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O Primeiro Homem

O Primeiro Homem

Gustavo Pereira - 10 de outubro de 2018

A jornada que levou o homem à Lua é, dentre outros, um símbolo da superação humana frente ao desconhecido. “O Primeiro Homem”, de Damien Chazelle, usa este símbolo de uma forma inesperada, dando a seu filme um ar muito mais intimista do que heroico, com um protagonista muito mais falho do que mítico. A leitura de Chazelle para Neil Armstrong, perfeitamente retratada numa atuação segura e contida de Ryan Gosling, é a do “homem simples”, que alcança a imortalidade na História da Humanidade quase que como efeito colateral de sua necessidade pessoal, individual, alheia à grandiosidade do projeto Apollo.

O Primeiro Homem First Man Damien Chazelle Ryan Gosling

“O Primeiro Homem” começa com uma cold open no tom desta proposta. Armstrong está testando um North American X-15 e, por muito pouco, não fica à deriva no espaço. As tomadas são feitas de dentro da aeronave, ao mesmo tempo dimensionando a clausura física e psicológica do personagem. A comunicação via rádio, falha e intermitente, também ressalta a principal tônica do protagonista ao longo do filme: Neil precisa resolver seus problemas sozinho, ou ficará para sempre à deriva de um mundo do qual ele cada vez mais se afasta.

Causa estranheza que Chazelle, até aqui com dois filmes altamente musicais, tenha escolhido usar apenas sons diegéticos nesta cena. Essa escolha se repete nas demais cenas de ação, criando uma constante intimista em momentos que diretores menos ambiciosos transformariam num chamado à aventura. “O Primeiro Homem” é muito mais contemplativo do que palpitante.

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Os caminhos da NASA e de Neil Armstrong se cruzam quando este, após a perda traumática da filha, se voluntaria para o Projeto Gemini, a etapa anterior à viagem espacial. Há paralelos implícitos entre as duas jornadas: se será quase impossível para a agência espacial americana colocar astronautas na Lua, o mesmo pode ser dito do piloto que tenta superar seu luto.

Ao cobrir um período de oito anos, “O Primeiro Homem” acaba por contar sua história num quase videoclipe. Mesmo assim, Chazelle consegue demonstrar a complexidade da empreitada: numa cena, a equipe é avisada que, na aula de Física daquele dia, estudariam “apenas o primeiro capítulo” de um livro. Contudo, este capítulo tem mais de 600 páginas. Sempre apostando nas tomadas dentro dos módulos de treinamento e das espaçonaves, com muitos planos em primeira pessoa, também é possível perceber o quão corajosos estes homens foram, pois desbravaram o espaço em verdadeiras banheiras voadoras. Inclusive, o acidente da Apollo I é retratado de uma forma impactante exatamente na transição do caos sonoro para o completo silêncio.

O Primeiro Homem First Man Damien Chazelle Ryan Gosling Claire Foy

Gosling dá vida a um Armstrong fechado, soturno e sem carisma. O rosto do sucesso da corrida espacial americana é exposto em toda a sua humanidade, isolando-se não apenas do planeta, mas das pessoas à sua volta. A relação com sua esposa Janet (Claire Foy) se torna cada vez mais difícil, sendo por meio dela que vemos o impacto desta aventura nas vidas das famílias dos astronautas, que nunca sabem se haverá um reencontro após a despedida.

O que torna “O Primeiro Homem” tão satisfatório não é sua conclusão, que foge completamente do triunfalismo clássico de filmes históricos. É a forma como amarra o “pequeno passo para um homem” ao “salto gigantesco para a Humanidade” sem desprestigiar nenhuma das histórias. Enquanto a sociedade americana estava fervilhando com o Vietnã, os movimentos pró-direitos civis e a Guerra Fria, um piloto de Ohio queria encontrar no espaço desconhecido a resposta para uma dor desconhecida. É muito bonito vê-lo encontrar.

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