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Dark 1×01 – Segredos

Dark 1×01 – Segredos

Matheus Fiore - 2 de dezembro de 2017

Com o sucesso absoluto de Stranger Things, é esperado que, cada vez mais, obras inspiradas na estética dos anos 80 surjam. Dark, em sua premissa, é uma delas. Mas a série opta por unir uma história à la Stranger Things com uma narrativa mais puxada para ficção científica e terror. É, então, uma história similar em sua estrutura, mas deliberadamente mais sombria, algo que fica implícito ao trazer um suicídio já nos primeiros minutos de projeção. A trama se passa em uma pequena cidade do interior da Alemanha, Winden, um município industrial que vive em função de sua importância para a produção de energia nuclear. Quatro famílias protagonizam a história, que gira em torno do misterioso desaparecimento de duas crianças locais.

Em seu episódio piloto, SegredosDark investe na construção dos cenários de cada personagem e na atmosfera da cidade. Estabelece os núcleos dos jovens e os dos adultos, que funcionam de forma paralela – enquanto os adolescentes e crianças passeiam pela cidade rotineiramente, sempre expostos a um clima soturno e amedrontador, os adultos se mostram tensos diante do sumiço das crianças e da incapacidade de resolver o mistério.

Se em Stranger Things a trama é conduzida com leveza e o mistério atiça a curiosidade, Dark opta por, como o nome sugere, seguir uma linha mais sombria. A trilha sonora baseada em acordes espaçados e agudos emana perigo a todo instante, bem como o uso de cenas que trazem planos panorâmicos da floresta de Winden, criando uma aura sombria para a ambientação. O suspense, aqui, é ferramenta de medo, não reles curiosidade.

Se nos takes externos a escuridão ganha destaque, nos internos não é diferente. Boa parte dos ambientes é fotografada com baixa luminosidade, deixando principalmente os cantos dos enquadramentos sob as sombras, fortalecendo a sensação de desconhecimento que permeia todo o episódio. A sombra, afinal, é, desde a filosofia antiga, um símbolo de desconhecimento e ignorância.

A construção visual da obra por meio de suas escolhas de planos também é importante para o desenvolvimento dos personagens. O protagonista, por exemplo, é um sujeito solitário desde a morte do seu pai, e por isso é constantemente fotografado em planos abertos enquanto caminha ou pedala pelas ruas da cidade, ressaltando o vazio ao redor de seu corpo – o que sugere seu isolamento.

Outro elemento apresentado no piloto que aproxima Dark de Stranger Things é a sugestão de múltiplas realidades e brechas temporais. O episódio insere, desde o início, citações e diálogos que sugerem temas como viagem no tempo e níveis de realidade (a citação à questão do déjà-vu ser um “bug na Matrix”, por exemplo). Não há, porém, qualquer sinal de orientação temática, permitindo que o espectador formule suas próprias teorias enquanto a trama é desenvolvida – o que permite que o mistério seja ainda mais interessante.

O tema central de Dark, porém, parece ser especificamente nossa noção de tempo. Assim como foi feito em A Chegada, de Denis Villeneuve, Dark traça uma análise de que o tempo não é linear, e que passado, presente e futuro não se sucedem, mas ocorrem paralelamente. Nisso, o roteiro usa duas frentes: a narração em off do começo do capítulo e o diálogo entre uma massagista e seu cliente, dizendo que as cicatrizes (marcas do passado) prevêem a vindoura chuva (evento do futuro) por meio do enrijecimento da pele. É possível, portanto, que os eventos aos quais assistimos no episódio piloto não ocorram na ordem cronológica, o que transformaria os episódios que se sucedem um interessante quebra-cabeças.

O episódio piloto de Dark segue o manual do suspense e da ficção científica com competência. Introduz sua trama, núcleos e conflitos dos principais personagens, e com eles, dá inúmeras pistas de diferentes explicações para os mistérios apresentados. Ao público, resta mastigar as informações e tentará decifrar enquanto assiste ao restante da temporada. Segredos é um capítulo inicial eficiente, dramático e de atmosfera intensa e assustadora.

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