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Novembro de 63

Novembro de 63

Gustavo Pereira - 30 de junho de 2016

O fluxo de livros sendo lançados semanalmente é superior à capacidade de qualquer um para lê-los. Não por acaso, obras incríveis acabam passando batidas por nós. A proposta desta coluna do Kind Of Blue, que pretendo dar continuidade sempre que conveniente, tratará exatamente disso: falar de livros que estavam ao meu alcance e eu demorei mais do que deveria para tomar conhecimento deles. Críticas Tardias é “irmã” do Canto Cult, por assim dizer.

Nada mais adequado do que começar com Stephen King, autor de mais de 50 romances que você, mesmo se já leu muitos, não conhece todos. A Coisa, Christine, Carry, Sob A Redoma… existe muito mais do que isso, e recentemente terminei o inusitado, divertido, especulativo, chocante, encantador, aterrador e devastador Novembro de 63 (11.22.63, que você pode comprar pela Amazon clicando aqui).

Comum à maioria das obras de King, “Novembro” coloca um protagonista ordinário diante de uma conjuntura mastodôntica, à altura de Sir Galahad. Ou do Batman. Jake Epping é professor de Inglês em Lisbon Falls, Maine. Recém-separado de uma alcoólatra com quem não conseguia mais se conectar, recebe a mãe de todas as missões por Al, dono de uma lanchonete que vende hambúrgueres tão baratos que levantam suspeitas quanto à procedência da carne: impedir que John F. Kennedy seja assassinado em 22 de novembro de 1963.

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E se o cara que faz seu hambúrguer dissesse que VOCÊ pode impedir os acontecimentos desse dia?

Jake recebe uma avalanche de informações: a despensa da lanchonete de Al é uma porta para o passado. Para as 11h58min de 9 de setembro de 1958, sendo mais específico. O Gordobúrguer é tão barato porque usa carne comprada em um açougue do passado. Não importa quanto tempo se passe dentro da “Toca do Coelho”: ao retornar, terão se passado dois minutos no presente. Voltar para o passado desfaz as alterações feitas anteriormente. E, mais importante, o passado é obstinado em não ser alterado.

A primeira reação a tudo isso seria duvidar da sanidade de Al. A segunda, da própria sanidade. Mas Jake acredita neste homem que lhe vendeu hambúrgueres por tantos anos e decide viver no passado pelos próximos cinco anos (a Toca do Coelho leva apenas para 58, a única forma de chegar a 63 é permanecer no passado). Porque realiza que salvando Kennedy o mundo se tornaria um lugar melhor? Claro que não. Mas isso seria um spoiler.

Pessoas comuns são capazes de feitos grandiosos. Esta máxima pode ser vista em praticamente toda a obra de Stephen King, tanto para o bem quanto para o mal: de Carmody, fanática religiosa de O Nevoeiro, a Devin Jones, adolescente na fossa de Joyland, as circunstâncias extremas mostram quem cada um realmente é. E é esse “estado de natureza” que provoca o verdadeiro horror em seus livros. Um professor pode aceitar a convocação de um dono de lanchonete que sequer poderia ser chamado de “amigo” para salvar John Kennedy, mas terá todos os seus limites testados enquanto isso.

Jake vai para o passado com algumas missões estabelecidas, mas para passar cinco anos na “Terra de Antigamente”, precisa aprender a viver como um americano do fim da década de 50 e começo da de 60. Sob a identidade falsa de George Amberson, se muda para Jodie, no Texas (o assassinato de Kennedy ocorreu em Dallas) e se torna o que não poderia deixar de ser: um professor de Inglês. Faz amigo, muda vidas e se apaixona. Mas o passado é obstinado.

