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Nasce Uma Estrela

Nasce Uma Estrela

Gustavo Pereira - 11 de outubro de 2018

“Nasce Uma Estrela” é um filme em que a música tem função narrativa essencial. É mais musical que, por exemplo, “La La Land“. Mas não é, surpreendentemente, do gênero “musical”. É uma história de amor, carregada de drama e com músicas. Muitas músicas.

Já nas primeiras cenas com Jack (Bradley Cooper) e Ally (Lady Gaga), há a intenção em criar rimas e associações visuais entre os dois. Jack vem das trevas dos bastidores para a luz do palco; Ally sai de um restaurante iluminado com lâmpadas fluorescentes e caminha por uma viela escura, rumo ao bar onde se apresentará. Jack é sistematicamente associado ao vermelho; Ally, ao azul. Jack é ímpeto, luxúria, excesso e intensidade; Ally é sabedoria, ponderação, contemplação e infinitude. O embate entre as duas personalidades movimenta o filme do começo ao fim e esse padrão de cor e iluminação aparece constantemente, mostrando que foi uma decisão consciente.

Nasce uma estrela Lady Gaga Bradley Cooper

Em seu primeiro trabalho como diretor, Cooper aposta em muitos enquadramentos fechados, com os rostos dos personagens ocupando quase a totalidade da tela. De fato, isso facilita a sua tarefa, mas também proporciona um efeito interessante ao dar ênfase nas reações de cada um. Isso transfere a maior parte da responsabilidade por uma cena funcionar ou não ao elenco, que fica muito mais exposto do que numa composição mais aberta, onde mais elementos fazem parte das cenas. E é aí que vemos um elenco muito sintonizado à história que “Nasce Uma Estrela” está contando, com ênfase em Gaga, Cooper e Sam Elliott (os mais novos lembrarão dele em “O Grande Lebowski”).

Lady Gaga merece uma menção à parte. Ela consegue sair da persona da cantora. Em Português claro, ela não “se parece” com a Lady Gaga cantora. Há, sim, elementos autobiográficos na composição de Ally, mas eles não são explícitos ou ferramentas de autopromoção: eles fazem sentido dentro da narrativa criada. O melhor exemplo é o produtor Rez Gavron (Rafi Gavron), um dos grandes “vilões” do filme, uma alusão direta a experiências passadas pela própria Gaga em sua carreira (para mais detalhes, veja o excelente documentário “Five Foot Two” na Netflix). Sua parte musical extravasa, obviamente, nas canções do filme, mas também nos bastidores. Foi dela a ideia de gravar todas as cenas musicais ao vivo, com músicos tocando de verdade.

Nasce uma estrela Lady Gaga Bradley Cooper

Essas sequências musicais mostram um trabalho inventivo e eficiente de Cooper, “iludindo” o espectador de que sabe tocar guitarra (closes em mãos sem exibir o rosto, planos que o focam de costas etc.), por exemplo. A edição também merece elogios individuais por juntar estes segmentos em um corte final coeso. Apesar da aplicação formal idêntica à dos musicais, em que canções são tocadas na íntegra e suas letras e arranjos refletem o sentimento dos personagens (ou seja, história está sendo contada por meio de música), o filme não se enquadra “academicamente” no gênero porque a realidade não é “suspensa” durante estes números. “Nasce Uma Estrela” não interrompe sua história para ilustrar um sentimento com números musicais, mas os incorpora à sua narrativa linear.

Nasce uma estrela Lady Gaga Bradley Cooper

E é talvez na narrativa que o filme tenha o seu ponto mais frágil: além de contar um drama de ascensão e queda de forma bem clichê, o roteiro tem certa dificuldade em tomar um rumo e ir com ele até às últimas consequências. Os excessos de Jack não vão fundo o suficiente para entendermos o que acontece em sua mente. “Nasce Uma Estrela” poderia ser uma analogia para as duas faces do sucesso, a dificuldade de se conciliar carreira e vida particular ou até uma aventura trágica de uma protagonista incapaz de encontrar a plena felicidade, por mais que tente. Flerta com tudo isso, mas não se aprofunda em nenhum dos temas. Ao final, há uma certa dificuldade em assimilar o arco evolutivo de cada um e a mensagem que o filme quis passar.

Há muita virtude em “Nasce Uma Estrela”, mas quase nenhuma que o torne inesquecível.

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