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Under the Silver Lake (2018)

Under the Silver Lake (2018)

David Robert Mitchell explora as maquinações da grande mídia em sua épica comédia-noir conspiracionista

Redação - 1 de agosto de 2020
Por Vitor Torga

Uma caracterização bastante desgostosa da cinefilia recente é “um filme sobre o momento em que estamos vivendo, muito necessário nos dias de hoje” e por aí vai. Em essência, toda obra de arte é sobre o momento em que se vive, então, é ao mesmo tempo a afirmação mais fútil da necessidade de um filme, e a denúncia de que ao fim do período atual toda a sua importância vai ser invalidada, conforme a inevitabilidade do tempo. O que torna uma obra realmente atemporal é sua capacidade de sintetizar sua totalidade, da concepção à execução, e a reprodução, dentro da construção histórica cultural em que se encontra, do zeitgeist. Levando isso em consideração, Under the Silver Lake é um filme sobre o momento em que sempre vivemos.

Em seguida ao aclamado Corrente do Mal, o estadunidense David Robert Mitchell retoma os principais temas do seu grande sucesso: paranoia e sexo. Porém, de forma muito mais metalinguística. O apropriadamente nomeado protagonista Sam é o retrato extremo desse modelo falido de geração Y, bebe e fuma todo dia, engaja em sexo casual com uma conhecida que sequer nos dão trabalho de dizer o nome, não trabalha nem estuda, apesar de estar sempre com (não muito) dinheiro no bolso não pode pagar seu apartamento enorme ou seu carrão de marca e passa o dia espiando suas vizinhas e consumindo todos os tipos de mídia, desde zines e games até telejornais e filmes cinquentistas, procurando um grande significado nessa imensidão de produtos. Um dos focos de sua atenção é a vizinha Sarah, com quem consegue se conectar em uma noite de florescente romance, e por quem aguarda um convite para o amanhã que nunca virá. Afinal, no próximo nascer do sol, todo rastro dela e de suas colegas de quarto desaparecerá. A partir disso, o filme se joga na investigação completamente sem pé nem cabeça sobre o paradeiro da girl-next-door.

É aí que entra a metalinguagem dentro da metalinguagem, com outro conhecido, sem nome, de Sam lançando um monólogo sobre como qualquer pessoa minimamente inteligente tem uma paranoia justificada ao viver numa sociedade onde uma filha descobre que o pai morreu pelo Twitter, tudo isso enquanto toma uma cerveja no seu quintal e usa seu drone para espiar uma mulher seminua e chorando na maior naturalidade. O filme nunca recua em seu amontoado de referências visuais e becos sem saídas, mas a única pergunta que se presta a responder é sobre o desaparecimento do interesse romântico. Vários dos mistérios subsequentes são tão rapidamente abandonados quanto descobertos, levando diversas cenas a terem um papel aparentemente vazio, mas que reforçam o tom conspiracionista a todo momento. Essas cenas não foram previstas pelo seu paralelo com a trama principal, mas para enervar o espectador e deixá-lo no mesmo estado que Sam.

Em dado momento da sua busca pelos mais diversos signos da cultura ocidental, Sam encontra com um compositor jurássico em uma mansão vazia. Segurando a guitarra característica de Kurt Cobain, ídolo pessoal de Sam, ele ouve o velho tocar vários hits de sucesso da música americana ao longo das décadas que ele clama ter escrito entre um boquete e um omelete, inclusive a icônica “Smells Like Teen Spirit”. A música-tema do anti-establishment nada mais é do que um bando de acordes e frases calculadas pelo 1% do 1% e terceirizadas a um pianista marrento para apaziguar qualquer forma de revolta social. Até a própria contracultura só existe na reafirmação da estagnação do imaginário popular. É o momento em que o filme rejeita toda a premissa estritamente voyeurística de sua narrativa, pois existe um traço inegavelmente pessoal daqui em diante, graças à revelação de que a mulher em um outdoor de lentes de contato que ele frequentemente vislumbra, é uma ex-namorada que o largou por um ricaço, prenunciando o desfecho do mistério.

Alinhado à temática geral do filme, há um arquétipo de mulher constantemente reafirmado em quase todas as personagens femininas, que cumpre dois objetivos: justificar a obsessão com a figura da Sarah e acentuar a designação de poder dos homens sobre seus corpos. Embora Sam se interesse pela vizinha ao avistá-la em seu biquíni exposto no sol californiano, ao se aproximar, percebe que ela traja um vestido de veraneio branco e um chapéu com um florido rosa, e apesar de se drogarem e dividirem um beijo, ela pede pra ele se retirar quando suas colegas de quarto chegam. É uma distinção completa das mulheres que vão permear a tela daqui pra frente, como a vizinha sempre de topless, as atrizes-prostitutas com seus shortinhos, meias-calças e tops minúsculos ou os figurinos fetichizados da atriz com que nutre amizade-colorida. Os corpos são tão bestializados que, em alguns momentos, tanto em sonho quanto na realidade, Sam ouve apenas latidos saindo da boca dessas mulheres. Por fim, a outra mulher da trama que também foge desse arquétipo é Millicent Sevence, filha do bilionário dado como morto, que nos leva ao nominal Silver Lake para entregar sua última pista. Lá é baleada e afunda no lago espelhando a imagem da primeira Playboy para qual Sam se masturbou. É uma imagem extremamente poderosa: a única mulher que possui qualquer papel ativo na narrativa não tem interesse sexual no protagonista (há uma cena dela no início do filme beijando uma mulher numa festa, indicando que talvez seja lésbica), é punida por isso. A morte tira dessa mulher a sua sexualidade, seu diferencial, sua personalidade e a eterniza numa imagem puramente pornográfica.

É fundamental ressaltar que a investigação é ao mesmo tempo incrivelmente aleatória e surpreendentemente efetiva, pulos para conclusões ridículas se provam corretas e todas as informações estão ao alcance do protagonista sem a menor dificuldade. Afinal, por que esconder algo que ninguém está procurando? A verdade está exposta num emaranhado de irrelevância e descaso que só com muito tesão nesse conspiracionismo é possível desvendar alguma coisa. Sam, inclusive, não está seduzindo as pessoas em troca de informação, pelo contrário: com exceção de uma garota que avista recolhendo coisas do apartamento de Sarah, todos com quem conversa não parecem se importar muito em revelar seus conhecimentos. É tudo tão inconsequente, desde o quadrinista que fala mais do que deveria até as atrizes/prostitutas/concubinas e passando pelo compositor, que tudo que resta após o clímax é a reafirmação da insignificância do homem comum, nada além de um mistério a ser desvendado, cuja resolução não traz nada.

Ao reencontrar sua amada, ele descobre que a própria não está morta, sequestrada ou lobotomizada, está apenas fugindo dessa paranoia generalizada através da única forma que poderia, vivendo uma realidade reclusa patrocinada por um ricaço. Depois de ser acorrentado e interrogado – não sobre sua investigação que desvendou a grande conspiração hollywoodiana, mas porque há um par de biscoitos de cachorro no bolso – fica claro que Sam apenas não é importante. Ponto. Tudo que resta retomar sua vida vazia em silêncio. Se uma árvore cai na floresta e não há ninguém para ouvir, ela faz barulho? Se você sabe de algo que não como divulgar, isso realmente existe?

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