Típico da obra de King, eventos, personagens e peculiaridades muitas vezes não são explicados: são como são. Na era de Interstellar, “Novembro” é um bálsamo por não se prender ao que não interessa. Talvez você queira entender como é possível viajar no tempo pela despensa de uma lanchonete. Não saberá, simplesmente porque isso não muda o fato de que Jake/George fará a viagem de qualquer forma. É possível que se questione quanto à relevância de Mimi Corcoran, bibliotecária decisiva na contratação de George na escola em Jodie. “Ela é uma muleta narrativa!”, você pensará. E é mesmo, assim como aquela pessoa que pega ônibus no mesmo ponto que você se torna uma “amiga” até o dia em que se muda, nunca mais pega aquele ônibus e você percebe que nem sabe o nome dela. A vida é como é e não marca hora para mudar completamente quem somos e o mundo que nos cerca.

Por vários momentos, o puro cotidiano de Jake/George nos faz esquecer da sua missão e dos efeitos que pode causar no mundo. A História se faz assim: uma sequência de dias insignificantes intercalados por dias que mudam vidas. De uma pessoa, de um país, do mundo ou da própria realidade. Mais um aspecto para louvar King, que fez uma pesquisa impecável de como eram os Estados Unidos daquela época: pelos olhos do protagonista, vemos a História com ar de ineditismo. É o tempo verbal que nos traz de volta para a complexidade e iminente catástrofe da empreitada (não se iluda, ao ler um livro de Stephen King sobre a tentativa de impedir a morte de JFK, duas informações são dadas antes mesmo que a leitura comece: ela será impedida e as consequências serão catastróficas). Não são poucas as oportunidades de lermos frases como “naquela época eu não sabia”, “foi naquele dia em que” e “como eu a amava”. O pretérito, aliado a uma narrativa em primeira pessoa, nos dá a entender que os acontecimentos do livro já se passaram e o narrador, Jake Epping, sabe de mais informações do que está nos passando. O desprendimento de quem escreve sem a pretensão de ler lido reforça o ar do homem comum tentando fazer algo extraordinário e nos cativa exatamente porque, assim como ele, nós não saberíamos o que fazer para vencer o passado até que ele nos desafiasse. Torcemos por Jake, torcemos por sua amada Sadie, torcemos por seus alunos e amigos, temos tempo até para torcer por Kennedy.

O famigerado 22 de novembro de 63 só chega após 6/7 de livro mas não é o seu conflito central, afinal de contas. Viagens no tempo, mudanças no passado e consequências para o futuro são as tintas que King usa para pintar um quadro maior a respeito de três temas: amor, angústia e resignação. Porque ninguém além de Jake saberia que houve uma linha do tempo alternativa onde Kennedy fora morto, ou outra onde ele poderia ter sido salvo: o único que saberia o poder das transformações seria ele próprio. Apenas ele saberia se o mundo ficou melhor ou pior. Apenas a ele caberia a decisão de agir ou não e apenas ele teria de lidar com as consequências disso para sempre. Pra mim, isso é aterrador o bastante.

Sempre achamos que as coisas poderiam ter sido diferentes e isso tornaria tudo melhor. Se tivéssemos o poder para efetivamente mudar o passado, nunca daríamos nosso trabalho por pronto, porque sempre tentaríamos melhorar algo, que teria consequências em outros pontos e precisariam de novas alterações e assim sucessivamente (eis o Efeito Borboleta que o filme homônimo de 2004 pena tanto para explicar). Podemos nos prender a um passado idílico onde as coisas poderiam ter sido melhores ou olhar para frente e seguirmos nosso caminho. Novembro de 63 trata exatamente disso e é extremamente bem sucedido em seu propósito.

Então a música nos leva, a música manda os anos embora, e dançamos.

O livro recebeu, em fevereiro, uma adaptação em 8 episódios estrelada por James Franco. Já assisti ao primeiro e, assim que terminar, escreverei sobre ela. Se você é assinante Hulu, assista agora mesmo. Não comento sobre obras que ainda não terminei, mas acho difícil que algo supere o original. Talvez exista um futuro alternativo onde Stephen King não exista. Fico feliz por não viver nele.

Nota: ★★★★★

Novembro de 63 (11.22.63)

Stephen King

727 páginas

Primeira publicação: 27 de setembro de 2013

Edição brasileira: Suma de Letras~

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