Ajude este site a continuar gerando conteúdo de qualidade. Desative o AdBlock

Meu Nome é Dolemite

Meu Nome é Dolemite

Um rei nunca perde a majestade

Ana Flavia Gerhardt - 29 de outubro de 2019

“Explosão, carro e mulherio”. Segundo a equipe do programa Choque de Cultura, esses são os componentes essenciais para um bom filme. Essa também foi a receita dos filmes que pertencem ao movimento do Cinema estadunidense da década de setenta chamado Blaxploitation, caracterizado por incluir elencos e realizações de pessoas negras. Mas, junto à mistura, havia também uma boa dose de crítica à estrutura social racista dos Estados Unidos da época, que, embora já livre das leis de segregação, ainda mantinha uma separação espacial rígida entre comunidades brancas e negras. “Meu nome é Dolemite”, disponível na plataforma Netflix, traz de forma inspirada o conhecimento sobre esse tempo, através da história real e fascinante de Rudy Ray Moore, encarnado em um Eddie Murphy em magnífica forma.

O filme relata as conquistas de Rudy no showbiz negro dos Estados Unidos a partir da ideia de gravar as anedotas rimadas que os mendigos da vizinhança negra de Los Angeles criavam. Uma espécie de cordel falado, essas anedotas eram piadas de conteúdo pornográfico e escatológico, com muitos palavrões. O plágio realizado de início por Rudy logo cedeu lugar a uma efervescência de criatividade que cativou as plateias dos clubes noturnos frequentados pela comunidade negra de Los Angeles e ganhou o país. Para contar as histórias picantes, Rudy usava o pseudônimo “Dolemite” e involuntariamente incorporava a estética que se tornou marca registrada do cinema Blaxploitation: muitas cores berrantes, muitos figurinos extravagantes. Essas histórias rimadas, gravadas em vinil, se tornaram inspiração para expressões artísticas importantes da cultura estadunidense como o rap e o hip-hop, que hoje se inscrevem na tradição milenar do trovadorismo e da declamação.

Eddie Murphy

A segunda parte do filme descreve a ousada iniciativa de Rudy de fazer um filme, integrando-se, também involuntariamente, ao movimento Blaxploitation, que em “Meu Nome é Dolemite” ganha justificativas para sua emergência: Rudy incomodava-se com o cinema feito por brancos, cujos scripts e elencos não incluíam a cultura negra estadunidense, e por isso as pessoas negras não se identificavam com eles, embora não deixassem de ir ao cinema. A falta de representação negra na cultura cinematográfica do país – pior que isso, a segregação estereotipada que se via na tela em forma de subalternidade e invisibilidade – estimulou grupos de artistas a realizarem filmes estrelados, roteirizados e dirigidos por pessoas negras, cujas narrativas privilegiaram o agenciamento de personagens negros, ao contrário da figuração destinada ao elenco negro em filmes de brancos.

A mise-en-scène elaborada pelo diretor Craig Brewer, vindo de produções da TV, nos posiciona não apenas no tempo e no lugar em que esses sentimentos e ações se implementam, mas também no clima energizado e contagiante que o protagonista Rudy, brilhantemente interpretado por Eddie Murphy, imprime às suas iniciativas. A direção de arte de Beat Frutiger, os cenários de Lisa K. Sessions e os figurinos de Ruth E. Carter nos permitem a percepção de que agora sabemos como eram os clubes noturnos em que os grandes músicos e cantores negros se apresentavam, e como a plateia os recebia.

É interessante notar que, nos cenários de “Meu Nome é Dolemite”, ao contrário do que acontece em espaços dominados pela branquitude, as pessoas brancas é que parecem deslocadas, sem saber como agir, onde se situar e como se comportar num lugar onde não são elas que comandam as ações e os lugares sociais. É porque Brewer, inteligentemente, compreende que ali não é seu lugar de fala. Por isso, reconhece que, como nos melhores exemplares da estética Blaxploitation, cabe ao elenco delicioso a prerrogativa de construir um filme com a marca registrada e o sentimento de pessoas negras, que generosamente o entregam para nós, pessoas de todas as raças, para que conheçamos um pouco de sua história.

Rudy e amigos

Eddie Murphy, um ator com um legado relevante na comédia estadunidense, encarna um artista também com um legado importante na cultura de seu país. Emergindo do ostracismo para reinar absoluto como Rudy, Murphy é a espinha dorsal do espírito do filme, lapidando um personagem que pode ser definido como o oposto perfeito do Coringa de Joaquin Phoenix: ele também sofrido por uma infância difícil (e qual menino negro de sua época não a teve?) e por iniciativas que não deram certo, ao ouvir o conselho de D’Urville Martin, diretor do filme (Wesley Snipes, também brilhante) de que deve usar esse sofrimento para transmirir verdade ao personagem (“mergulhe em si mesmo, conecte-se e use isso”), entra de cabeça na narrativa e transforma seu filme em uma obra cheia de atitude, malgrado todos os defeitos técnicos que a crítica execrou.

“Atitude”, de fato, é a palavra que define “Meu Nome é Dolemite”. Atitude e orgulho, em diferentes medidas. Rudy, de início, não acredita em si mesmo, mas gradativamente vai se apropriando de seu talento e singularidade. No caminho, captura Lady Reed (Da’vine Joy Randolph) de um relacionamento abusivo para uma amizade plena de afeto genuíno e confiança mútua. E encontra D’Urville, que mantém a duras penas sua autoestima de artista negro numa sociedade historicamente racista, que coloca as pessoas não brancas em condição cotidiana de inferioridade, e impõe a atores e atrizes apenas papeis alinhados às expectativas brancas de como as pessoas negras devem se comportar para serem “aceitas”.

Wesley Snipes

Esses significados todos estão embalados em um filme a que assistimos com um sorriso nos lábios, por isso não era necessária a exibição, mais uma vez, da nudez e seminudez feminina sem nenhuma justificativa. É de se lamentar que um filme que afirma a potência de grupos historicamente subalternizados ainda insista no machismo e na objetificação das mulheres. A iniciativa de descrever com fidelidade a cena Blaxploitation, que também não evitava a nudez feminina, não é desculpa para  isso. A meia estrela a menos de “Meu Nome é Dolemite” se deve a esse erro que não dá mais para ser cometido já com o século 21 em curso. Para os que desejam obter mais argumentos para denunciar o machismo no Cinema, recomendo a leitura deste artigo da feminista e intelectual estadundense Kimberle Crenshaw.

Esse é o único senão de uma obra que resgata de maneira cativante e comprometida um artista e um momento significativo da história do cinema estadunidense, e para isso também resgata para as novas gerações um ator que já foi o rei da comédia, mas ainda perdeu a majestade. A presença de Eddie Murphy enriquece um tema que levará o filme a estar em nossas mentes tempos depois de assistirmos ao seu último minuto, quando Rudy demonstra ter compreendido em plenitude a lição de D’Urville sobre o que significa conectar-se: é entregar-se à arte, às pessoas e ao fluxo da vida.

Topo ▲