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Missão no Mar Vermelho

Missão no Mar Vermelho

Nunca o racismo foi tão cafona

Ana Flavia Gerhardt - 29 de agosto de 2019

Há filmes que se situam na vanguarda do conhecimento, expandindo as possibilidades de manifestação artística de todas as formas de pensamento. Outros apenas acompanham as ondas de expansão cognitiva do mundo, reafirmando sua validade e consolidando as mudanças que essa expansão provoca nas pessoas. Mas há os filmes que permanecem na lanterna do atraso, repetindo erros e preconceitos. É evidente que estes terão seu público; afinal, o mundo se encontra em franco retrocesso de ideias, e lamentavelmente o regime de verdade que impera hoje em muitos países é o reacionarismo. “Missão no Mar Vermelho” parece ter sido feito sob medida e encomenda para esse regime.

Mas aprendi alguma coisa assistindo com dificuldade, às vezes indignação, aos 130 minutos de “Missão no Mar Vermelho”. Aprendi que, mesmo dentre os filmes reacionários, e, no caso da obra em foco nesta resenha, filmes racistas, há os que ainda tentam disfarçar seu preconceito e vender uma imagem de progressismo e desconstrução. Exemplo para isso são “Histórias Cruzadas” (2011), “Estrelas além do Tempo” (2016) e “Green Book” (2018), que tratam de estadunidenses negros em momentos de visibilidade inéditos num país onde a segregação já compôs diversas políticas de Estado.

O grande público adora esses filmes: o que pode ser mais fofinho do que a amizade entre patroas e empregadas, engenheiras negras simpáticas e poderosas e o carcamano ignorante que admira o virtuose afro-americano? Levantem a mão os leitores do Plano Aberto que tiveram de explicar aos incautos quão racistas são esses filmes, porque eles se estruturam em torno das velhas fantasias da branquitude: os white saviorso espanto diante da inteligência de quem não é branco e a clássica máxima “eu não sou racista, até tenho um amigo negro…”.

equipe de agentes

“Missão no Mar Vermelho”, porém, se coloca num lugar ainda mais retrógrado do que os filmes citados acima, porque sequer disfarça seu racismo. Nesse sentido, o filme termina por ser, além de racista, cafona e ignorante, porque desconhece as conquistas dos movimentos sociais e desenterra o racismo que havia no Cinema antes de este ser afetado pelos estudos em ciências humanas que denunciam a discriminação em suas nuances mais sutis. Ah, mas um diretor de cinema precisa saber dessas coisas? Sim, precisa conhecer pelo menos o mínimo para não passar a vergonha que o diretor israelense Gideon Raff está passando com esse aqui.

Há quem discorde de minhas afirmações dizendo que não havia como “Missão no Mar Vermelho” ser diferente, porque trata de fatos que realmente aconteceram: o embarque de milhares de judeus somalis refugiados para Israel por obra do Mossad, o serviço secreto israelense, no início da década de oitenta do século passado, sob o disfarce de um hotel na costa sudanesa onde se planejaram e se executaram as saídas de mais de cem pessoas por vez.

É difícil comprar a narrativa oferecida por Raff, que roteirizou e dirigiu uma obra ufanista sobre a generosidade israelense em levar judeus de todo mundo, não importa a cor de sua pele, para a Terra Prometida. Também fica desconfortável ao ver o filme qualquer um que sabe que, a par dos milhões de judeus que por séculos foram expulsos dos países onde viviam, governos israelenses também relegaram os não judeus palestinos a párias em sua própria terra, e a refugiados em países vizinhos, tão refugiados quanto os judeus que o Mossad resgatou no Sudão. Mas, infelizmente, essa contradição, que poderia enriquecer o filme, não foi sequer citada.

exército sudanês

Esse problema, que pode ter contribuído grandemente para que “Missão no Mar Vermelho” ficasse engavetado após sua finalização em 2017 para só este ano ser comprado pela Netflix, se soma à sua preguiça narrativa. Estão lá, sem tirar nem pôr, todos os componentes dos filmes de ação ufanistas: o protagonista garanhão macho-alfa branco de personalidade difícil, que mesmo assim tem colegas fieis que não hesitam em atender a seu chamado para mais uma missão heróica: para esse papel, o Chris Evans entrou de gaiato, coitado. Entre os colegas, um é interpretado por algum ator excelente: no caso, Alessandro Nivola, cujo momento solo é tão constrangedor – meio ressentimento, meio saída de armário -, que eu espero que o cachê lhe tenha servido para pagar as contas mais preocupantes.

