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Tinta Bruta

Tinta Bruta

Um corpo político em conflito com espaços reacionários

Matheus Fiore - 4 de dezembro de 2018

O corpo é uma ferramenta política poderosíssima no cinema de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon. Em “Tinta Bruta”, a dupla de gaúchos constrói um universo no qual a exposição da própria nudez é o único meio de libertação do protagonista. Pedro (Shico Menegat), um rapaz perseguido pela solidão e pelo abandono, utiliza o próprio corpo para a manutenção de sua existência. A relação ocorre de duas maneiras: na material, com a busca pelo sexo como fuga da própria realidade, e na imaterial, com o uso da própria imagem nua em sites de exibicionismo.

Pedro é um personagem definido por vazios. “Tinta Bruta” divide-se em atos que são nomeados de acordo com os abandonos que permeiam a vida do protagonista. Familiares, amigos e companheiros constantemente desaparecem da vida de Pedro. Isso resulta em um enorme isolamento, que é muito bem representado por uma fotografia gélida, que valoriza os espaços e utiliza a profundidade de campo para destacar o personagem principal dos outros, mostrando que mesmo quando Pedro está acompanhado, ele está sozinho.

É curioso que a ambientação de “Tinta Bruta” seja muito semelhante à da obra anterior dos cineastas, “Beira-Mar”, pois se trata de cenários bem diferentes. Enquanto o filme de 2018 é ambientado em uma das grandes metrópoles do país, Porto Alegre, o de 2015 refugiava-se no interior do Estado do Rio Grande do Sul. Essa ambientação fria, porém, é coerente com a proposta de criar um universo no qual o protagonista está constantemente sendo emocionalmente desgastado ou psicologicamente confrontado.

No epicentro da narrativa, a atuação de Shico Menegat é primorosa. Além de protagonizar cenas que trazem um nível de exposição não tão comum no cinema – Pedro não só se exibe na internet, como se masturba e transa com outros rapazes –, Menegat é capaz de, com seu olhar desolado e fala suave, dar camadas a seu personagem. Porque, por mais que saibamos que Pedro tem alguma violência em seu passado, já que “Tinta Bruta” começa com o personagem comparecendo a uma audiência de liberdade condicional por um passado violento, a figura principal do filme é quase sempre alguém que parece não ter o desejo nem a força para agir de maneira truculenta.

Pedro parece estar sempre em um estado letárgico, num meio termo entre aceitar sua condição solitária e buscar novos relacionamentos que possam ser alicerces em sua vida. Por tratar-se de um personagem que não tem um norte, o filme também parece, em alguns momentos, não rumar para lugar algum. Isso não é, de forma alguma, um defeito, mas apenas uma característica de uma narrativa que se apresenta como um ato político de resistência. O exibicionismo de Pedro e os constantes planos fechados e detalhe que registram seu corpo e partes íntimas são uma clara manifestação reativa ao ódio de uma sociedade heteronormativa que rejeita a diversidade sexual – vale lembrar, a cada 19 horas, uma pessoa pertencente à comunidade LGBTQ+ é assassinada no Brasil.

A ideia de Filipe e Marcio parece ser por como contrapontos o corpo e o espaço. Enquanto habita uma Porto Alegre cinzenta, fria e que se recusa a acolhê-lo, Pedro faz de seu corpo um “objeto” cheio de vida, sentimentos e sensações. Mesmo que a única constante em sua vida seja a perda e o sofrimento, é um personagem que se recusa a ceder e continua dançando ao ritmo de sua própria música. 

Mas os cineastas não se contentam com a simples construção desse cosmo onde o protagonista se divide entre físico e material. Há também uma disputa de personalidades em Pedro. Sua alcunha utilizada no mundo virtual, GarotoNeon, parece ser uma persona criada para que o jovem possa expressar sua sexualidade livremente. O grande conflito de Pedro, então, é conseguir levar para seu mundo material o personagem que existe apenas em seu quarto e em seu computador.

Esse conflito de personalidades faz com que a jornada de Pedro não seja por suprir a ausência deixada pelos abandonos que pontuam sua trajetória, e sim por transportar sua essência livre para o mundo material, onde parece estar sempre acorrentado pelo medo e pela rejeição. Em contraste com a cinzenta e vazia Porto Alegre de Pedro, filmada por Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, o mundo do GarotoNeon é colorido e vibrante pelas tintas usadas nas apresentações virtuais. Portanto, não basta que o protagonista dance em seu próprio ritmo, há de se conquistar espaços e fazê-lo nas ruas e pistas da cidade e trazer um pouco de alegria para um cenário tão frio.

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