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The Lighthouse

The Lighthouse

O segundo longa de Eggers consolida a sua aptidão para construir narrativas igualmente assustadoras e atraentes

Marina Pais - 17 de junho de 2019

“The Lighthouse” é o segundo longa de Robert Eggers (do ótimo “A Bruxa”). O roteiro, inspirado em um incidente real, foi escrito por ele em parceria com seu irmão, Max Eggers. No entanto, poderia muito bem ser uma adaptação de um conto escrito por Hemingway e Lovecraft. É uma história sobrenatural, um retrato da masculinidade e suas prisões, uma escada que descende à loucura e uma reconstituição da disputa entre o Homem e a Divindade. O seu maior mérito é conseguir ser tudo isso sem nunca perder a coerência e, mais importante: sem nunca deixar de assustar.

Isso acontece porque Eggers sabe utilizar as ferramentas à sua disposição. Não há outra forma de colocar: “The Lighthouse” é uma ótima ilustração da experiência obtida quando os elementos fílmicos funcionam em harmonia. O filme se assemelha muito mais a um pesadelo que a uma ideia posta em prática, e é essa dissociação entre o que ele de fato é (imagens projetadas em sequência em uma tela branca) e a impressão que ele gera no espectador (assombro por situações muitíssimo distantes) que dá tanto valor à experiência.

A construção do Farol

Essa sintonia entre o que a obra quer transmitir e o que é sentido por quem a assiste não é fruto do acaso. Há razões para o sucesso de “The Lighthouse”, e uma delas é algo dado como garantido pela maioria dos realizadores: a razão de aspecto. A projeção é exibida em um formato quase quadrado, o que emula a claustrofobia da ambientação do filme, que se passa em um farol (quem diria!). Os personagens estão literalmente enclausurados. O formato também serve para nos distanciar temporalmente da nossa realidade, já que o que estamos vendo não está no tão familiar retângulo. Na verdade, nos primórdios do Cinema a tela era de fato quadrada, o que ajuda a reforçar o efeito temporal dessa escolha: a história que acompanhamos pertence ao passado.

A fotografia em preto e branco também contribui para a harmonia da narrativa. A ausência de colorido traz um tom de literatura sobrenatural, e dá a impressão de que estamos assistindo ao desenrolar de eventos descritos em um livro amarelado, achado em um porão de uma casa qualquer. Além disso, o preto e branco gera composições minimalistas que refletem o isolamento dos protagonistas. Não há cores ou outras fontes de distração; a ilha é habitada pelo Farol, os homens são só visitantes.

Esse mesmo cuidado com a ambientação está presente na música: a trilha, feita pelo músico canadense Mark Korven, é majoritariamente composta por instrumentos de sopro, que muitas vezes lembram buzinas ou apitos. Isso é representativo da subjetividade que conduz à obra, que não é contada por um narrador onisciente, mas pela perspectiva (naturalmente enviesada) de um dos seus protagonistas. Considerando que eles estão isolados em uma ilha, faz sentido que uma trilha tão subjetiva seja marcada por um som que remeta ao anúncio de um navio chegando.

Os Faroleiros

No fim das contas, o Farol perde o protagonismo para as performances de Robert Pattinson e Willem Dafoe. O primeiro, interpretando o aprendiz de faroleiro Ephraim Winslow, concebe uma figura reprimida que demonstra as suas emoções fisicamente porque não tem o hábito de se expressar de outra forma. Isso fica muito bem evidenciado no seu principal monólogo, quando a sua voz oscila entre tons agudos e graves, demonstrando a sua inexperiência com conflitos tão vocais.

Já o segundo, vivendo o faroleiro Thomas Wake, traz um contraponto à fisicalidade de Pattinson com uma atuação verborrágica, marcada por um dialeto que já nasceu arcaico. Se Eggers havia provado a sua habilidade para escrever diálogos em A Bruxa, repleto de ‘thou, thee, thy e thyne’, aqui essa aptidão atinge o ápice. As falas de Wake são cheias de jargões marítimos, o que nos convence de que estamos de fato ouvindo um velho bucaneiro, e não um ator que já interpretou o Duende Verde. Não há dúvidas de que Dafoe está à altura do diálogo: todas as suas palavras são pronunciadas como se ele estivesse em um navio, com um cachimbo na boca, murmurando ordens à tripulação.

Além dos seus méritos individuais, a relação entre os dois atores também carrega muita força. De uma forma similar a “O Inquilino”, de Polanski, aqui há vários momentos em que a distinção entre paranoia e realidade parece nebulosa. Apesar de estarmos restritos à perspectiva de Winslow (Pattinson), a caricaturalidade da performance de Dafoe nos faz questionar se há alguma distorção subjetiva do nosso observador ou se o surrealismo está de fato à sua volta. A trilha sonora acolhe essa subjetividade: quando Winslow realiza alguma tarefa extenuante o som que acompanha a cena é incômodo, estridente, o que funciona bem como uma forma de transmitir a sensação de desgaste daquela atividade ao espectador e reforçar nosso condicionamento à sua perspectiva. 

A mitologia do Farol

Mas, além das subjetividades, há um componente universal na história de “The Lighthouse”. Como essa crítica não tem spoilers, esse ponto não será discutido em detalhes. Para os fins desse texto, é suficiente saber que o realizador deixa clara a sua alusão a um mito grego (que, por óbvio, não será especificado). A disputa de poder entre Winslow e Wake, o Professor e o Aprendiz, não é exclusiva deles, mas própria da condição humana, e já reproduzida em incontáveis obras. E aí entra outro dos grandes méritos do filme: a capacidade de dar novo fôlego a uma história que já foi muito recontada.

Esse triunfo não deve ser subestimado, especialmente quando consideramos que alegorias podem ser desafiadoras. Se incessantemente explicadas, perdem a força e subestimam o espectador (Mãe”, de Aronofski, é um bom exemplo dessa sina). Por outro lado, quando bem utilizadas oferecem um valor adicional à obra, que se traduz na vontade de revisitá-la para buscar as referências que passaram despercebidas. Esse é o caso de “The Lighthouse”. O seu desfecho representa o encerramento do ciclo daqueles personagens e, ao mesmo tempo, a abertura de outras interpretações possíveis sobre os acontecimentos no Farol.

Nesse sentido, é sintomático que um filme tão carregado de elementos da mitologia grega seja protagonizado por personagens presos ao passado. Seja por arrependimento ou nostalgia, tanto Winslow quanto Wake são atormentados por demônios pretéritos. A ação se situa em um momento do tempo em que os personagens estão fisicamente longe das suas lembranças mas, paradoxalmente, presos com nada além delas em uma pedra no meio do mar. Uma pedra com uma torre que emite luz. É natural que os dois procurem refúgio em um lugar iluminado.

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