Outros elementos-clichê de filmes de ação/espionagem também estão lá para atender aos espectadores do gênero: Ben Kingsley, o arroz-de-festa dos filmes de ação que tratam de agentes israelenses. Uma mulher para constar (obrigada, The Bolsozapp Herald) – e Haley Bennett também passa pelo constrangimento de atender pela enésima vez ao fetiche masculino de ser assediada por ser comissária de bordo. E aquele coadjuvante que rouba a cena: o coronel Ahmed encarnado por Chris Chalk toca o terror toda vez que aparece, e sua figura é a única realmente capaz de provocar alguma emoção na gente. Não fosse Chalk, “Missão no Mar Vermelho” levaria ainda menos do que a estrela que lhe dei.

Mas vendo “Missão no Mar Vermelho” aprendi ainda outra coisa: que os filmes racistas, todos eles, se caracterizam pelo apagamento das pessoas não brancas, seja pela ausência física, seja pela ausência cognitiva, seja pela ausência de agenciamento na trama. Filmes mais atuais que procuram disfarçar seu racismo usam da estratégia de incluir sem incluir, ou seja, incluem os corpos não-brancos, mas excluem suas competências e sua agentividade. A cafonice racista de “Missão no Mar Vermelho” se caracteriza por todas as exclusões enunciadas acima.

Coronel Ahmed

A ausência física de pessoas não-brancas se dá pelo fato de que não há, entre os personagens que planejam as ações de resgate de pessoas africanas, alguém que seja africano e conhecedor da região para compor a equipe, o que chega a ser uma aberração de tão absurdo. O único homem negro que não é bandido nem refugiado (Michael Kenneth Williams) parece em algum momento realizar ações agentivas de planejamento, mas essas ações ficam subentendidas e não ganham espaço no filme: ele apenas é enquadrado trazendo as pessoas a serem embarcadas.

A ausência cognitiva se dá em muitos aspectos, todos clichês: me irritou enormemente ver mais uma vez os brancos israelenses falando um inglês impecável, mesmo não sendo o inglês a primeira língua em Israel, ao passo que todos os negros (alguns deles interpretados por atores estadunidenses) falavam um inglês macarrônico, como se não fossem inteligentes o suficiente para reproduzirem as “sofisticadas” estruturas fonológicas da língua da Rainha. Essa bobagem é repetida ad nauseam em muitos filmes e denuncia, além do racismo, a total ignorância colonizadora dos realizadores sobre o que é aprender e usar uma língua estrangeira, como se só gente branca fosse capaz de falar língua de branco.

Vendo “Missão no Mar Vermelho”, me lembrei da afirmação do Frantz Fanon em Pele negra, máscaras brancas, de que “falar significa estar na posição de usar uma certa sintaxe, de capturar a morfologia desta ou daquela língua, mas significa, acima de tudo, assumir uma cultura, suportar o peso de uma civilização…”. Me pergunto em que medida a pronúncia macarrônica de pessoas não brancas falando inglês no cinema traz embutida a sugestão de que elas nunca poderão efetivamente fazer parte da cultura que hospeda a língua que estão falando. E me pergunto também por que tantos brancos acreditam que os não-brancos desejam fazer parte da cultura deles.

refugiados

Faz muita falta a muitos cineastas pertencentes ou agregados às culturas anglo-saxônicas uma simples leitura de qualquer livro de Angela Davis ou Bell Hooks. Essas intelectuais tratam o tempo todo de como, em meio à escravidão e à segregação, as pessoas em situação de opressão e violência são capazes de planejar ações conjuntas para construir de maneira potente sua intelectualidade e erudição em todas as esferas de conhecimento. Gideon Raff mostra que carece dessas e de outras leituras para pretender realizar uma obra sobre qualquer conflito que envolva pessoas não-brancas. Seu “Missão no Mar Vermelho” é mais um filme que trata as pessoas negras e africanas como intelectualmente indigentes e completamente incapazes de agenciar seu destino, e trata os brancos como eternos salvadores e os únicos capazes de resolver as questões políticas e guerras muitas vezes criadas por eles mesmos.

Filmes assim só servem mesmo para a compor a cartilha do que não fazer no Cinema de conflito e discussão racial no século 21. Ou melhor: a tomar também pela profusão de clichês que o espectador já engoliu mil vezes, “Missão no Mar Vermelho” acaba mesmo é sendo um exemplo do que não fazer de jeito nenhum no Cinema no século 21.

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