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O Protetor 2

O Protetor 2

Gustavo Pereira - 13 de agosto de 2018

Histórias são, inevitavelmente, sobre mudança. “O Protetor 2”, continuação do filme de 2014 estrelado por Denzel Washington, não apresenta nenhuma. Ao menos, nenhuma mudança orgânica. O protagonista, por exemplo, termina a jornada como começou. Não há evolução, crescimento, nada. Com subtramas alheias ao tema central, o filme é um apanhado de  frases de autoajuda, unidas por sequências de ação triviais.

O Protetor 2

“Não vai me dar cinco estrelas?”

Para entender o conceito de “mudança” na ficção e porque ela é fundamental, é preciso conhecer outro elemento inerente a narrativas: o tema. O tema é uma ideia recorrente no roteiro. Todo filme aborda um ou mais temas. “Trama Fantasma” é sobre co-dependência emocional. “A Chegada“, sobre arbítrio e amor. “O Poderoso Chefão”, dito pelo próprio Francis Ford Coppola, trata de sucessão. O tema define os conflitos a serem transpostos pelo protagonista de uma história, a forma como ele equilibrará necessidades e desejos para resolver um problema. Dessa experiência, sairá uma pessoa diferente. Melhor ou pior, não importa. É o processo, o que vemos no filme, que conta.

O tema de “O Protetor 2”, assim como seu antecessor, é “dever”. O que uma pessoa deve fazer diante de uma injustiça? Como ela deve aproveitar suas habilidades? Ela deve lutar pelo que é certo, não importando as consequências? O tema, assim como as questões propostas, tem potencial para colocar o protagonista à prova. Mas isso não acontece porque, apesar do tema bem definido, a construção do ex-agente Robert McCall segue falha.

O Protetor 2

O filme também traz a atuação mais apagada do excelente Pedro Pascal desde sua explosão em “Game of Thrones”

McCall não tem falhas aparentes. Sua técnica de combate sempre o coloca em vantagem contra os oponentes, mesmo em maior número ou melhor armados. Repete-se aqui a estilização de superslow para demonstrar sua capacidade de analisar um ambiente antes de propriamente lutar. Isso impede o espectador de se importar com o protagonista, de temer pela sua vida, pois ele sempre sai vitorioso – e sem grandes ferimentos – dos combates. Também não há grande inventividade nas cenas de luta corpo-a-corpo, quase sempre “picotadas” com cortes muito rápidos e enquadramentos de câmera fechados.

O personagem de Denzel Washington tampouco tem lições a aprender ao longo de “O Protetor 2”. Na conclusão do filme, ele não está satisfeito por ter feito algo que considere grandioso, ou amargurado pela pouca diferença que seus atos tenham num contexto mais amplo (o melhor exemplo desta conclusão é a melancolia genial de Akira Kurosawa em “Os Sete Samurais”, quando o líder dos ronins conclui “novamente, fomos derrotados”). Se os eventos do filme nunca tivessem acontecido, não faria diferença a McCall. Mais uma vez, o espectador não consegue se importar com sua jornada, pois ela se prova irrelevante.

Existem filmes, contudo, em que o protagonista não muda ao longo da história, mas sim é o vetor da mudança de outros personagens. As subtramas são importantes para injetar dinamismo nos filmes e trabalhar variantes do tema, criando coesão na obra como um todo. Há claramente duas subtramas em “O Protetor 2”: Miles (Ashton Sanders), o jovem negro com amigos no mundo do crime e dons artísticos, e Sam (Orson Bean), um idoso judeu que busca reaver um quadro que alega ser de sua irmã, com quem perdeu contato após ambos terem sido enviados a campos de concentração.

O Protetor 2

Miles: “palco” para o “show” de McCall

A subtrama de Sam é gratuita e aleatória. Não há conexão à trama principal ou ao tema, servindo apenas de “respiro” entre atos. Já o arco de Miles reúne todos os elementos de uma subtrama clássica: desejo, episódio instigante, conflito, clímax e resolução. Mas é mal distribuído dentro da história, principalmente no afastamento entre o clímax e a resolução. E, como ele e todos os demais personagens do filme orbitam em torno de McCall, a resolução do conflito de Sam não vem dele. Ele, o antagonista e os aliados são ferramentas do protagonista. E esse protagonista, por ser detentor do único código moral aceito como correto pelo filme, com habilidades acima de todos os outros, nunca enfrenta um verdadeiro desafio.

O problema de “O Protetor 2” é se levar muito a sério. Ele utiliza todos os clichês de um gênero, em si, já desgastado. Mas trata cada revelação com a solenidade de um “007 Contra Goldfinger”. Assistir ao novo filme de Antoine Fuqua (diretor do ótimo “Dia de Treinamento”) é como ir a um restaurante conceituado. Porém, o chef lhe serve um ovo frito. Nada contra um ovo frito. Talvez a gema esteja um pouco mole demais, mas há tempero. Um pouco a mais de sal, mas ainda gostoso. Nada de excepcional, mas aceitável. O problema é a perspectiva.

Ovo frito não é iguaria, é acompanhamento de prato-feito.

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