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O Retorno de Ben

O Retorno de Ben

Drama sobre dependência química da Amazon Prime se sairia melhor se não fosse despolitizado

Ana Flavia Gerhardt - 30 de julho de 2019

Pode-se descrever “O Retorno de Ben”, disponível na Amazon Prime, como o filme em que Julia Roberts explica o que é amar desesperadamente alguém que pode se matar a qualquer momento. E de fato a atriz realiza essa tarefa de maneira excepcionalmente competente. Em companhia do sempre ótimo Lucas Hedges, filho de Peter Hedges, diretor e roteirista do filme, seu trabalho se torna bem mais fácil. Mas um bom filme não se faz apenas com boas interpretações, embora elas aqui se apoiem na tensão que se intensifica aos poucos e nos produz genuína angústia.

O argumento parece promissor: uma família aparentemente feliz recebe para o Natal o filho em recuperação de pendência química, o Ben do título (Hedges-filho), o que evidentemente fará emergirem conflitos que todos desejariam ignorar. A leveza das primeiras cenas na casa aconchegante traz junto algumas informações para cuja captura Hedges-pai aposta na inteligência do expectador. A mãe, chamada Holly (Julia Roberts), cuida de filhos de diferentes raças, o que sugere de pronto que seus filhos brancos, os mais velhos, são de seu primeiro casamento.

Mais adiante no filme, as causas do fracasso do primeiro casamento são apenas sugeridas, o que é mais uma escolha adequada de Hedges-pai. Outras informações semelhantes a essas são pinceladas ao longo da obra, ilustrando o entorno daquela família não apenas em termos do que ocorre na vizinhança, mas também em relação à história dentro do contexto social geral em que se enquadra. Ocorre que o fato de se dizer pouco sobre determinados pormenores que podem ser inferidos é algo louvável, mas mencionar apenas uma vez questões diretamente relacionadas ao tema principal do enredo pode enfraquecer a narrativa.

Ao generalizar a forma de incluir todas as informações que não dizem respeito à jornada de mãe e filho noite adentro enfrentando seus pavores mais obscuros, Peter Hedges trata tudo o mais como se fosse uma coisa só. E isso torna seu filme, que poderia ser especial, em mais um filme sobre vício em drogas. Muito bem interpretado, mas mais um entre muitos.

No entanto, ainda se trata de um filme que vale a pena ser assistido, em função de ir a fundo no elemento estruturador da narrativa, que é o sentimento que une mãe e filho. Holly quase perdeu Ben para as drogas, e ao longo do filme acaba descobrindo que a dependência química traz fatores complicadores, capazes de fazê-la se convencer de que de fato nada sabe sobre o filho. Sobre si mesma, a personagem progressivamente vai constatando que o sentimento de que, apenas por ser mãe, pode proporcionar a seu filho a plenitude da vida – a proteção, a felicidade, a paz -, não passa de uma grande ilusão. Os acontecimentos intensificam a necessidade de ambos serem honestos um com o outro, algo que é reiterado ao longo da projeção, sobretudo em função do aprofundamento das relações que o diretor propõe.

Julia Roberts está maravilhosa como a mulher que tenta parecer equilibrada diante dos problemas que a chegada de Ben provoca, mas que mal esconde seu pânico diante da bomba-relógio em que ele se transformou. Me agrada imensamente que Roberts tenha resolvido simplesmente ser uma atriz, deixando no passado a imagem de estrela, o que implica preocupar-se menos com a própria aparência e com os anos que se marcam em seu rosto, e voltar-se mais para a verdade da personagem, como faz em “O Retorno de Ben”.

Quase todo o tempo a câmera na mão de Peter Hedges repousa sobre o rosto da atriz. Até quando ela está fora de foco podemos entrever sua concentração em transmitir a apreensão e crescente agonia de Holly com a presença e as ações de Ben, nas veias que saltam na testa ou no maxilar contraído. Vale a pena o espectador ficar atento a pequenas nuances de expressão que significam importantes tomadas de consciência e perplexidades da personagem acerca de fatos e realidades que ignorava completamente, sinal de que Roberts também confia na sagacidade do espectador. Além disso, a atriz manifesta seu pensamento de formas variadas em termos de intensidade e reação – desde uma sutil mudança de olhar até a reação física violenta.

