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Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar

Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar

Matheus Fiore - 24 de maio de 2017

Depois do enorme sucesso de A Maldição do Pérola Negra, em 2003, Piratas do Caribe se tornou uma franquia de sucesso comercial, tendo três continuações. Esse sucesso na bilheteria, porém, não se refletiu na recepção da crítica, e a série foi, aos poucos, perdendo seu fôlego. Após um pretensioso mas divertido segundo filme, O Baú da Morte, Jack Sparrow e suas aventuras flertaram com o tédio no bobo No Fim do Mundo. Em 2011, então, veio o que parecia ser o fim definitivo da saga pirata: Navegando em Águas Misteriosas. Nessa quarta parte, nem o elenco tinha interesse em regressar aos mares piratas, e o filme ficou desfalcado de Orlando Bloom e Keira Knightley. Chegamos, então, a 2017, e apostando no consagrado (e fantástico) Javier Bardem como novo vilão, a Disney tenta dar sangue novo à sua propriedade intelectual.

Quase duas décadas após os acontecimentos que levaram Will Turner (Bloom) e Elizabeth Swan (Knightley) a se isolarem do mundo em uma ilha, vemos o filho de Will, Henry Turner (Brenton Thwaites) viajando a procura de Jack Sparrow (Johnny Depp), visando recrutar o pirata para ajudá-lo a achar o tridente de Poseidon e, com ele, quebrar a maldição que aprisiona seu pai. Junta-se à equipe a astrônoma Carina Smyth (Kaya Scodelario), jovem que tenta desvendar os mistérios de um livro que ganhou do pai que a abandonou. Com o trio unido e acompanhado pela tripulação de Sparrow, o grupo parte, então, em busca do tridente. Simultaneamente, os heróis são perseguidos pelo amaldiçoado Salazar e sua tripulação fantasma, que busca vingar-se de Sparrow, que no passado causou sua morte.

Essa quinta parte da franquia claramente tenta ser um retorno às origens, tanto pelo maior peso humorístico como pela introdução do novo casal protagonista. Henry Turner e Carina Smyth ocupam aqui a mesma função que Will e Elizabeth ocupavam no original de 2003. Sparrow, então, tem sua participação reduzida, compartilhando o protagonismo com os dois jovens e se destacando mais nas cenas de humor do que na trama principal. A Disney tenta não só reintroduzir a franquia para um público mais jovem, como entrega praticamente um remake de A Maldição do Pérola NegraOutro elemento que distancia A Vingança de Salazar dos recentes Navegando em Águas Misteriosas No Fim do Mundo é a ausência de uma aura sombria envolvendo os personagens. Até o vilão possui muitas cenas de humor, diferente de Davy Jones, que tinha uma história melancólica.

Contra todas as expectativas, o filme funciona. A pegada mais descompromissada e focada apenas em entreter com sequências mirabolantes alternadas com passagens de humor de Sparrow, sempre totalmente alheio ao que acontece ao seu redor (lembrando bem a cena inicial de baby Groot em Guardiões da Galáxia Vol. 2) quebram o clima sombrio imposto nos dois filmes anteriores. A estrutura do texto e a montagem também beneficiam. O filme tem uma cena que introduz seu vilão para depois passar em torno de quarenta minutos apenas estabelecendo os personagens principais e suas tramas. Apesar dos longos 129 minutos, o filme tem um ritmo crescente, que espalha ao longo da metragem diferentes “reviravoltas” e alterna entre o humor despretensioso com as cenas de ação ou drama.

Como comédia o filme funciona. O humor físico de Johnny Depp, mesmo exagerado e beirando o ridículo, está dentro da proposta infanto-juvenil do filme. Já quando parte para o drama, perde muito. Por já ter muita história e personagens para contar, o filme não encontra tempo para explorar o passado de seus personagens. O resultado é que, antes de cada conflito, há uma cena desenvolvendo o cenário para tal conflito. Em outras palavras: quando personagem X começa a dizer que se arrepende por não ter feito A, você sabe que A vai atormentá-lo futuramente. O filme entrega seu plot a todo momento, não sabendo utilizar construções lentas nem o poder da sugestão. A ação também deixa a desejar. Apesar das já mencionadas cenas mirabolantes envolvendo assaltos a bancos e “sequestro de prédios”, serem engraçadas, não há nenhuma inventividade na escolha de planos e movimentos de câmera dos diretores Joachim Rønning e Espen Sandberg. O excesso de cortes quando há combates também não ajuda, e o excesso de planos fechados nos rostos dos personagens se mostra antiquado e pobre diante de tantas décadas de evolução da linguagem cinematográfica. Em contrapartida, algumas ideias trazidas pelo diretor de fotografia Paul Cameron enaltecem os personagens, principalmente quando o filme utiliza o dourado para esculpir a silhueta de Sparrow, como se o filme fosse sua redenção.

Há problemas também nos personagens. Alguns são até interessantes (como o novo comodoro e a bruxa), mas acabam sufocados e com participações pontuais em uma cena ou outra. Há alguns, inclusive, que são completamente ignorados ao longo da projeção e não possuem seus arcos concluídos. A preocupação da Disney em reinventar a franquia e preparar o terreno para vindouras continuações acaba prejudicando o desenvolvimento deste, que deveria ser o único foco, já que a franquia não vinha tendo boas sequências.  O personagem de Javier Bardem também é um desperdício. Tendo um dos mais talentosos atores da geração escalados, o filme sufoca sua atuação com uma tonelada de efeitos especiais. Pelo fato do roteiro também só se preocupar em desenvolver o vilão próximo ao ato final do filme (e o fazer em uma cena com flashbacks cômicos), não há nenhuma intensidade em suas falas ou peso em suas escolhas. Em suma: mais um vilão genérico, entupido de efeitos e que utiliza alguns elementos de Davy Jones, o antagonista dos filmes 2 e 3.

No meio de muitas repetições e passagens divertidas, A Vingança de Salazar se mostra um filme decente. Uma aventura recheada de bom humor e clichês, alguns agradáveis e outros apenas aceitáveis. Se explorasse melhor a mitologia do universo da saga e se preocupasse menos em construir sequências megalomaníacas e grandiosas como a do banco, até poderíamos dizer que, finalmente, há algo de novo em Piratas do Caribe. Não foi dessa vez. Com medo do iminente fracasso, a Disney mantém o filme na zona segura e entrega apenas o óbvio esperado da saga de Jack Sparrow: entretenimento de verão divertido, escapista e esquecível. Pelo menos é um longa honesto em sua proposta, né? Mas bem que está na hora de trazer alguma novidade, antes que os “remakes” percam fôlego antes mesmo de serem concebidos.

 

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