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Nu

Nu

Matheus Fiore - 17 de agosto de 2017

Uma das máximas da construção de um filme é fazer com que toda cena tenha uma função. Nem toda cena precisa mudar o curso da obra, claro, mas toda cena precisa ter algo a dizer para seu espectador. Precisa desenvolver o personagem, a trama ou ambos. Uma cena não pode acontecer sem que sua existência mova o enredo para frente. Praticamente ignorando esta ideia seminal da construção fílmica, Nu, mais um projeto original Netflix, é uma comédia que não sabe o que quer em seus primeiros quinze minutos, não sabe como encerrar nos últimos quinze e não faz ideia do que fazer nos outros 60 que separam estes momentos.

Dirigido pelo americano Michael Tiddes (responsável pelo obtuso Inatividade Paranormal, de 2013), Nu conta a história de Rob (Marlon Wayans), um professor substituto que, prestes a se casar com a bem sucedida Megan (Regina Hall), ainda não tem um plano de vida e nem conquistou o afeto do sogro. Na véspera de seu casamento, Rob acaba bebendo mais do que o esperado e acorda em um elevador. O problema, porém, vem depois. Rob descobre, então, que está fadado a repetir o mesmo dia sequencialmente, sem ter ideia de como quebrar o looping temporal.

Com uma clara inspiração no adorado Feitiço do TempoNu simplesmente não consegue ser nada além de uma homenagem sem rumo. Apesar dos pesares, o ato inicial até consegue apresentar os personagens – mesmo que para isso dependa de diálogos expositivos do que os de qualquer péssima novela da Gloria Perez. O problema vem depois, quando o casamento está marcado e o protagonista finalmente acorda no elevador. Começando o “Feitiço Cover”, a obra passa a repetir ciclicamente o dia em que Rob acorda no elevador, sem nunca ter nenhum interesse em desenvolver o arco do personagem.

Vemos Rob acordando pelado e correndo desorientado pelas ruas da cidade. A direção de Tiddes até se esforça para criar a desorientação do personagem, com uma variação de enquadramentos que muda a todo momento o angulo pelo qual registra o protagonista. O problema é que a atuação de Wayans é… Bem, não é uma atuação. Talvez possa classificar como uma aula de como não atuar. Wayans talvez seja o Buster Keaton reverso. Suas caras e bocas são uma caricatura forçada e descontrolada que elevam o filme a um humor pastelão exacerbado e sem sentido. Da primeira cena no elevador em diante, a obra limita-se a apresentar o personagem nu ou vestido de forma engraçada entrando em variadas situações que o humilham de formas diferentes.

Não há o menor interesse da obra em ensinar uma lição para seu personagem. Faltando apenas vinte minutos para o fim da projeção, Rob ainda acha que espancar seus rivais e roubar suas roupas é a melhor escolha para chegar pronto no casamento. Não que haja problema em criar humor em cima de absurdos como esse, mas repetir a mesma postura burra do personagem por sessenta minutos, sem nunca demonstrar nenhum aprendizado, faz com que todo  o ato central de Nu funcione como recortes de esquetes sem objetivo. Para piorar, a direção de Tiddes adota uma linguagem televisiva que incomoda, limitando-se a trabalhar plano e contraplano em quase toda a projeção. Não há mise-en-scene, não há humor por sugestão ou visual, apenas piadinhas, caretas e diálogos tolos.

Nos momentos finais, a obra ainda se interessa por criar algum suspense acerca de situações que não despertam a curiosidade do público. O pior é que, quando reveladas, não  causam impacto algum, já que não há um trabalho de pista e recompensa por parte do roteiro. Tudo é inserido no exato momento em que é usado, tornando o filme ainda mais episódico. Espanta ainda a preguiça para ensinar alguma lição de moral para Rob, que, pasmem, só se torna um “bom companheiro” por aprender a repetir as palavras ditas por outras pessoas.

Nu é um filme tecnicamente fraco e linguisticamente pobre,  com um roteiro pífio e desinteressante e recheado de atuações caricatas e piadas que se repetem à exaustão – até bons momentos como a briga com o “ex” são martelados tantas vezes que tornam-se intragáveis. É como se, assim como o personagem, o espectador ficasse preso num loop e fosse obrigado a assistir a diferentes versões da mesma piada por 60 minutos. – que é apenas o recheio do desgostoso sanduíche cinematográfico que a obra é como um todo. Se o objetivo de Marlon Wayans é, em termos de atuação e timing cômico, consagrar-se como o Buster Keaton inverso, ele está no caminho certo.

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