Lucas Hedges mostra mais uma vez que veio para ficar, e que sua belíssima atuação em “Manchester à beira-mar” não foi sorte de principiante. Recordando-nos o que já havia ensaiado com Russell Crowe em “Boy Erased”, o ator se envolve com fluidez num pax-de-deux com Roberts, interpretando o rapaz que propõe com sua mãe uma relação de absoluta sinceridade mas nenhuma confiança, pelo menos nas 24 horas em que ficarão juntos em família. Assim como Roberts, Hedges-filho comunica com espontaneidade seu recado: seu personagem sabe bem que o imenso amor que sente pela família não é capaz de obliterar o perigo gigantesco que representa para si mesmo e para os outros todo o tempo, não apenas pela dependência em si, mas também pelas relações criminosas que foi travando em função dela.

Tendo sido posta a competência dos atores em defender seus personagens, resta aquilo que sua atuação, mesmo excelente, não consegue alcançar: a escolha de Hedges-pai de tornar “O Retorno de Ben” uma narrativa intimista, mesmo sendo a dependência química um problema que envolve várias esferas sociais além da familiar: a da saúde pública, a racial e a de classe. Quanto a essa questão, a meu ver, há dois problemas, que despolitizam seu filme. O primeiro, como eu mencionei acima, é o de apenas pincelar a existência dessas esferas (as três são mencionadas cada qual uma vez ao longo do filme), o que sugere que o diretor se deu por satisfeito com a mera menção desses fatores. O segundo, decorrente do primeiro, é produzir um filme tratando de um problema complexo como se fosse um drama que dissesse respeito apenas a famílias em particular, o que está muito longe de ser a verdade.

Nesse sentido, salta aos olhos a diferença entre obras cinematográficas estadunidenses que tratam do vício em drogas quando se observa o recorte de raça e classe: quando se trata da dependência química de pessoas não-brancas e de classes sociais menos favorecidas, os fatores macrossociais são parte importante da narrativa. Quando se trata de pessoas brancas e de classe média para cima, eles sequer são citados – e confesso que até me surpreendi de Peter Hedges ter incluído algo sobre isso em seu filme. Isso é grave, quando se pensa na responsabilidade das classes abastadas em relação à violência do tráfico. Quanto a esse pormenor, “Traffic” (2000), de Steven Soderbergh, que articula com maestria as dimensões macro e microssociais do problema, ainda é, até hoje, um filme extremamente corajoso para os moldes estadunidenses. Por sua vez, “O Retorno de Ben” até se sai melhor que o indeciso “Querido menino”, mas se alia a este na despolitização.

O que ocorre é que não dá, por uma questão de verdade histórica, para ignorar a imensa capilaridade que o problema das drogas assumiu na geopolítica mundial e na estrutura das sociedades. O que é apenas mencionado no filme faz parte de um universo de fatos tão extenso, que, se for para apenas citar sua existência para não digam que não se falou deles, e restringir o assunto à esfera familiar, talvez tenha sido melhor nem mencioná-los. A pasteurização de “O Retorno de Ben”, porém, sobrevive a leituras superficiais em virtude do fato de que faz parte da cognição estadunidense acreditar que a causa de muitos problemas sociais é apenas individual, algo que já tratei quando discuti o programa “Quilos Mortais”, exibido pelo canal TLC.

Por conta da ideia de que, se você tem problemas com drogas, miséria, obesidade, falta de trabalho e moradia, a culpa é só sua, é possível apenas comover-se com o tormento de uma mãe tentando resgatar seu filho da violência do mundo. Se nos recusarmos a acreditar nisso, as atuações podem até nos fazer torcer pelos personagens, mas precisamos de muito mais do que a afirmação de que, se Ben fosse negro e pobre, ele estaria morto. Precisamos de mais do que a certeza, dada pelo padrão estadunidense de Cinema, de que tudo ao fim vai ficar bem. É melhor contar com isso por apenas 24 horas, mas, por via das dúvidas, recomenda-se nunca confiar.

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