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Os belos dias de Aranjuez

Os belos dias de Aranjuez

Gustavo Pereira - 29 de março de 2017

O alemão Wim Wenders (Paris, Texas e Asas do desejo) oferece ao expectador uma obra conceitual, mais voltada para o ato de produzir do que na história em si. Os belos dias de Aranjuez talvez peque pelo excesso de foco na forma e certo descaso com o conteúdo, mas é uma experiência. Transformando o público num observador privilegiado de um imenso diálogo – que ocupa o filme inteiro –, celebra a total falta de dinâmica narrativa em um mercado que se acostumou a colocar um plot twist a cada dois minutos para manter a plateia atenta.

A sequência inicial usa um recurso de ambientação comumente encontrado em filmes de diretores como Stanley Kubrick e Akira Kurosawa: uma canção (no caso, Perfect Day de Lou Reed) toca na íntegra, enquanto grandes planos gerais se sobrepõem com um movimento de câmera tão lento que ela parece estática. Com o avanço da música, os planos vão fechando, passando por conjunto, geral e, finalmente, fechado. Dessa forma, quando o filme realmente começa, já temos a exata noção de seu ritmo e de seu recorte. Uma casa nos arredores de Paris, totalmente isolada, “mas não fora da realidade”.

Um escritor tenta desenvolver o roteiro do diálogo entre um homem e uma mulher, numa bela tarde de verão. Conforme ele avança, o filme avança junto. O fato dos personagens não terem nomes indica que Aranjuez é um tratado filosófico sobre conceitos amplos. Aquela conversa poderia envolver qualquer casal – ou casal nenhum. É uma virtude, mas também um vício: em alguns momentos, parece que o autor fala pela boca dos personagens.

Existe uma constante relação de troca entre o casal e o escritor. Um indicativo de que, animados pela inspiração de seu criador, os personagens criam vida própria e completam os diálogos sozinhos. São pistas sutis, como o casal sentado no fundo do plano “esperando” enquanto o escritor pensa na próxima fala, ou um diálogo em off sobre a imagem do escritor, que nada escreve, mas visualiza a cena em sua mente.

Quanto aos diálogos, eles passam por temas como a infância, o amor e a sexualidade. O ambiente tranquilo permite que o casal debata sem a noção de interferência interna, quase uma suspensão do tempo-espaço. Wender coloca na tela exatas cinco pessoas, sendo que uma – o brilhante Nick Cave fazendo uma execução de Into My Arms – não “está” exatamente ali e outra marca exatamente o fim desse estado de suspensão. Seria possível debater sobre cada linha dita, mas não sem narrar o filme, o que fugiria da proposta de uma crítica.

Nick Cave: sua participação é o ponto alto de “Os belos dias de Aranjuez”

Talvez Wenders tenha ido longe demais e feito um filme “que não é para qualquer um”. Particularmente, abomino o termo pela sua arrogância inerente, como se apenas pessoas autoproclamadas inteligentes pudessem apreciar Cinema. Mas ele acaba sendo aplicável não pela complexidade de Aranjuez, mas pelo seu ritmo completamente diferente do cinema tradicional. Não é preciso ser Ph.D. para compreender uma obra metalinguística, mas é preciso estar disposto a absorvê-lo. O trabalho de fotografia em 3D é primoroso, separando todos os elementos em camadas e dando uma imensa profundidade aos quadros, praticamente jogando o expectador para dentro da projeção. Vá ao cinema disposto a entrar.

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