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O Rei

O Rei

O problema é o roteiro

Ana Flavia Gerhardt - 3 de novembro de 2019

Apenas por ter roteirizado e dirigido o horripilante e espetacular “Reino Animal” (2010), o australiano David Michôd já merece atenção. Por isso, seu trabalho mais recente, a produção da Netflix “O Rei”, era aguardado com expectativa, ainda mais porque nele se reúnem alguns atores de primeira linha com quem Michôd já trabalhou outras vezes, como o sempre presente e multitarefas Joel Edgerton (com quem Michôd roteirizou “O Rei”), Robert Pattinson e Ben Mendehlson, mais o nome da hora Timothée Chalamet. Soma-se a esses elementos a temática de épico medieval, sempre de grande apelo. Entretanto, a junção de tantos fatores favoráveis nem sempre é garantia de um trabalho impecável. É esse o caso.

Filmes ambientados na Idade Média trazem a rigor a marca de serem narrativas eminentemente masculinas, e “O Rei” não foge à regra. As mulheres passam rapidamente pela tela, e, à exceção de uma, em nada contribuem além de sugerir que o protagonista, o Rei Henrique V da Inglaterra, é um macho desconstruído, que ouve as mulheres. Contudo, o personagem age de forma contraditória, ora demonstrando recusar o modelo de macheza e poder de seu tempo (eu aqui estou sendo generosa com os homens, porque em toda a história da humanidade o poder nas mãos de homens sempre foi despótico e violento), ora reagindo previsivelmente como um típico monarca quando sua autoridade e capacidade de ser Rei é questionada.

Tomothée Chalamet

Essa contradição aumenta quando um filme sobre a nobreza medieval se articula ao modelo canônico da narrativa de herói. Em “O Rei”, dentre os elementos dessa narrativa, apenas não se encontra o fato de que o herói desconhece sua genealogia, porque quando bebê foi retirado de seu berço nobre e criado por família humilde ou como bastardo. No início do filme, o jovem Henry sabe que é o herdeiro do trono da Inglaterra, mas, como o herói clássico, tem ojeriza ao poder por não concordar com a ambição e corrupção nos círculos decisórios. O resto é o de sempre: ele assume a contragosto seu lugar de direito e enfrenta diversos obstáculos para provar ao mundo que não é nobre apenas de berço, mas também de caráter.

Portanto, não será de admirar que muitos fãs de “Game Of Thrones” identificarão aspectos em comum entre o Rei Henry e o bastardo Jon Snow, outro personagem típico da narrativa clássica do herói. Assim como Snow, Henry parece infeliz e contrariado todo o tempo: antes da coroação, por ser herdeiro do Rei Henry IV, cujo caráter e governo execra; depois da morte do Rei e da inevitável coroação, por ter sido praticamente obrigado a aceitar o trono e realizar algumas ações que não se diferenciam muito das de seu pai, e a um alto custo pessoal. Como Snow, Henry também revela, diante da adversidade, grande capacidade de liderar um povo e nutrir sentimentos de amizade e compaixão mesmo tendo o poder quase absoluto em suas mãos.

Joel Edgerton

Além do padrão nada original em que se insere a trama de “O Rei”, a já mencionada incoerência nas atitudes do personagem é acrescida de um problema difícil de contornar. A inteligência manifestada por Henry ao recusar participar das ações belicistas do pai e reconhecer o pragmatismo fisiológico do primeiro escalão do governo inglês desaparece quando ele passa a acreditar facilmente naqueles de quem antes desconfiava. Esse problema é causado pela necessidade de produzir a complicação principal da trama, que aliás toma tempo demais e poderia ser mais um desafio do jovem Rei entre tantos outros que certamente poderiam ser criados. Mas Michôd e Edgerton, pelo que parece, resolveram economizar na inventividade e escolheram a pior saída. Que pena.

Nesse sentido, é decepcionante o roteiro de “O Rei”, por oferecer uma história que não difere das outras, e que será esquecida logo depois de assistirmos ao filme, já que não traz nada de singular e de marcante em termos de construção de personagens e de desenvolvimento de trama. Porém nem tudo é tão ruim no filme.

Lily-Rose Depp

Um aspecto bastante positivo é a linda fotografia de Adam Arkapaw, principalmente na primeira metade da projeção. As imagens dos interiores do castelo real são verdadeiras obras de arte, muito provavelmente inspiradas em gênios do passado. Em especial, o enquadramento do Rei Henry IV (Ben Mendehlson, de quem guardo especial memória por “Encarcerado”, que a Netflix infelizmente retirou de catálogo) em seu leito de morte poderia perfeitamente ter sido pintado por Rembrandt. A fotografia de Arkapaw e o design de produção de Fiona Crombie (indicada ao Oscar por “A Favorita”) nos mergulham no clima de época da história e correspondem ao imaginário que o próprio Cinema nos ajudou a construir sobre a Idade Média. E o toque de inspiração nos pintores clássicos faz “O Rei” ser visto com prazer por quem gosta de frequentar museus e relembrará alguns de seus pintores preferidos na tela de sua TV ou seu computador.

A segunda parte de “O Rei”, que já não traz tanto brilho, acentua os problemas de roteiro que apontei aqui. O excessivo tempo dedicado à campanha francesa e a construção irregular do protagonista se acompanham de uma direção confusa das cenas de batalha, que não contribuem para que reconheçamos a importância de uma vitória que ressalte a grandeza de Henry V para além da aclamação popular. A batalha final também lembra “Game of Thrones” – mais especificamente, a Batalha dos Bastardos, já que tanto Jon Snow quanto o Rei Henry V estão por algum tempo centralizados no quadro, vivenciando o desespero da batalha. Mas a perfeição desse evento épico e inesquecível da série não se repete em “O Rei”; Henry em nenhum momento parece estar prestes a morrer, nem a claustrofobia e o sufocamento sugeridos pela direção de Michôd provocam empatia.

Robert Pattinson

O que faz com que torçamos por Henry na maior parte do filme é a atuação de Timothée Chalamet, que assume a árdua tarefa de superar a aparência de beautiful boy e transmitir a energia e autoridade de um Rei que busca, mesmo a contragosto, ser lendário e elevar o moral inglês. Chalamet é bem sucedido em seu esforço para superar o problema do personagem criado pelos roteiristas, e ganha o espectador com uma atuação bastante concentrada e em um registro diferente da leveza que testemunhamos em “Me chame pelo seu nome”, seu trabalho mais conhecido. A seu redor, as atuações também estão à altura, à exceção de Robert Pattinson, que, inexplicavelmente exagerado e caricato, fez a felicidade de quem deplorou sua escolha para encarnar o novo Batman.

Lamentavelmente, a presença e o trabalho de atores que admiramos não livram “O Rei” de se incluir na categoria que muitos críticos de Cinema têm denominado “filme genérico”: aquele que opta por se encaixar num modelo convencional, sem qualquer elemento que o torne notável. Por ser fruto do trabalho de tanta gente talentosa, mas mesmo assim resultar decepcionante, “O Rei” é mais uma daquelas provas de que, em filmes cujo roteiro não busca sair do lugar comum, o todo, que às vezes pode ser mais do que a soma das partes, pode acabar sendo menos. Como eu já disse aqui, é uma pena mesmo.

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