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Diamantino

Diamantino

Filme luso-americano retrata a falta de sensibilidade da sociedade contemporânea

Matheus Fiore - 3 de novembro de 2018

O primeiro plano de “Diamantino” já expõe como a obra funciona: ao nos mostrar uma imagem do espaço sideral, os diretores Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt dizem que nós, o público, somos alienígenas. Adentramos, então, em um universo paralelo ao nosso e extremamente particular. Diamantino (ou Tino, como é carinhosamente chamado) é o melhor jogador de futebol do planeta. Chegamos ao seu mundo quando Diamantino disputa a final da Copa do Mundo de 2018, representando sua seleção, Portugal. Diamantino tem a chance de empatar o jogo nos minutos finais, mas perde um pênalti e, desolado com a derrota, abandona a carreira esportiva.

Diamantino

É um claro paralelo com o jogador português Cristiano Ronaldo. Até aí, tudo normal. Mas aos poucos a narrativa vai aprofundando-se em sua caricatura e revela, por meio da trajetória pós-aposentadoria de Diamantino, uma série de críticas socioculturais e políticas muito interessantes. Quando aposentado, Tino resolve adotar um refugiado moçambicano que, na verdade, é uma mulher espiã que busca expor as fraudes fiscais do protagonista.

Mesmo que seja óbvio utilizar seu protagonista para criticar figuras esportivas alienadas como Cristiano Ronaldo, “Diamantino” trilha um caminho bem corajoso e, em vez de desdenhar de Tino, blinda seu protagonista ao retratá-lo não como cúmplice de uma sociedade idiotizada e alienada, mas como uma vítima dela. É interessante observar, portanto, que enquanto tenha na criação de um menino refugiado seu novo objetivo de vida, Diamantino ainda protagoniza comerciais que falam sobre construir muros que separam Portugal do mundo. Fica claro, então, que “Diamantino” retrata uma sociedade que, de forma inconsciente, acaba lutando por pautas que vão contra suas próprias crenças – bem similar a um povo trabalhador que luta pela perda dos próprios direitos, como acontece no Brasil, diga-se de passagem.

Diamantino

Uma das escolhas do roteiro de “Diamantino” para tornar seu protagonista uma vítima, e não um cúmplice, é fazer com que ele seja mais reativo do que ativo – o que, vale dizer, é incomum na estrutura filmica, já que o normal é o protagonista ser o personagem atuante e, os demais, reativos. Porém, é curioso que mesmo sendo alguém alienado pela mídia e pela bolha social na qual está inserido, Diamantino consiga uma evolução gradual. E não é por acaso que, conforme o personagem apareça menos em cenas nas quais utiliza redes sociais, mais ele pareça estar consciente do mundo ao seu redor.

É elogiável também o fato de o filme trazer tantas questões socioculturais no pano de fundo sem a necessidade de explorá-las em demasia. Apesar de haver um foco em Portugal, o país retratado em “Diamantino” parece ser um amálgama de várias questões globais. Estão na obra referências ao Brexit, ao muro de Trump e à questão dos refugiados – vale lembrar, Portugal é um dos países que mais recebe refugiados na Europa –, por exemplo . O fato de tudo ser delegado apenas ao pano de fundo da narrativa funciona por dois motivos: o primeiro é pelo fato de tais temas não sobreporem o humor, que é, de fato, o grande trunfo de “Diamantino”; o segundo é referente à situação de alienação do protagonista. A partir do momento em que chegamos ao mundo de Tino, passamos a assistir ao filme com o olhar do atleta, o que faz com que temas políticos sejam algo que passe batido graças à bolha social na qual o protagonista está inserido.

Diamantino

O grande feito de “Diamantino”, porém, é manter-se fiel ao seu protagonista e ao seu ponto de vista. Isso se constrói não só pelo fato de a narrativa tornar elementos visuais os pensamentos do atleta – como os cães gigantes que aparecem no campo de futebol –, mas também pelo fato de os acontecimentos mais bizarros possíveis, envolvendo tramas de espionagem internacional e manipulação de massas, nunca terem um grande impacto. Porque, ao fim da projeção, a impressão que fica é que “Diamantino” quer mesmo é nos mostrar isso: que somos uma sociedade que perdeu o tato, foi entorpecida pela modernidade. Perdemos a capacidade de nos assustar com a bizarra guinada autoritária e individualista do mundo, e mesmo quando nos envolvemos em questões tão importantes como a dos refugiados, o fazemos apenas para benefício próprio.


Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Plano Aberto do Festival do Rio de 2018. Para conferir toda a nossa cobertura, clique aqui.

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