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Thunder Road

Thunder Road

Entre a comédia e a tragédia de uma relação paterna desencontrada.

Gabriel Carvalho - 11 de fevereiro de 2019

Jim Cummings assina a direção, o roteiro e ainda é o protagonista de “Thunder Road”. Ou seja, a grandiosidade em ocupar tantas cadeiras mostra, em primeira instância, que esse é um projeto muito pessoal para o artista, justamente em sua estreia cinematográfica. E essa pessoalidade conversa com o coração que o longa-metragem possui, sendo uma expansão de um elogiado curta anterior seu, de mesmo nome. A outra versão chegou a ser premiada no Festival de Sundance, em 2016, enquanto essa precisou de financiamento coletivo para tornar-se realidade. O cineasta, portanto, ultrapassa o velório da mãe de seu personagem principal, primeiro momento da obra, e encontra o intrínseco desse ser humano, agora por conta própria e ainda mais só. Cummings consegue usufruir de uma verdade agridoce, que é importunada apenas nos seus trâmites derradeiros.

Perante a perda, a ordem é mantida por um brevíssimo tempo pelo homem que agora é órfão. Durante esse primeiro plano-sequência, o competente texto, que passou por poucas modificações, permanece excelente. O mais importante dessa cena, porém, é a performance novamente verdadeira de Cummings, interpretando o pai e policial Jim Arnaud. O ator caminha entre um controle mentiroso, marcado pela insígnia em seu peito que nada representa, e um descontrole muito impulsivo para os sentimentos do seu personagem, à flor da pele. Sua mãe gostava da música “Thunder Road”, de Bruce Springsteen, então qual a melhor maneira de homenageá-la, senão performando a canção? As caretas dolorosas acabam sendo vistas como cômicas e essa é a intenção do cineasta, apesar do entristecimento paralelamente continuar. O propósito é retomado pela maneira como certas sequências são encerradas, como é o caso aqui.

Uma passagem, em que o policial comenta sobre se arrepender de cada insulto proferido contra a sua mãe, e por isso pedir para a sua filha não tratá-lo da mesma maneira, para que não se arrependa também, é marcante. Do que adianta, no entanto, as boas intenções se, quando a cena termina, a garota cruza os braços para o pai, envergonhada da cena causada pelo homem? Eis que o choro do protagonista evoca um significado ainda maior e, quando o personagem chama exaustivamente a sua garota para confortá-lo, a comédia some abruptamente.

Mesmo assim, Cummings, seguindo por um novo caminho ao original, investe em cores menos pesadas, usadas para realçar o caráter mais inofensivo do segmento. Esse é o exemplar de um homem fardado que está emocionadamente enlutado pela morte de sua mãe e não o de um ser psicologicamente desequilibrado que decide dançar exoticamente no meio de um velório. Além do mais, em um plano primário acerca desse conjunto inicial, vermos a cena dessa maneira negativa, que enaltece o caráter desequilibrado de Jim, é um pouco injusto para o tanto de sentimento que embute em seu monólogo. “Normal” é uma palavra constantemente repetida para o personagem, consequentemente pedindo desculpas pela sua performance.

Contudo, certos acontecimentos posteriores mostrarão mais exemplos de um comportamento passivo-agressivo extremamente problemático. A maneira orgânica em como o ator expõe os seus pensamentos, majoritariamente tornando-se carismático no processo, ora ou outra culmina em um equívoco, uma sentença no lugar errado, que sabemos que está no lugar errado. As outras pessoas, porém, não sabem, pois não são espectadores de cinema. Consequentemente, alguns casos ganham atmosfera de grande desconfiança, como é o caso da conversa de Arnaud com o juiz, em que o ameaça indiscriminadamente, ou a vez que comenta sobre sua esposa ser esmagada por um trem, gratuitamente.

O cineasta conquista a empatia dos seus espectadores por um caminho pautado pela honestidade na inerência de que contradições existirão. Em relação ao protagonista, o seu medo em acabar fracassando é pungente. Mas Cummings não recorre a uma manipulação hedionda de sentimentos. Opta-se, entretanto, por uma contraposição dos tons colocados em cenas como a primeira, tão entristecidas quanto engraçadas, e em cenas como a da briga com seu parceiro de profissão, tão inofensivas quanto perigosas. “Thunder Road” continua possibilitando coisas ambíguas emergirem durante a sua curta duração, principalmente por conta de como trabalha uma busca incessante por reencontro que, recorrentemente, é concluída em mais desencontro. Arnaud quer ser um pai que sua filha ame mais. Arnaud quer continuar sendo policial.

Surge, da primeira sequência em diante, um misto de comédia com tragédia que impede o melodrama barato de tornar-se realidade, no entanto, uma indagação mais sincera acerca do martírio de uma pessoa que pouquíssimo tem. Se o tom continua sendo muito claro, o arco de Jim sofre profundamente com uma proposta de divórcio que também implica na guarda única da filha do personagem, que é a problemática central à narrativa. Antes, “Thunder Road” construía um filme que era basicamente um prenúncio do olhar futuro de filhos para os pais, arrependidos de certos equívocos passados. Depois, onde que reside o significado da afirmação: “eu quero que minha filha tenha sua mãe”?

São genuínas as tentativas do policial em se aproximar de Crystal. E mesmo as mais enciumadas, que não são corretas, porém, acontecem na nossa realidade, ajudam na criação desse sentimento que possui rachaduras e continuará possuindo, em eterna metamorfose. Por exemplo, uma cena mostra o desconforto do pai em ver a garota segurando a mão de um outro menino. Mas apenas pressa é sugestionada quando as resoluções para os confrontos são antagônicas demais, tornando impossível uma conclusão conciliadora, seguindo um certo clímax tenebroso, se tornar minimamente plausível. Qualquer questão envolvendo a ex-mulher é escanteada irresponsavelmente por muito tempo até ser supostamente importante para a trama. Ao ser concluído o arco, tudo pode ser visto até mesmo com um profundo mau-gosto. Em seguida, ainda nasce a redenção que desmonta o caos criando mais caos, se supondo, convenientemente, antagonistas para essa história que era tão verdadeira. “Thunder Road” mostrava ser muito mais coerente quando graciosamente renegava o controle de uma figura que aparentemente era autoridade.

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