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Ted Bundy: a Irresistível Face do Mal

Ted Bundy: a Irresistível Face do Mal

Um retrato estranhamente romântico de quem foi Ted Bundy

Marina Pais - 27 de julho de 2019

Filmes sobre serial killers são naturalmente assustadores. Não é coincidência que a maior parte deles seja classificada como terror ou suspense: assassinatos nos lembram de quão fragilmente mortais nós somos, quão cruel pode ser nosso fim. Quando se trata de uma biografia, tudo se torna ainda mais chocante, já que o que estamos vendo de fato aconteceu, todas aquelas pessoas existiram. Esse tema tem tanta força que a mera sugestão de que a violência foi real pode ser o suficiente para fazer o espectador checar se fechou a porta de casa – a versão de 1974 de o “Massacre da Serra Elétrica” e o primeiro “A Bruxa de Blair”são bons exemplos disso.

Por isso, é incrível que um filme sobre Ted Bundy, um dos assassinos mais famosos da história, consiga ser tão insípido. O filme nunca consegue ser um suspense, muito menos um terror. Aliás, o seu tom oscila entre tantos gêneros diferentes que é difícil classificá-lo; às vezes parece uma biografia, outras uma (estranha) comédia romântica, ou mesmo um drama de tribunal. Não é que um filme não possa ser tudo isso ao mesmo tempo. É só que, para oscilar entre gêneros, ele deve, primeiro, conseguir ser cada um desses gêneros.

Ted Bundy e Elizabeth

Isso vai além de simplesmente representar cenas que definiriam uma ou outra classificação. Uma comédia romântica não se define pura e simplesmente por cenas de um casal apaixonado, é necessário que o espectador sinta algo pelo casal, torça pelo romance deles ou tema pelo seu destino. De igual forma, para um suspense, é preciso que se crie tensão, o medo de uma ameaça que pareça real e iminente.

Nada disso acontece em “A Irresistível Face do Mal”. O filme oscila tanto que impede o desenvolvimento de qualquer coisa. As alterações de cronologia funcionam mais como interrupções que qualquer outra coisa, e a montagem é tão frenética que, no momento em que estamos começando a sentir as emoções de uma determinada cena, o filme corta para outra de significado completamente diferente.

Exemplifico: o longa se inicia com duas cenas entrecortadas, a de Elizabeth Kloepfer (Lily Collins) prestes a conversar com Bundy (Zac Efron) no presídio, em que os dois estão usando roupas de mesma cor, mas há uma tela de vidro que os separa; e a do seu primeiro encontro, com uma música alegre tocando e um zoom in quando eles dão o primeiro beijo. Em tese, esse contraste funcionaria para demonstrar o afastamento entre os dois, e fazer o espectador querer descobrir como eles foram do ponto A (aproximação e amor) ao B (distância e prisão).

O problema? O filme é sobre um serial killer muitíssimo famoso. É muito difícil despertar qualquer afeição, interesse ou curiosidade pela vida romântica de alguém conhecido por assassinar dezenas de pessoas. Essa escolha de cronologia poderia funcionar em um filme sobre personagens anônimos, cujo contexto fosse desconhecido para o espectador. No caso de Ted e Elizabeth, o motivo para o afastamento é óbvio: ele era um psicopata, assassinou diversas mulheres e mantinha com ela um relacionamento abusivo.

Ted Bundy e Elizabeth

Ainda sobre a relação dos dois, há pontos muito importantes que são completamente omitidos. O filme não faz referências aos abusos de Bundy contra a própria Kloepfer, muito menos ao seu abuso do álcool (vício apresentado apenas em relação a ela). Em tese, a narrativa toma como ponto de partida o livro escrito pela Elizabeth Kloepfer real, sobre a experiência dela enquanto companheira do assassino. No entanto, até mesmo essa definição é assassinada pela completa falta de coerência da obra: o foco do filme, especialmente a partir da segunda metade, está inegavelmente em Ted Bundy.

