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O Jardim das Aflições

O Jardim das Aflições

Matheus Fiore - 26 de setembro de 2017

A intenção do diretor Josias Teófilo com seu filme já fica clara nos momentos iniciais da projeção. Uma sequência de planos começa com um plano aéreo e joga o espectador para o cenário do protagonista, em Richmond, Virgínia. Após passear com a câmera pelas ruas da cidade, somos redirecionados ao jardim da casa do protagonista, para, então, adentrarmos, junto ao próprio personagem, sua biblioteca pessoal. Tal condução sugere que Jardim das Aflições se propõe a ser, por meio do formato documentário, uma viagem à psique do escritor Olavo de Carvalho, trazendo suas visões de mundo em questões existenciais, filosóficas e políticas.

Mesmo com um histórico de “brigas” contra a esquerda (tanto por parte de Olavo quanto por parte do diretor), é curioso como o filme em momento algum busca o conflito. Os ataques às ideias opostas ocorrem de maneira sugestiva, trazendo em certo momento até alguma elegância – como o bem enquadrado poster de Ronald Reagan com os dizeres “enfrente o socialismo” colado em uma porta. O Jardim das Aflições mostra-se mais interessado em apresentar a figura do escritor para o público, trazendo uma amálgama de suas ideias de forma sucinta.

A escolha de, com exceção de uma cena, nunca mostrar o entrevistador ou entregar ao público suas perguntas faz com que o documentário seja praticamente um registro dos pensamentos do escritor, e não uma entrevista ou conversa. Aqui, os planos longos e com poucos cortes que acompanham suas falas (inclusive no único momento em que vemos alguém perguntar algo ao Olavo) são importantes para conferir uma naturalidade a seu discurso. A manutenção de uma fotografia com poucas luzes artificiais também confere uma aura natural aos depoimentos, como se a equipe do longa apenas posicionasse a câmera no lugar certo e aguardasse o escritor proferir suas ideias.

É interessante ainda como Josias demonstra recursos para fazer com que Olavo e suas falas sejam o centro narrativo da obra. Quando o escritor fala sobre um exercício de seu curso livre de filosofia, por exemplo, a câmera acompanha as instruções de Olavo, seguindo rente à grama e encarando as copas das árvores, fazendo com que o filme e o espectador estejam imersos nas atividades comentadas. Cria-se, então, uma relação escolar, como se O Jardim das Aflições almejasse ser um elo entre o público e não só Olavo de Carvalho, mas seus cursos e obras literárias.

Ao longo da projeção, O Jardim das Aflições ganha um tom quase hagiográfico ao trazer, entre familiares e amigos do Olavo, o próprio diretor do filme sentado no sofá enquanto ouve as lições do protagonista. Como resultado, a obra torna-se cada vez mais professoral e menos documental, transformando-se em uma aula-guia sobre as ideias de mundo de Olavo. Além disso, aos poucos, “Jardim” perde o fio condutor da narrativa, tornando-se um longa disperso em suas ideias por preferir enaltecer o protagonista e seu intelecto a amarrar suas ideias.

Ainda é elogiável a escolha de Teófilo de moldar a forma do filme para acompanhar as ideias de Olavo. Quando o escritor comenta sobre a guerra civil americana e o período faroeste, por exemplo, é projetada a imagem de No Tempo das Diligências, de John Ford, um clássico do gênero. O mesmo acontece quando o protagonista cita filmes de Eisenstein, fazendo com que “Jardim” seja a manifestação imagética dos pensamentos do Olavo.

Uma pena que a obra não tenha a veia provocativa do próprio protagonista, mostrando-se um registro eficiente das ideologias do personagem, mas desinteressado em realmente discutir ou provocar discussões políticas ou filosóficas. A intenção clara é a veneração de uma figura, o que faz com que O Jardim das Aflições apenas “pregue para convertidos”. O caminhão de referências culturais que a obra despeja por meio das falas de Olavo de Carvalho acaba tornando o filme mais pretensioso do que culto. Pretensão, aliás, talvez seja o maior defeito de O Jardim das Aflições. Uma obra que a todo momento parece acreditar estar dando passos maiores do que realmente está, endeusando uma figura sem nunca justificar sua divindade.

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