos

Cineasta interessada no choque entre as culturas oriental e ocidental, no caso, a chinesa e a canadense, Shum repete em “Meditation Park” essa temática, já abordada, por exemplo, em “Os dois lados da felicidade” (1994). Porém, parece ser característica da diretora definir como pano de fundo o contraste cultural e trazer à condição de figura as questões do feminino e da sexualidade. No caso do filme de 1994, o dilema é o da mulher jovem de família conservadora, aquela a quem o direito ao desejo é negado, e sobre quem a obrigação do casamento é imposta diuturnamente.

No filme de 2017, e provavelmente por conta de uma fase da vida que traz novas questões à diretora, o ponto de conflito é a condição da mulher que passou a vida servindo a seu marido porque aprendeu assim, tendo aprendido também a renunciar a seu desejo em função de uma garantia de proteção e segurança, que é, segundo os arautos de um mundo de papeis sociais pré-estabelecidos, o que as mulheres querem.  Esse detalhe é mais uma interseção com “Longe do Paraíso”, cuja protagonista não está incluída nos planos de felicidade de seu marido porque, para todos os efeitos, ela já tem tudo o que uma mulher pode desejar: filhos saudáveis e uma casa confortável e funcional.

Como situar-se num mundo em que passado e presente estão em conflito

Mas as semelhanças entre os filmes param aí. Cathy, a protagonista de “Longe do Paraíso”, está completamente inserida e adaptada ao ápice da propaganda do american way of life, correspondendo às expectativas de comportamento das mulheres de sua idade, seu tempo e seu lugar. Porém, Maria, a protagonista de “Meditation Park”, é uma pessoa situada num limbo espácio-temporal em que certamente estão muitas mulheres de classe média e de sua faixa etária – sessenta e poucos anos, justamente as mulheres criadas para a vida doméstica que se tornaram adultas no limiar do surgimento do feminismo e no início do questionamento dos papeis femininos sociais e morais.

O lugar, digamos, in between de Maria, que foi criada para um mundo que não mais existe fora de sua casa, se marca de diversas formas: na alternância entre o cantonês e o inglês que a personagem, mesmo após décadas vivendo no Canadá, ainda não fala com fluência; analogamente, nas ideias e comportamento que aprendeu em sua família pobre e manteve na vida no ocidente; no desejo de estudar que não foi satisfeito na terra natal e não encontrou espaço após a imigração, diante da imposição de criar os filhos e da não percepção de que podia fazer isso. E, acima de tudo, no estranhamento constante por ter permanecido sendo uma mulher de outro espaço, e agora outro tempo, o que a tornou completamente despreparada para lidar com a eventual desestruturação de seu pequeno mundo.

Descrevendo uma personagem invisível

Minha Shum recorta o limbo em que se encontra Maria colorindo o filme com matizes sépia, principalmente no interior de sua casa. A paleta em torno do mostarda insere o espectador numa atmosfera cálida e convidativa, extensão da natureza afetuosa de sua dona, que navega ali senhora de todos os espaços. Essa imagem se reforça com os temas musicais, que, embora mais presentes do que o necessário em alguns momentos, alternam-se entre sequências leves e graves dependendo do momento psicológico da protagonista, mas sempre em tons delicados, materializando a dimensão estética em que Maria insere todas as suas ações, mesmo aquelas que, ela sabe, podem lhe trazer sofrimento.

Em contraste com as cores dos cenários, os tons pasteis do figurino de Maria, majoritariamente na paleta do cinza, além de reforçar a falta de marca sócio-existencial da personagem, a tornam uma pessoa completamente amalgamada aos ambientes interiores e exteriores. O figurino não lhe permite destacar-se nos cômodos de sua casa, e o céu sempre nublado de Vancouver a fazem praticamente desaparecer na tela. Sua imagem camuflada ao que está a sua volta apenas reflete o sentimento de vazio, indigência e nulidade diante da nova realidade que lhe remove o chão sob os pés.

Um problema (ainda) inerente à condição da mulher

O filme trata da lenta tomada de consciência por Maria de sua condição de pessoa sem tempo e sem lugar. É importante salientar que ela não é a única personagem em desalinho: sua filha Ava (Sandra Oh), completamente situada no tempo da contemporaneidade, também enfrenta os dilemas da mulher que deseja uma vida fora da dimensão doméstica (“dinheiro é liberdade”, lhe diz Maria em um dado momento), mas a condição de mãe lhe produz a culpa causada pelo imenso cansaço de cumprir ao mesmo tempo obrigações públicas e domésticas, algo que a cumplicidade do afetuoso marido não consegue minimizar.

É realmente difícil se libertar do vaticínio de ser mulher após milhares de anos de opressão e confinamento ao espaço familiar. Por isso se torna interessante, nesse sentido, a ideia que o filme passa sobre o peso gigantesco que as obrigações sociais aprendidas desde a infância exerce sobre as mulheres. É evidente que Ava teve uma criação em moldes parecidos com aquela que sua mãe recebeu, e luta para firmar-se no mundo apesar da herança machista. É evidente também a mensagem, representada pelas amigas de Maria, que parecem não ter nenhuma obrigação familiar, do que pensa Shum sobre as escolhas que uma mulher precisa fazer para ser realmente livre.

Não dá para alimentar ilusões. Nem no Cinema.

Um dos pontos positivos do filme é o de não advogar pela possibilidade de que a ficha caia de repente e Maria se torne uma mulher empoderada da noite para o dia, como acontece em muitos filmes menos inspirados sobre o mesmo tema. Por isso, espanta ao espectador a finalidade que a personagem tem em mente ao buscar obter algum dinheiro que seja seu. Espanta também, embora isso seja absolutamente previsível, a dificuldade de Maria em enfrentar o marido Bing (Tzi Ma), buscando, em vez disso, encontrar uma forma de manter a vida como era antes da descoberta de sua infidelidade, mesmo reconhecendo seu egoísmo e sua total incapacidade de aprender a ser um tipo diferente de homem, pelo menos um que reconheça na esposa uma igual, com os mesmos desejos e direitos.

O que é interessante, ao final, é a ideia de que o conhecimento de algo nos transforma tão completamente, afeta tantos conceitos arraigados, que nos tornamos incapazes de voltar a ser como éramos antes de conhecer o que nos transformou. Por isso não será mais possível a Maria voltar a ser a mulher no não-lugar e do não-tempo, confortável em sua diminuta casa, onde poderia continuar a ser uma pessoa deslocada de tudo, protegida das dores do aprendizado e do crescimento. Não é possível, inclusive, porque tudo o que aprendemos não muda apenas nosso futuro; muda também nosso passado, já que nos faz rever verdades equivocadas que cultivamos por toda a vida.

Já consciente de que serão inúteis suas tentativas de escamotear as mudanças que o conhecimento impôs sobre sua vida, Maria percebe que nem tudo está perdido. Agora visível, ela pode destacar-se dos cenários, e Shum a veste com novas cores, que reforçam seu desejo de individualizar-se, porque nunca é tarde demais para isso. Quanto tempo durará a resistência de Maria, não sabemos. O que sabemos é que nada será mais como antes, e a atuação cativante de Pei-Pei Cheng nos faz torcer pelo futuro da personagem, porque conhecemos muitas mulheres, algumas delas nossas mães, que não realizaram ainda as transformações conceituais que lhes permitem enxergar o mundo e a si mesmas fora dos padrões sociais que as oprimiram por toda a vida. Torcemos por elas também, e torcemos por nós, por um mundo melhor no futuro, em que não mais seremos escravizadas e tratadas como propriedade.

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