A personagem de Elizabeth se torna tão incidental que, a partir do momento em que Ted começa a enfrentar as acusações legais, a tristeza dela é apresentada tão somente por cenas em que ela bebe, fuma ou fala que está com dor de cabeça (ou tudo isso ao mesmo tempo). A falta de capacidade do roteiro em criar diálogos significativos é tão severa que o filme chega a incluir um personagem fictício para ser o namorado de Elizabeth, e ajudá-la a ultrapassar esse período em que ela está basicamente prostrada, sem oferecer nenhum material novo à narrativa.

Ted Bundy no tribunal

Essa falta de coerência com a ideia do filme não é o único problema do foco estar em Ted Bundy. O filme tem 1h50min, por óbvio, não poderia mostrar toda a história do criminoso. No entanto, os recortes temporais escolhidos são, no mínimo, questionáveis. O filme passa boa parte do tempo tentando nos convencer de que Bundy era inocente: veja, não se trata de refletir o espírito da época, quando ele angariou muito apoio, mas de fato tentar suscitar alguma dúvida no telespectador. Ora, não há dúvida alguma: ele foi condenado e confessou boa parte dos seus crimes – detalhe que, convenientemente, também é praticamente suprimido, com exceção de uma cena que dura menos de 30 segundos.

Esse delírio de se querer aludir a uma dúvida sobre a identidade do perpetrador se traduz em uma das revelações finais do filme. Uma das últimas cenas é a de Bundy finalmente confessando para Elizabeth que foi o responsável por um dos assassinatos. Francamente, não dá nem para dizer que isso é spoiler: Ted Bundy ser um assassino é a premissa do filme, e não uma revelação de última hora. Some-se isso à completa falta de desenvolvimento da personagem de Elizabeth e essa confissão é tão insípida quanto a sua descrição faz parecer.

O problema dessa falta de impacto das “revelações” não está nos atores, mas sim no material fornecido. Zac Efron tem uma atuação convincente, mas não é dado espaço para trabalhar a crueldade de Bundy. Acreditem se quiser, a interpretação tenta focar muito mais em um lado carismático de Bundy do que na sua maldade. Tudo bem, o fato de ele ser charmoso e galanteador inclusive constituiu o método para muito dos seus crimes, mas se o título original o descreve como ‘perverso’, ‘malvado’ e ‘vil’, a gente imagina que alguma parte disso estaria no filme.

Ted Bundy e Elizabeth

Lily Collins, como já dito, teve sua tristeza reduzida a uma caricatura. De novo: era para a história ser contada a partir da perspectiva dela, então o ápice da sua trajetória deveria ser a sua tristeza, frustração ou seja lá qual for a palavra que define a o sentimento de descobrir estar envolvida com um serial killer. No entanto, a narrativa é tão sem coerência que nem isso é bem delineado: salvo uma revelação final, não dá para dizer que a gente aprende qualquer coisa sobre o que ela viveu.

Até mesmo a trilha sonora, que poderia ajudar a conduzir as emoções, é completamente esterilizada ou inapropriada: a trilha original é de um piano tão insosso que parece ter sido fruto de uma decisão de última hora. As músicas escolhidas, quase todas sobre amor, não combinam com um filme sobre um cara responsável pela morte de dezenas de mulheres e que mantinha um relacionamento abusivo com a “protagonista”: essa é a trilha que toca quando Bundy foge da cadeia pela primeira vez, por exemplo.

A coisa mais chocante de “A Irresistível Face do Mal” é como um filme sobre um relacionamento com um serial killer consegue ser tão estéril. Isso é fruto da falta de definição da narrativa: o ângulo sob o qual a história seria contada não foi respeitado, há uma falta de coerência com os eventos reais (Bundy realmente era um ótimo namorado? Ele fugia para reencontrar o seu amor?), a cronologia não decide se terá foco no relacionamento ou na insistência pela inocência de Bundy, a montagem é tão frenética que não dá tempo para nenhuma cena se desenvolver. É surpreendente que um filme tão lavado tenha escolhido colocar a maldade no título.

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