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Onde Está Segunda?

Onde Está Segunda?

Mario Martins - 20 de agosto de 2017

A superpopulação já é uma realidade da humanidade desde a década de 70, quando o governo da China (país com maior população mundial) deu início à política do filho único, justificada com a alegação de que, para se oferecer educação e saúde de qualidade, seria necessário diminuir a taxa de natalidade, permitindo-se somente um filho por família, o que resultou em 85 milhões de filhos únicos. A medida teve fim em outubro de 2015,  por conta do alto crescimento no índice de idosos, que acarretou um grande pagamento de aposentadorias.

Onde está segunda? inicia-se no ano de 2043, mostrando dados assustadores com relação ao crescimento mundial da população e a medida governamental da chamada “Lei da Alocação Infantil”, implementada pela ativista política e renomada bióloga conservacionista Dra. Nicolette Cayman (vivida por Glenn Close). Todos os cidadãos são identificados com pulseiras controladas pela agência de alocação, e aqueles que forem identificados como segundos filhos são encaminhados para a hibernação.

Com a ajuda de um médico, Terrence Setman (Willem Dafoe) consegue manter consigo suas sete netas, nomeando-as com cada dia da semana.  Sendo todas idênticas, a atriz Noomi Rapace nos mostra aquele que talvez seja seu maior trabalho até aqui. São dadas uma personalidade e uma aparência específica para cada uma das irmãs, e a atriz sueca consegue interpretar todos os detalhes de forma majestosa. Todas são educadas e treinadas para ser uma mesma pessoa, chamada Karen Settman.

O filme vai aos poucos se destacando pelo ágil enredo e nos fazendo imaginar de que maneira algo dará errado; afinal, passam-se 30 anos, e cada uma foi ensinada a somente sair de casa nos dias que lhe dão nome. O primeiro desenrolar da trama se dá quando, como sugere o título do filme, uma delas desaparece. O fato de o filme se iniciar com uma ilegalidade e colocar as protagonistas nesse núcleo será o primeiro ato da excelente construção de tensão do longa, que faz com que o público torça o tempo inteiro para os ilegais e mergulhe intensamente na inquietude que eles passam diariamente.

As críticas políticas, sociais e filosóficas situadas num tempo futuro e a tecnologia como intervenção em alguns pontos da narrativa fazem a película muitas vezes se assemelhar à série da Netflix Black Mirror. Ambas as obras provam que ainda é possível possuir bons roteiros de ficção científica nos dias de hoje, apesar da má fase do gênero, tendo em vista os lançamentos mais recentes, como, por exemplo, Prometeus (2012), Ghost in the Shell (2017) e Alien: Covenant (2017). As reflexões começam nos minutos iniciais e continua mesmo após o término das duas horas de filme, sempre carregando peso metafórico.

O diretor Tommy Wirkola consegue controlar as cenas de ação magnificamente, remetendo às cenas de operação de Sicario: Terra de Ninguém (2015), comandado por Dennis Villeneuve. Wirkola vai somando, de forma gradativa, impacto visual, boas atuações, câmeras imóveis em cenas de movimento e personagens em ação e aflição facial. A trilha sonora de Christian Wibe, apesar de clichê, serve como molde para sustentar os sentimentos de cena, sejam eles raiva, melancolia, arrependimento, mágoa, remorso ou angústia. Todos esses aspectos geram um sentimento comum entre o espectador e as irmãs: a paranoia. A diegese permite que qualquer ato, inocente ou não, se torne uma ameaça maliciosa que pode colocar a vida em risco. Esse fenômeno se deve muitas vezes a uma sutil reação de Noomi, quando está atuando em qualquer um de seus sete papéis no filme. Seu olhar e suas conclusões, de acordo com o enredo, tornam-se verdade para nós, independentemente de sabermos a veracidade de tal cena ou momento.

O desenvolvimento dos núcleos é dinâmico e se expande cada vez mais ao longo de What Happened to Monday?. Somos constantemente apresentados a momentos que, além de completamente imprevisíveis, são sempre impactantes e muito bem construídos, esfarelando qualquer tipo de conclusão que tentemos tirar com relação ao final, que também vai se tornando tão inimaginável quanto.

Atrevo-me a dizer que o filme talvez seja o maior acerto cinematográfico do ano da Netflix, não devendo absolutamente nada à qualidade de Okja e nos dando a chance de ver novas caras no universo audiovisual, novas possibilidades e novos ritmos de desenvolvimento. A estréia veio em excelente hora, hidratando um pouco a escassez que a indústria vinha passando em termos de qualidade. Fica a torcida para que o filme não seja filho único e possibilite que 2017 traga excelentes lançamentos, não havendo a necessidade de que a netflix entre em hibernação, sem nenhuma outra obra marcante.

 

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