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Meu Ex É Um Espião

Meu Ex É Um Espião

Matheus Fiore - 20 de agosto de 2018

É um sintoma do tempo de mudanças em que vivemos que tenhamos tantas obras engajadas em falar sobre feminismo e empoderamento feminino. Em 2017, o irregular Colossal, de Nacho Vigalondo, trabalhou relacionamentos abusivos e o empoderamento da protagonista vivida por Anne Hathaway por meio de uma trama que materializava os monstros interiores dos personagens. No ano anterior, A Bruxa, de Robert Eggers, também manifestou o tema por meio de um filme de terror, no qual o poder feminino era demonizado pelas figuras masculinas.

Chegamos, agora, a Meu Ex É Um Espião, comédia de Susanna Fogel que conta a história de Audrey (Mila Kunis), uma moça que, após descobrir que seu ex-namorado Drew (Justin Theroux) é um espião, viaja para Viena com sua melhor amiga Morgan (Kate McKinnon) para entregar um objeto confidencial que, se em mãos erradas, pode causar a morte de inocentes.

Meu Ex É Um Espião tem nos primeiros quinze ou vinte minutos seus melhores momentos. Uma clara diferença na fotografia cria, imediatamente, dois cenários distintos: enquanto Audrey comemora seu aniversário em um bar com as amigas em um ambiente descontraído e colorido, Drew está do outro lado do mundo realizando uma missão fotografada de forma extremamente dessaturada para criar um contraste não só visual, mas também de tom.

Infelizmente, tudo que há de bom no ato inicial é ignorado ou subaproveitado na sequência. As piadas com rimas visuais, por exemplo – no primeiro ato, um plano de Drew atirando em um inimigo é seguido por Audrey utilizando uma arma de brinquedo em um jogo –, deixam de ser usadas para construir piadas.

A montagem também perde seu valor, uma vez que a obra passa a trabalhar dois paralelos temporais: a missão de Audrey e Morgan na Europa e o passado da protagonista com seu ex-namorado. As cenas do passado, porém, não se justificam: não acrescentam à trama, não enriquecem os personagens e sequer chegam a seguir uma narrativa própria – na verdade, os flashbacks passam a ser subitamente ignorados.

Não ajuda também o fato de as piadas serem assustadoramente formulaicas e terem sempre a necessidade de ter um carimbo de Morgan. A coadjuvante precisa tornar qualquer acontecimento em piada, o que inicialmente é divertido, mas em um filme de duas horas logo se prova uma escolha que impede qualquer trabalho de médio prazo no roteiro, limitando o humor a tiradinhas curtas, rápidas e pouco inventivas (justamente por sempre partirem do mesmo lugar).

É elogiável o fato de haver um interesse do roteiro por trazer personagens femininas além da dupla protagonista. Temos a agente da MI6, Wendy (Gillian Anderson), e a modelo super-vilã Nadedja (Ivanna Sakhno). Ambas, porém, limitam-se a estereótipos: a primeira é a típica chefe intransigente que fará seus subordinados desafiarem suas (equivocadas) ordens; já a segunda é a clássica figura que sofreu lavagem cerebral para se tornar uma máquina de matar.

Estereótipos, aliás, são uma constante em Meu Ex É Um Espião. A obra abusa de visões superficiais sobre seus personagens e os lugares por onde passam. Quando a obra vai a Berlim, por exemplo, não poderia haver estereótipo maior do que um desfile de moda alternativa com muros pichados e uma música eletrônica densa, combinação que remete ao tenso clima de contracultura do período da queda do Muro.

E, se o texto até aqui carece de comentários sobre o tal “empoderamento feminino” da protagonista, é porque ele, de fato, praticamente inexiste. Mesmo que seja a jornada que move Audrey, sua busca por emancipação emocional após o fim do relacionamento é soterrada pelo caminhão de piadas de sua melhor amiga e reviravoltas de uma trama de espionagem barata. Aliás, é justo dizer que, de empoderador, pouco há em Meu Ex É Um Espião, já que não são raras as situações nas quais as mulheres, indefesas e à mercê das forças do mal, são resgatadas por, quem diria… Um clássico herói homem heterossexual alto e forte.

Meu Ex É Um Espião, portanto, é um longa que subaproveita qualquer potencial temático em prol do humor mais barato e genérico possível. Qualquer discussão acerca da libertação de sua protagonista é abandonada no meio do caminho e retomada quando já é tarde demais para que a obra seja algo além de uma enfadonha e cansativa comédia. Temos aqui, então, uma comédia sobre empoderamento feminino que, por seu humor básico e extremamente dependente de uma só personagem, não diverte, e, por depender sempre de figuras masculinas para salvar o dia, não empodera.

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