Oppenheimer

Oppenheimer

Carência de classicismo

Wallace Andrioli - 7 de agosto de 2023

Em mais de um momento de Oppenheimer personagens apresentam argumentos baseados no pragmatismo para justificar a criação da bomba atômica pelo governo dos Estados Unidos. A necessidade de desenvolver o armamento antes dos nazistas, que poderiam utilizá-lo visando a um mal maior, e o seu potencial para encerrar de vez a Segunda Guerra Mundial, poupando um grande número de vidas diante da disposição japonesa a não se render de forma alguma, são alguns exemplos de falas nesse sentido. O filme de Christopher Nolan inclusive se agarra a essa lógica para defender seu protagonista, jamais contestando propriamente sua veracidade, mas o ponto central aqui é a tensão existente na narrativa entre o ideal e o possível. Robert Oppenheimer (Cillian Murphy) luta para manter seus valores enquanto transita por ambientes de poder e comanda um projeto que, se bem-sucedido, necessariamente levaria a milhares de mortes, mas ele entende que precisa ceder perante causas (a vitória na guerra) e limitações (políticas, militares) que escapam de seu controle.

Ao optar por uma cinebiografia histórica, Nolan, diretor de fortes marcas estilísticas, parecia fadado a esse dilema da concessão, afinal, poucos subgêneros são tão associados a um jeito formulaico de fazer cinema, geralmente mirando em premiações. Surpreende, portanto, que isso simplesmente não apareça em Oppenheimer. Esse é, em todos os sentidos possíveis, um filme de Christopher Nolan, marcado pela aceleração e fragmentação narrativas que definem seu estilo, construídas a partir de uma combinação entre cortes freqüentes, que repetidamente impossibilitam a existência de planos com uma unidade dramática própria, trilha sonora onipresente, reviravoltas e diálogos expositivos.

Por um lado, esse é, claro um aspecto admirável de Oppenheimer. Trata-se, afinal, de uma cinebiografia que escapa de caminhos óbvios e de um cineasta que adequa as expectativas do subgênero em questão ao seu estilo, e não o contrário. Nolan demarca assim a sobrevivência, ainda que excepcional, de um poder autoral em Hollywood. Definitivamente só ele faria esse filme dessa forma. No entanto, impressiona como o diretor é incapaz de imprimir qualquer plasticidade ao seu cinema, qualquer esboço de encenação que apresente de forma cristalina e criativa a interação entre atores, espaços e câmera. Oppenheimer, como provavelmente tudo que Nolan já dirigiu, é feio e mal decupado. Seu excesso de cortes, ao mesmo tempo que inviabiliza qualquer integralidade das cenas, não chega a produzir uma expressividade formal como acontece nos filmes de Tony Scott e Michael Bay. A mise-en-scène de Nolan é caótica no pior sentido do termo.

Enquanto cinebiografia histórica, Oppenheimer carece de um olhar mais classicista. Não no sentido de dever ser uma narrativa burocrática e convencional como Hollywood faz tantas vezes todos os anos – disso Nolan escapa muito bem, embaralhando temporalidades, demorando a revelar a real natureza de um determinado personagem e, com ela, o que interessa primordialmente ao filme –, mas no que se refere à encenação, à organização dos atores nos espaços das cenas, até para privilegiar o drama, as relações do protagonista com os muitos personagens que cruzam seu caminho e as atuações de seu ótimo elenco.

Nolan se mostra muito adepto do close-up, mas seu uso desse recurso é primário, muitas vezes compondo cenas em campo/contracampo totalmente submetidas aos diálogos. A passagem de um plano a outro serve apenas para mostrar quem está falando o quê, não há força dramática real nesses momentos, tampouco valorização do trabalho dos atores. O que importa realmente é o texto e a informação que ele carrega. Essa mise-en-scène fraca, subserviente a uma necessidade de aceleração constante visando a um efeito de complexidade narrativa (a partir do tema que está sendo tratado e de sua articulação intrincada) e de corrida contra o tempo, é o maior problema do cinema do diretor desde pelo menos Batman Begins (2005).

Nolan é muito bem-sucedido no estabelecimento de uma atmosfera de thriller político-científico apocalíptico para Oppenheimer, mas falha fragorosamente na tentativa de escrutinar o protagonista e aqueles que o cercam. Por exemplo: a lógica da rivalidade que ele tenta mobilizar a partir de certo ponto passa longe da vibração emocional da sua principal inspiração nesse sentido, Amadeus (1984). Falta ao diretor tato dramático e o pragmatismo para, reconhecendo isso, fazer concessões a um estilo mais clássico. Uma dupla como Steven Spielberg/ Tony Kushner, unindo direção elegante e texto denso, faria miséria com essa história.

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