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Silêncio

Silêncio

Matheus Fiore - 6 de março de 2017

A fé sempre foi pilar de importantes obras que refletiram sobre a relação do ser humano com o extra-físico. Ignorando produtos abjetos e moralistas como Deus Não Está Morto, podemos citar a filmografia de Ingmar Bergman, que possui sua famosa Trilogia da Fé (mais conhecida como Trilogia do Silêncio), com Através de um Espelho (1961), Luz de Inverno (1963) e O Silêncio (1963), filmes que refletem sobre o silêncio de Deus diante do sofrimento humano.

Em Silêncio, remake “Scorsesiano” da obra de mesmo nome lançada em 1971 por Masahiro Shinoda (que já era baseada em um cultuado romance de 1966), acompanhamos Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Garupe (Adam Driver), dois padres jesuítas portugueses que decidem viajar ao Japão para descobrir o que aconteceu com seu mentor, o padre Cristóvão Ferreira (Liam Neeson), desaparecido há anos. Há apenas um problema: no século XVII, época em que o filme é ambientado, o cristianismo era proibido no Japão.

A fim de evitar que esta crítica se torne um pseudo-texto crítico que só enche linguiça com informações do IMDb e comenta a filmografia do consagrado Scorsese, direi apenas que este é, provavelmente, o mais ousado e pessoal filme do cineasta. Diferente de filmes como Os Bons Companheiros, que Martin foca mais em sua história, em Silêncio o diretor utiliza sua história apenas como guia pra proporcionar uma viagem transcendental e introspectiva, testando a fé de seus personagens e conduzindo seu público a discutir internamente os questionamentos levantados pelo roteiro.

O foco da narrativa é contrastar a fé de Sebastião e Francisco com as experiências dos padres pelas terras asiáticas. Enquanto chegam no Japão seguros e confiantes em suas crenças, aos poucos os personagens percebem como os japoneses que aderiram a fé cristã sofrem e possuem questionamentos pertinentes acerca do futuro dos que em Deus creem. Momentos em que alguns dos camponeses perguntam “quando poderão ir para o paraíso”, por exemplo, ressaltam a inocência dos personagens e começam a construir a dúvida na mente dos padres.

A ausência da trilha sonora em praticamente toda a metragem do filme acaba prejudicando o ritmo da narrativa, tornando boa parte de Silêncio seca e de difícil absorção. Há, porém, uma escolha que fortalece e justifica tal decisão: pontuar os sons da natureza, bem representados por vento, grama e até insetos, que ganham destaque, por exemplo, quando os padres tentam conversar com Deus, dando ênfase a situação de desamparo que os personagens se encontram (que poderia enfraquecer a fé deles).

Mas há ainda uma segunda e mais sutil função, que pode não ser tão óbvia, mas que ajuda a fortalecer a ambientação implacável do Japão anti-cristão a que somos apresentados. Em certo momento, o filme explica que, na mente oriental, é inconcebível o conceito extra-físico de Deus que os cristãos creem. Diferente da civilização ocidental, os orientais são muito mais próximos dos elementos naturais, e costumam utilizar alegorias místicas apenas para referenciar coisas reais. Tal relação é bem escancarada quando, por exemplo, nos é contado por diálogos que só foi possível explicar Deus para os japoneses quando um cristão comparou a figura com o Sol.

As atuações são imprescindíveis para o funcionamento da arrastada narrativa. Andrew Garfield entrega, em Sebastião, a grande atuação de sua carreira até aqui, principalmente por sua dedicada composição física, que se torna mais bruta conforme o personagem se vê mais encurralado diante da situação torturante imposta pelos japoneses. Outra grande atuação é a de Issey Ogata como Inoue, o “inquisidor” responsável pela caça dos propagadores do cristianismo. Por vermos o filme do ponto de vista jesuíta, obviamente as figuras japonesas são vistas como cruéis e implacáveis, características bem centradas pelo antagonista de Ogata, sempre sarcástico e, em certo ponto, até sádico, parecendo sentir prazer diante da dor dos cristãos.

Para tornar mais impactante as cenas de tortura, é inteligente a escolha de Scorsese de posicionar a câmera, diversas vezes, ao lado ou entre as vítimas da “ditadura budista”. Além disso, o diretor opta por, muitas vezes, filmar tais torturas de longe, de dentro de uma caverna, o que resulta em uma enorme aura negra que envolve os personagens, simbolizando a escuridão e ausência de amparo na desumana situação. Também importantes e simbólicos são os planos que, agressivamente, distanciam a câmera dos personagens desesperados, destacando a solidão e o isolamento deles.

Visando ressaltar a distância entre as crenças dos personagens, há belos planos que, por serem filmados da parte interna da “jaula” onde alguns personagens estão, mostram os personagens na área externa através do espaço entre as “barras” de madeira da jaula, que acabam sendo mais que um adereço para embelezar o plano, mas uma forma de materializar o muro dogmático que impede a aproximação dos cristãos e budistas no filme.

Em determinado momento, Scorsese abre caminho para a subjetividade e imerge sua obra definitivamente no tom transcendental que um filme sobre fé do ponto de vista cristão pede. Se antes, pelo retrato caricato e cruel dos japoneses, já havia dúvida se assistíamos ao filme sob a ótica de seu protagonista, o momento em que Sebastião vê Jesus em seu reflexo fortalece a possibilidade da multi-interpretação de Silêncio. E tal subjetividade é essencial para que a obra possa ser absorvida de diversas maneiras, seja por perda de sanidade ou pela força de sua fé, Sebastião resiste e persiste graças à sua crença.

No final, Silêncio de Scorsese vai além. Não é apenas o aparente e subjetivo silêncio de Deus diante do sofrimento de seus fiéis, mas o silêncio que serve como caminho de sobrevivência para os próprios personagens. Em seu trabalho mais pessoal, Martin Scorsese entrega uma obra de difícil absorção, que dá ao público muitas perguntas e poucas respostas sobre fé, culpa, perdão e aceitação, mas que por sua inquestionável qualidade estética e narrativa, merece ser contemplada.

Um filme que incomoda, mas não por erro ou defeito de seu resultado final, e sim por ser capaz de inserir seu espectador na situação de seus protagonistas, que é, afinal, desagradável. A arte não tem como obrigação apenas trazer sorrisos e lágrimas emocionadas a seu espectador, mas também faze-lo questionar, sentir nojo, medo, apreensão, insegurança e qualquer outro sentimento que seja coerente com sua narrativa, e Scorsese explora tais sentimentos com maestria em Silêncio. Resta ao público comprar a ideia e embarcar na viagem.

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