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Rainha de Copas

Rainha de Copas

O risco de subverter a relação opressor-oprimido

Ana Flavia Gerhardt - 30 de setembro de 2019

A primeira imagem de “Rainha de Copas” é a de pinheiros altos e esguios que a câmera da diretora dinamarquesa May el-Toukhy faz girarem no sentido horário, nos deixando meio tontos. Em instantes, essa tontura será substituída por uma ilusão de ótica causada pelo contraste entre os créditos iniciais, que se mantêm imóveis, e os pinheiros que giram ao fundo, o que dá a impressão de que os créditos estão girando no sentido contrário ao das árvores, mas eles não estão. Ao fim do filme, o espectador será capaz de reconhecer que tudo a que assistiu na tela ao longo de 127 minutos é um desdobramento dessa ilusão, a qual sugere antíteses que, em verdade, não passam de ilusões de antíteses: são duas faces de uma mesma moeda.

Essas pseudo-antíteses constituem o arcabouço de “Rainha de Copas” e se expandem a partir do microuniverso familiar em torno da protagonista Anna (Trine Dyrholm), formando círculos concêntricos. O mais remoto e amplo desses círculos surpreenderá o brasileiro que sofre de complexo de vira-latas e acredita que as sociedades da Europa Ocidental são a quintessência da civilização, onde todo mundo é branco, feliz, limpo, educado e empregado.

Ora, cineastas como os irmãos Dardenne e Hirokazu Kore-eda, entre outros, há pelo menos vinte anos têm escancarado nosso auto-engano sobre o Primeiro Mundo, deixando claro que, por exemplo, na rica Bélgica e no desenvolvido Japão tem gente pobre, sim. Contribuindo com o choque de realidade tupiniquim, “Rainha de Copas” chega para mostrar que, na idílica Dinamarca, assim como no Brasil, também existe injustiça. May el-Toukhy inicia seu filme já deixando isso claro, nos preparando para as outras contradições e injustiças que virão. Se quisermos continuar na ilusão, isso é por nossa própria conta.

Anna e marido

Os contrastes correm paralelos. A vida pública de Anne, advogada idealista e defensora de jovens em situação de violência e abuso de todos os tipos, se descortina enquanto conhecemos as pessoas que gravitam em torno de sua vida privada, tecida por May el-Toukhy com elementos que, a um só tempo, se assemelham e se diferem. As filhas gêmeas se vestem igual e ganham presentes iguais, mas não são univitelinas. Sua irmã cresceu junto com ela mas não alcançou projeção profissional análoga à sua. Seu protagonismo junto às causas que defende desvanece diante das presenças masculinas do marido e do sócio, que não raro assumem a palavra final nas discussões.

E própria Anne também personifica antíteses. O espectador terá reparado na presença algo recorrente de espelhos e vidros que, como as meninas gêmeas, repetem imagens que nunca são idênticas: ora aparecem distorcidas, ora duplicadas, ou, num significativo paroxismo, aparecem apenas no espelho, sem contraparte na realidade. Todas essas imagens mal duplicadas ou existentes apenas no reflexo simbolizam a distância entre o que Anna pensa estar fazendo e o que realmente faz.

Porém, a mais importante e ousada relação entre opostos operada por May el-Toukhy, em roteiro a quatro mãos com Maren Louise Käehne, é aquela que retira o homem do lugar de promotor do abuso e da injustiça sobre pessoas vulneráveis e coloca nele uma mulher, com toda a carga de hipocrisia e crueldade de que temos notícia no noticiário policial. E com uma agravante: a injustiça é praticada por quem conhece as formas de reduzir alguém vulnerável à condição de pária e usar o conhecimento sobre o sistema legal para manter sua vítima indefinidamente neste lugar, a ponto de restar a ela apenas uma única ação de autonomia e resistência diante do que sofreu.

Anna e amante

Não vou me surpreender se forem publicados artigos repudiando a escolha de May el-Toukhy por contar uma história de exploração, abuso e destruição psicológica e física perpetrada por uma mulher, muito embora os homens violentos também estejam presentes no filme, na forma dos casos assumidos por Anna com paixão e comprometimento. Porém, em alguma medida essa quebra de expectativa é capaz de tornar ainda mais impactante o desenrolar dos fatos e seus efeitos da maneira como vemos em “Rainha de Copas”, e assim fazer o público pensar de forma séria sobre o assédio sexual e moral e o abuso de pessoas vulneráveis.

Porque, de todo modo, a maior violência que podemos sofrer é aquela que parte de quem esperamos afeto, respeito e proteção, seja homem ou mulher. E essa violência aumenta quando o agressor é alguém que, por experiência e conhecimento, é capaz de antever cada passo de sua vítima e desidratar todas as suas ações e reações. E mais ainda: é capaz de usar a seu favor todos os discursos e todas as ações que em seu ofício profissional assume como objeto de repúdio.

Estando esse argumento solidamente sustentado, ainda assim May el-Toukhy  não se furta a enganar o espectador com imagens que intensificam ainda mais a reação aos atos de Anna no terço final do filme. O romance secreto entre a personagem e o enteado se desenrola no cálido verão dinamarquês – seus dias longos e ensolarados, seus bosques românticos, seus lagos tranquilos. O cenário em que os amantes se encontram nos encantam e nos fazem esquecer que se trata de algo que as leis do Ocidente no geral relatam como crime, do qual Anna tem total ciência. A química espontânea entre os personagens, construída sobre o bom trabalho de Dyrholm e Gustav Lindh, nos leva até a torcer por eles, de tão iludidos que ficamos, incapazes de enxergar o que está na frente do nosso nariz.

Anna e filhas

Me pergunto em que medida essa ilusão é causada pela nossa tendência a esconder de nós mesmos nossas próprias contradições. A história e as ações de Anna podem causar nojo e repulsa, mas são o extremo da desumanidade que existe em todos nós, a par de uma educação e uma civilidade que aprendemos durante a vida e que evita danos maiores, mas que eventualmente abre brechas para o que há de pior em nós e nos torna violentos justamente com quem devemos proteger. Por isso, “Rainha de Copas” é um convite para pensarmos sobre a humanidade que temos construído.

É o pai que espanca o filho para descarregar suas frustrações. O professor que dá nota baixa para se vingar do aluno que o interpelou. O motorista que fecha a motocicleta na estrada. O patrão que explora o empregado e lhe subtrai horas trabalhadas. O marido que humilha a mulher financeiramente  dependente. O médico que recusa atendimento a pacientes pobres. O herdeiro rico que atropela um ciclista e não presta socorro. O político que mantém o povo na ignorância para não ter sua corrupção denunciada. O governo moralista e hipócrita que defende a família heteronormativa e patriarcal, em cujo seio a quase totalidade dos abusos sexuais de crianças e mulheres acontece.

É, talvez, por construir uma obra que leva ao extremo as contradições humanas escancaradas no cotidiano, que May el-Toukhy não tece julgamentos externos para o que Anna, a Rainha de Copas, a comandante de seu pequeno reino de horrores, é capaz de fazer para manter seu estilo de vida. A diretora deixa isso para o espectador. Que julgue Anna quem é capaz de se olhar no espelho sem ver uma imagem distorcida. Ou, então, que a julgue quem é pelo menos capaz de se olhar no espelho. Ou, valendo aqui a máxima do cristianismo que sustenta a moralidade ocidental, que atire a primeira pedra quem nunca tiver pecado.

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