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WiFi Ralph: Quebrando a Internet

WiFi Ralph: Quebrando a Internet

Animação visualmente deslumbrante e com ideias coerentes e amadurecidas sobre as relações humanas

Ana Flavia Gerhardt - 13 de janeiro de 2019

Após a delicada rima que amarra as cenas inicial e final de “WiFi Ralph: Quebrando a Internet”, nos créditos já aparece uma das justificativas para o filme extraordinário a que acabamos de assistir: seus diretores Rich Moore e Phil Johnston agregam vastíssima experiência em animações excepcionais não apenas no Cinema mas também na TV, além de assinarem o roteiro e a direção de “Detona Ralph” (2012), do qual o assunto desta crítica é continuação. Sugiro aos leitores uma visita ao IMDb para admirar as carreiras desses dois grandes profissionais, que foram se consolidando com a criação de lindezas como “WiFi Ralph” bem como outras maravilhosas obras de Arte.

Na ficha do filme, Moore e Johnston se juntam a uma série de outros nomes responsáveis por trabalhos, alguns deles obras-primas, que o espaço deste texto não é suficiente para elogiar. De todo modo, acho importante citar esse detalhe para lembrar que filmes maravilhosos podem ser realizados por diretores estreantes, e alguns deles eu admiro muito. Mas outros vêm da lapidação constante e do conhecimento que os profissionais vão adquirindo ao trabalharem juntos em torno dos mesmos problemas e objetivos, e esse é seguramente o caso de “WiFi Ralph”.

Essa característica salta aos olhos em “WiFi Ralph”, que, entre outras virtudes, apresenta na tela uma compilação orgânica do resultado de tantas ideias excepcionais, que elas só podem ter surgido em meses de diálogo entre pessoas que gostam de trabalhar e se divertir juntas, e gostam de se divertir trabalhando juntas. Não vou roubar do leitor a surpresa prazerosa e o encantamento de ver todas essas ideias funcionando de forma azeitada no filme. Limitar-me-ei ao tema que fundamenta a continuidade da história entre dois amigos que cultivam afeto e cumplicidade ainda maior seis anos depois de testemunharmos suas primeiras aventuras – não descarto a hipótese de que o filme materializa traços da amizade que seus realizadores provavelmente mantêm dentro e fora do ambiente de trabalho.

“WiFi Ralph” funciona à perfeição como a continuação do primeiro filme estrelado por Ralph (John C. Riley), o “vilão” de um videogame retrô, e a pequena pilota Vanellope (Sarah Silverman), também personagem de outro videogame antigo. Em “Detona Ralph”, estabelece-se a amizade entre esses dois personagens de personalidades complementares, e já se anunciam as transformações de atitude que esse relacionamento proporciona a ambos. O tema central do filme, algo por sinal nada infantil, é o questionamento das noções do que é bem e o que é mal. Assim, Ralph descobre que sua habilidade “detonadora” não serve apenas para demolir as casas das pessoas; ela pode ajudar seus amigos em situações difíceis. Em contrapartida, nem sempre a habilidade “construtora” de Felix, o personagem do jogo que refaz o que Ralph desfez, é adequada para resolver problemas.

Mas “WiFi Ralph” não é apenas uma sequência do filme anterior: a história de 2019 enriquece e problematiza psicologicamente seus personagens ao dessituá-los de seu lugar tecnológico original e os obrigar a enfrentar a nova realidade virtual do século 21, completamente estruturada pela internet. Portanto, a entrada da rede mundial na história de Ralph e Vanelope não é um mero pretexto estético; é, sim, um elemento fundamental para a complicação das relações entre os personagens, e sustenta a estrutura da narrativa.  E é aí que, em termos de soluções visuais, o filme de Moore e Johnston são um deleite inesquecível para os olhos, porque eles transformam algo que existe, sim, mas apenas como ideia – a grande rede que conecta praticamente tudo em todo o mundo – em algo que tem dimensões físicas, movimento, cores e relações presenciais.

Não apenas as grandes empresas e redes sociais estão lá; a própria produtora Disney ocupa uma encantadora parte do filme, representada por suas princesas, que no século 21 são tão empoderadas quanto a corajosa Vanellope. Até nós, usuários, estamos lá, aos milhões, andando de um lado para outro e buscando tudo o que existe, e nossos avatares são como os bonequinhos funkos…. Nunca fomos tão fofos. Aliás, fofos também são os protagonistas (saída de um game do tipo “candy”, Vanellope, com sua sainha plissada, lembra um brigadeiro com cobertura de menta), desenhados de forma a se parecerem com os atores estadunidenses que lhes dão voz. Infelizmente, bem poucos brasileiros terão a chance de reconhecer essa semelhança, já que são pouquíssimas as cópias legendadas distribuídas nos cinemas do país, até em cidades maiores.

O visual deslumbrante e o roteiro que aproveita pertinentemente elementos que são parte intrínseca à rede mundial não comporiam um filme cinco estrelas (o máximo que posso dar, senão daria mais) se esses elementos não sustentassem ideias que extrapolam as fronteiras cognitivas de um filme infantil e abordam éticas importantes. A começar pelos desafios que a entrada num ambiente contemporâneo, completamente diferente do universo dos protagonistas, impõem à sua amizade. Ralph é mais afeito à acomodação às situações que estão dando certo, mas Vanellope quer estar sempre em movimentos de aprendizado e adora desafios. A internet, ou seja, o novo, para ele é ameaça, mas para ela é abertura de caminhos. A entrada da pilota adulta Shank (Gal Gadot) na história estremece a relação entre os amigos porque mostra a Vanellope um leque de possibilidades para muito além das pistas de corrida que Ralph, uma figura do passado, pode abrir.

É linda e madura, por sinal, a forma como o relacionamento entre Shank e Vanellope se estabelece: com competição, mas com admiração mútua entre as adversárias. Outros temas do filme, como por exemplo o feminismo agentivo das princesas Disney (aliás, todas as personagens femininas são agentivas, em contraste com o diminuto número de mulheres na produção do filme) e a materialização das inseguranças dos protagonistas, também são lindamente desenvolvidos. Vê-se claramente, na maneira como forma e conteúdo recebem a mesma qualidade de tratamento, que “WiFi Ralph” é um filme sofisticado, que traz ideias mais interessantes que muito filme pretensamente adulto, e muito bem embaladas. Para quem tem filhos, deverá ser um prazer dialogar com os pequenos a forma imaginativa como algumas questões do filme encontram resolução.

É linda também a escolha do título original “Ralph breaks the internet”, mantido como sub-título no Brasil, que no corpo do filme apresenta dois sentidos, ambos absolutamente orgânicos ao personagem. O título é a cereja (fruta preferida do “vilão”) do bolo confeitado que é a segunda aventura de Ralph e Vanellope, planejada e construída não apenas com talento genial, mas também com carinho e respeito absoluto pelos espectadores de todas as idades que se deliciarão na sala escura e em suas casas.

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