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Power Rangers

Power Rangers

Mario Martins - 22 de março de 2017

“Guilty pleasure” é um termo designado para tudo aquilo com o que temos prazer, mas sentimos culpa por gostar. É aquele CD que só toca no seu rádio, aquele artista que você fala mal na rua, mas ouve em casa e aquele filme que você gosta, mas não se esforça para elogiar. Como Power Rangers.

A Saban finalmente percebeu que os jovens dos anos 90, que assistiam a Fox Kids e Nickelodeon, estão na casa dos 20, quase 30 anos. Esses jovens agora são assalariados e muito fiéis às obras audiovisuais de sua época. Se as adaptações de desenhos como Dragon Ball e Avatar- A Lenda de Aang – curiosamente companheiros da série dos Power Rangers exibida na “TV Globinho” -foram um fracasso, dessa vez a adaptação de um seriado funciona.

Em seu primeiro trabalho voltado para o grande público, o diretor sul africano Dean Israelite nos traz uma nova face. Um tom mais fiel, maduro e cinematográfico, 22 anos depois da desastrosa tentativa de Bryan Spicer em Power Rangers: The Movie.

Para justificar que os zords, os famosos robôs gigantes dos Rangers, sejam inspirados em dinossauros, o filme começa na Era Cenozoica, quando os répteis gigantes reinavam na Terra. Somos apresentados a Zordon -que sempre foi visto somente como uma cabeça flutuante e mentor dos Rangers- dessa vez usando a armadura de ranger vermelho e padecendo sob Rita Repulsa, a famosa vilã apresentada na primeira versão e mais clássica do seriado de televisão.

A construção de personagens é sólida. Conhecemos a vida de cada um dos jovens e, apesar do protagonismo do Ranger Vermelho, todos têm igual importância narrativa e tempo de tela. Com uma clara referência a Clube dos Cinco, os novos guerreiros se conhecem na detenção escolar. O público é apresentado ao bullying, à rebeldia e à facilidade para criar amizades, elementos rotineiros em tal ambiente e fase da vida.

A diversidade é trabalhada de forma natural com relação ao elenco. Temos um quarterback fracassado após um acidente e em prisão domiciliar, um asiático que cuida de sua mãe doente em casa, um jovem negro que sofre do transtorno do espectro autista, uma ex-patricinha durona que possui um segredo e uma menina reclusa e solitária. Conforme rumores, a homossexualidade da Ranger Amarela não foi trabalhada. Uma escolha correta. Sua orientação sexual não é problematizada na tela e, portanto, não há a necessidade de trabalhá-la. Ela é o que é e todos estão bem com isso.

As atuações são fracas, mas carismáticas. O humor é geralmente moldado em volta do Ranger Azul (RJ Cyler) que tem piadas inteligentes, contextualizadas e agradáveis (bem diferente das insuportáveis gracinhas em Vingadores). O figurino é neutro, nos dando sempre uma peça de roupa da cor característica de cada um, quando não estão “morfados”.

Um dos pontos fracos do filme é a antagonista, vivida dessa vez por Elizabeth Banks (Jogos Vorazes), Rita Repulsa apresenta um visual totalmente diferente do visto pela primeira vez em 1993. Ela está mais elegante, usando trajes verdes que desejam remeter ao seu antigo posto de Ranger Verde, mas que mais se assemelha à Hera Venenosa em Batman e Robin, de Joel Schumacher. Com falas dignas de vilão de filme B da “Sessão da Tarde”, a personagem merecia uma maior atenção do diretor. Isso compromete o tom geral de Power Rangers, que se torna jocoso.

O visual dos Rangers funciona – apesar dos efeitos especiais fracos na hora de “morfar”- e traz uma estética parecida com a armadura do Homem de Ferro dos filmes da Marvel. A produção não esconde a semelhança dos zords com os autobots ou decepticons de Transformers, fazendo inclusive uma piada muito bem colocada explicitando tal referência.

Power Rangers deixa clara a ideia de que se trata de um filme de super-heróis. Se a ausência de capa e quadrinhos não te faz vê-los como heróis, esse filme fará. Além de se denominarem como super-heróis de forma até debochada, a trilha sonora é semelhante à de filmes do gênero. Afinal, o uso de músicas populares é visto em Guardiões da Galáxia e Esquadrão Suicida.O filme conta inclusive com uma faixa regravada da canção Stand By Me de John Lennon, usada de forma bem tocante.

Para a alegria dos fãs, a música-tema realmente toca durante o filme, mas é usada de forma extremamente fria e rápida. Tendo uma duração de pouquíssimos segundos, o “Go!Go! Power Rangers!” é jogado em cima da cena dos zords em ação, indo para o combate. Foi o suficiente para arrancar aplausos e comemoração de quem assistia, mas poderia ter sido melhor aproveitada. O compositor Brian Tyler vinha trazendo uma frequente guitarra durante toda a trilha do filme, o que podia ter sido trabalhado com uma evolução instrumental e elemento surpresa (como o riff de Junkie XL na aparição da Mulher Maravilha em Batman VSuperman). Além disso, uma versão rearranjada e orquestrada da mesma música é tocada somente depois da cena pós-créditos, o que oculta ao público o único acerto de Tyler como compositor.


Bryan Cranston (Breaking Bad) não tem muito espaço para mostrar serviço. Como se não bastasse o pouco tempo de tela, há cenas em que somente se ouve a voz de Zordon. Tal ausência monta um ambiente largado, onde a responsabilidade cai toda para os Rangers, que rapidamente aprendem a lutar e pilotar seus zords, tornando o filme corrido. O Alpha-5 não é cômico como na televisão, possui um uso exagerado de CGI e também não marca muita presença.

A batalha final quebra toda a expectativa gerada com a clássica música tema e possui um desfecho divertido, porém ruim e evitável.

Power Rangers traz seriedade, leveza, boas cenas e erros comuns a muitos filmes que desejam ser blockbusters. Essa nova versão traz personagens antigos e queridos pelo público, mas que haviam sido esquecidos com o passar do tempo. A cena pós-créditos é recheada de referências(sim, fiquem até o final), a Saban deixa claro que veio com a intenção de transformar os Rangers numa franquia. Se este filme for bem sucedido nas bilheterias, não duvide de que nasce um novo grupo de super-heróis para bater de frente com Marvel e DC.

Carregado de nostalgia, boas cenas e deslizes, o novo longa dos Rangers no fundo vale o ingresso. Em pleno mês de março, eis o Guilty Pleasure de 2017.

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