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Operação Fronteira

Operação Fronteira

Jornada desequilibrada

Wallace Andrioli - 14 de março de 2019

Os protagonistas de “Operação Fronteira” são ex-militares que viveram, em diferentes regiões do mundo, experiências extremas de violência. Logo na cena que abre o filme de J. C. Chandor, um deles, William ‘Ironhead’ Miller (Charlie Hunnam), explicita isso em palestra para homens e mulheres da ativa: “os efeitos de cometer extrema violência contra outros seres humanos são biológicos e fisiológicos. É o preço que se paga para ser um guerreiro”. Ao longo da história contada por Chandor e pelo corroteirista Mark Boal, Miller e seus quatro companheiros de ação se envolvem em situações que testam essas marcas carregadas por eles. No entanto, nem sempre “Operação Fronteira” lida com isso de forma a potencializar sua dramaticidade.

Em sua primeira hora, o filme é até bastante exitoso nesse sentido. A apresentação de Santiago ‘Pope’ Garcia (Oscar Isaac) enfrentando traficantes fortemente armados e convivendo com a crueldade da polícia local (que executa prisioneiros sumariamente) é muito boa. E toda a longa sequência na casa de Lorea (Reynaldo Gallegos), chefe do cartel perseguido por Pope, além de carregada de uma tensão muito bem conduzida por Chandor, leva os personagens a tomar decisões que se conectam diretamente a seu passado de violência.

No entanto, a partir do momento em que o quinteto tem sua fuga frustrada no meio do caminho e passa a ter de sobreviver num ambiente hostil, “Operação Fronteira” despenca monumentalmente. Chandor, que já fez um grande filme de um homem só lutando contra a natureza (“Até o Fim”), não consegue aqui produzir interesse pelo restante da jornada dos personagens, cuja convivência distante de uma ameaça externa mais imediata se revela enfadonha, desprovida de conflitos de fato relevantes.

Irrita também a necessidade que o filme tem de, nessa metade final, evitar as zonas cinzentas dos cinco sujeitos, pintando-os como essencialmente bons, sempre dispostos a abrir mão dos milhões de dólares que transportam sem grandes resistências. Na saída da casa de Lorea, Francisco ‘Catfish’ Morales (Pedro Pascal) executa alguns capangas do traficante que já se encontravam rendidos; pouco depois, Tom ‘Redfly’ Davis (Ben Affleck) mata friamente um grupo de camponeses, ao se sentir minimamente ameaçado. Essas ações não produzem nenhum efeito aparente nos dois, o que soa como desperdício dramático, considerando a fala inicial de Miller.

Mas o que mais chama atenção negativamente em “Operação Fronteira” é o péssimo uso que Chandor faz da geografia da narrativa. Intitulado originalmente “Tríplice Fronteira”, o filme nunca explora a dinâmica da região, sequer explica onde exatamente a história se desenrola. Seria na tríplice fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina? Então por que a presença de uma floresta (amazônica?), onde vive Lorea, e da Cordilheira dos Andes? Fica a impressão de uma representação genérica da América do Sul, perfeitamente sintonizada com o imaginário estadunidense sobre a região, baseado em estereótipos e exotismo.

É uma pena, considerando o cuidado com que o diretor construiu, em seus três filmes anteriores, os espaços altamente evocativos pelos quais trafegam os personagens: as salas de reuniões de uma grande empresa de investimentos de “Margin Call – O Dia Antes do Fim” (2011), o alto mar inóspito e ameaçador de “Até o Fim” (2013) e a Nova York oitentista, permeada por crimes violentos, de “O Ano Mais Violento” (2014). Portanto, apesar de não ser exatamente ruim, “Operação Fronteira” é facilmente o pior filme de Chandor.

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