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Você Nunca Esteve Realmente Aqui

Você Nunca Esteve Realmente Aqui

Matheus Fiore - 14 de agosto de 2018

Joaquin Phoenix vem se especializando em interpretar personagens vulneráveis. Na última década, seus trabalhos em Amantes, O Mestre e Ela, por exemplo, trouxeram indivíduos que, seja por problemas cognitivos, traumas ou um coração partido, tinham na fragilidade seu grande traço de humanização. Em Você Nunca Esteve Realmente Aqui, dirigido por Lynne Ramsey (de Precisamos Falar Sobre o Kevin), Phoenix volta a construir um protagonista com as mesmas características. Dessa vez, porém, a fragilidade está essencialmente atrelada a uma brutalidade, e ambas as características são resultado de um ser humano marcado por seu passado.

Joe (Phoenix) é um veterano de guerra que trabalha encontrando meninas desaparecidas. Qualquer semelhança com Travis Bickle, de Taxi Driver, não é mera coincidência. A trajetória do protagonista é realmente muito parecida com a do “herói” do filme de Martin Scorsese. A grande diferença para a obra-prima de 1976 é que a narrativa de Você Nunca Esteve Realmente Aqui busca nos mostrar, por curtas frestas, o que habita a mente do protagonista.

Para isso, a montagem de Joe Bini é um dos aspectos que mais se sobressaem. Primeiro pelo apego pelo plano, fazendo com que os takes que duram um pouco mais do que o normal sejam uma marca da obra, mesmo quando acompanhamos a cenas mais aceleradas – como no ato de abertura, quando Joe é atacado por um homem em um beco e não há o corte. Mas o grande destaque do trabalho de Bini é como ele consegue penetrar as feridas psicológicas de Joe e nos expor seus pensamentos, inserindo fragmentos de memória em momentos de contemplação, tornando a brincadeira narrativa uma viagem à psique do protagonista.

A trilha sonora de Jonny Greenwood (o guitarrista do Radiohead que já havia feito trabalhos memoráveis em Sangue Negro, O Mestre e Trama Fantasma) segue o padrão da carreira do músico. Instrumentos desordenados com notas dissonantes fazem o espectador se sentir dentro da mente de Joe, o que causa uma estranheza, ao passo que nos ajuda a compreender quão perturbado é o personagem vivido por Joaquin Phoenix.

Com a mesma eficácia temos o trabalho de fotografia de Thomas Townend, que joga o filme na penumbra, criando uma atmosfera tão claustrofóbica e desesperançosa quanto o protagonista. A ausência da luz se faz presente principalmente no primeiro ato, quando o protagonista praticamente rejeita a câmera, se recusa a aparecer. Os primeiros planos que mostram o personagem, inclusive, deliberadamente enquadram partes do seu corpo e excluem seu rosto, a fim de mostrar como há um avançado processo de desumanização naquela figura brutalizada.

Essa relutância em dar as caras faz com que tenhamos a impressão de que Joe, de fato, não quer estar ali. Joe é um sujeito que constantemente busca o autoflagelo, seja de forma mais explícita, como quando utiliza um saco plástico para se asfixiar, seja de forma mais provocativa, como quando se deita e segura uma faca contra o próprio rosto de forma frouxa, como se torcesse para a lâmina escorrer de seus dedos e atingir seu rosto – aliás, este é o primeiro plano que mostra o rosto do protagonista em sua totalidade, o que já diz muito sobre Joe: é um sujeito que não suporta sua existência.

A construção feita por Joaquin Phoenix – que chegou a ser premiado em Cannes por sua atuação – acaba funcionando como o elo de todos esses elementos. Tudo parece convergir para Phoenix dar seu show; é nitidamente um filme “de ator”. Como fez nas obras citadas no começo do texto, Joaquin aqui é muito feliz ao buscar sempre suavizar as atitudes de Joe, fazendo com que os mais cruéis atos de violência não pareçam causar nenhum prazer. Os únicos sentimentos que os olhos e timbre de voz do protagonista entregam são sua constante melancolia de desesperança – e, para manifestá-los, Phoenix tanto faz uso  de um olhar cabisbaixo como movimenta-se de forma lenta e pesada, como se fosse obrigado a existir.

Diante da falta de tesão pela vida que acompanha Joe, é compreensível, então, que o personagem viva para resgatar inocentes e punir aqueles que ceifam a inocência de terceiros. É como se Joe quisesse compensar seu passado preservando a inocência das meninas que salva. E, sendo assim, faz todo o sentido que a obra tenha, em sua abertura, Joe fazendo uma contagem regressiva. O hábito, que é característica de uma das personagens salvas pelo rapaz, acaba sendo emulado por seu salvador, que, paralelamente ao seu processo de despersonalização, passa a repetir as atitudes dessa moça.

Joe, portanto, é um homem que está numa jornada de autodestruição constante, bem como deixa escapar, por sua fragilidade, um desejo de resgatar sua inocência. É, porém, um esforço em vão, pois aquele homem sabe que seu passado sempre assombrará seu presente. O que resta, portanto, é manifestar sua melancolia por meio da violência e torcer para que, um dia, ela resulte em seu fim. Não é à toa que Ramsey constantemente filma seu protagonista em um ponto específico do ambiente, corte para o ponto de vista de alguém observando-o e depois volta para o ambiente, mas sem Joe no quadro, como se sua presença e ausência fossem o mesmo.

Há de se destacar, porém, que Ramsey pouco tenta além do que já foi visto em filmes parecidos. Além disso, após estabelecer a ideia central de Você Nunca Esteve Realmente Aqui, Ramsey não busca desenvolver novas ideias, fazendo com que os 90 minutos da obra sejam apenas uma história de resgate banhada a sangue, e que todo o estudo acerca da trajetória de Joe não seja o foco, mas apenas um adereço. É narrativamente eficiente e tecnicamente bem executado, mas parece faltar vontade para dissecar o protagonista para além dos clichês do herói quebrado; parece faltar amarrar os bons trabalhos de som, fotografia e montagem em uma trama mais encorpada e vívida.

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